• Eber Urzeda Dos Santos

Sobre Meninas e Rosas

Atualizado: Mai 27






Sobre Meninas e Rosas


(Homenagem a Clarice Lispector)

Verônica levantou-se devagar e sozinha. Na poltrona do cinema, restos de pipocas e um ingresso solitário rasgado ao meio. Limpou o assento sem esperar que as notícias do dia seguinte a comparassem a um cidadão japonês. Ética, para ela, era coisa de berço. Com a mão direita, enxugou os olhos antes que eles entregassem seu quadro depressivo e agônico. Pouco importa seu problema mental — diziam as mulheres nas janelas —, o importante é comportar-se como se não tivesse um.


Enquanto esperava o ônibus, acompanhava os gritos das crianças e mães horrorizadas com o espetáculo da vida. Sentada junto ao meio-fio, uma menina de cabelos longos desenhava com uma pedra um sol sorridente. Desenhar sorrisos é algo muito triste: pensou Verônica, no exato momento em que se arrependeu de seguir a prescrição dos doutores da cidade: passeios e exercícios físicos.


Desde criança, a dificuldade de relacionar-se, de enquadrar-se em determinado grupo fez com que os olhares externos a tivessem como um espírito sofredor, ao ponto de desejarem uma fogueira em praça pública, principalmente por seus primeiros poemas ainda na escola primária. Padres e pastores foram chamados, mas pelo sexo não conseguiram expulsar o demônio. Apenas a fé em Deus e o respeito ao próximo foram exorcizados.


Agora, ali, sentada no ônibus que a conduziria de volta a sua pequena cidade, Verônica fora surpreendida por uma pergunta:


— Posso?


Levantou o olhar e contemplou um jovem rapaz. Antes de responder, ainda lutando contra o sono causado pelo balançar da viagem e pelos buracos da estrada e da alma, Verônica reparou no título do livro que o rapaz trazia consigo — Laços de Família. Por Deus: que ser é este que nos dias de hoje ainda lê Clarice Lispector? Pensou atônita!


— Claro, por favor! Disse ela sem tirar os olhos do livro, enquanto retirava sua bolsa do lado e pousava-a sobre o colo.


— Você gosta de ler?


— “A rede perdera o sentido e estar num bonde era um fio partido; não sabia o que fazer com as compras no colo: E como uma estranha música, o mundo recomeçava ao seu redor”. Declamou Verônica, evitando olhar direto nos olhos do moço. Como se quisesse, ao mesmo tempo, prender sua atenção e assustá-lo.


— Uau! Isso é do conto Amor… como você se lembra?


Para Verônica, Ana, a protagonista do conto, era uma espécie de portal entre a caverna mecânica das sombras e o mundo real. Suas angústias tornaram-se ao menos suportáveis depois que, aos quinze anos, lera pela primeira vez o conto de Clarice. Ao contrário de Ana, que saiu da caverna pela primeira vez ao refletir sobre um cego que mascava chicles no escuro, Verônica enxergava desde criança que a felicidade era inútil, por se tratar de escassos instantes de prazer em uma vida constituída, a priori, de dor. E que as sombras do interior da caverna eram, de fato, a única possibilidade de vida feliz, fazendo do mundo um palco e de si uma personagem maravilhosa, sem conflitos, entregue à felicidade eterna.


Fausto disse-lhe seu nome e demonstrou encantamento ao conhecê-la. Verônica apenas assentiu com um leve movimento de músculos faciais, mas nada que parecesse um sorriso. Ele estendeu-lhe a mão para que fosse selado o ato do encontro, mas ela não demonstrou interesse em pactuar do momento íntimo de duas pessoas que se encontram pela primeira vez, senão um interesse quase doentio pela mão esquerda do rapaz: a que segurava firme a bíblia das angústias. Então, tomada por um desejo brusco, avançou com as duas mãos em direção ao livro e tomou-o para si, apertou-o contra o peito e suspirou aliviada.


— Você parece-me uma boa pessoa. Não deveria sair por aí empunhando este tipo de arma. Isto aqui, Fausto, enseja a liberdade. E não há nada mais perigoso e incontrolável que a liberdade. — Fausto demonstrou espanto, mas também interesse e deixou que ela continuasse. — Sabe, desde criança fui encorajada a seguir pelo caminho da realidade. Enquanto meus amigos esperavam o Papai Noel no Natal, eu esperava meu pai chegar bêbado a casa com a esperança de um único presente: o de não apanhar antes de ir pra a cama. E assim cresci, entre o medo e a esperança. Quando tinha dezesseis anos, a professora nos deu uma aula de interpretação de texto. Foi a primeira vez que li o conto Amor, de Clarice Lispector. À medida que eu lia e relia o texto, mais eu sentia inveja da protagonista, Ana. A princípio, identifiquei minha própria mãe como o retrato mais fiel da personagem principal do conto. Com a diferença que minha mãe, creio eu, não seria capaz de reconhecer a realidade num simples cego a mascar chicles no escuro ou mesmo em ovos quebrados, ela tinha sua própria caverna, suas próprias sombras. Se ela era feliz ou triste, nunca saberei ao certo. Mas sei que ela viveu em seu mundo automático: limpava cada vestígio de poeira que se acumulava nos móveis e sorria de qualquer absurdo que nos batia à porta ou nos apresentava os programas televisivos de domingo à tarde.


Fausto olhava como Verônica acariciava o livro, passando seu dedo indicador com suave cuidado sobre o relevo das letras que titulava o livro: Laços de Família. Vez ou outra, olhava-a tentando entender o porquê de tantas reflexões críticas, uma vez que sua beleza e outros atributos tão valorizados pela sociedade lhe permitiria ter uma visão mais ingênua da vida, sem a necessidade da autoflagelação.


O ônibus aproximou-se da casa de Verônica. Ela agarrou-se às mãos de Fausto e os dois desceram juntos. Caminharam até o portão sem trocar uma palavra ou um olhar: ela o arrastava, tinha o coração disparado e caminhava como se não quisesse ser vista. Ele, ao contrário, desejou ser visto por todos. Como criança birrenta, atrasava os passos e olhava em volta, mas as janelas vizinhas estavam vazias, era hora do jantar, deixou-se levar.


Ela destrancou a porta com fúria, acendeu a luz, puxou-o para dentro, levou-o ao quarto e atirou-o em sua cama. Pegou o livro, folheou-o até encontrar o conto Amor e rasgou apenas suas páginas. Logo, atirou o livro com força na parede. Ainda ofegante, mordendo os próprios lábios, sem julgar-se sensual ou comedida, despiu-se sem cuidados eróticos e saltou sobre Fausto. Sentada sobre o corpo do rapaz assustado, Verônica olhou pela primeira vez no fundo de seus olhos e viu um precipício. Teve medo de cair, mas, ao mesmo tempo, sentiu um desejo enorme de sentir seu corpo caindo. Foi a primeira vez que experimentou a completa liberdade de escolha, o grau mais intenso da angústia: a vertigem de liberdade de Kierkegaard.


No outro dia, Verônica acordou muito cedo. Pela primeira vez na vida, notou a desordem de sua casa e a sujeira espalhada por todos os cantos. Antes que a ideia de café pudesse invadir-lhe a mente, foi à cozinha, abriu uma das gavetas do armário e viu um objeto que antes era a razão de seu temor, mas que por algum motivo desconhecido tornou-se seu mais fiel companheiro a partir daquele dia. Pegou-o com cuidado e afagou todos os móveis de sua casa, até que mesas, estantes e armários refulgissem suas vergonhas.


Verônica, hoje, passeia pela praça do centro da cidade sorrindo. Seu riso tresloucado lembra as crianças e o sol desenhado no asfalto de sua infância. Faz selfies divertidas, cheias de vida vazia, para logo publicá-las em suas redes sociais, com os dizeres: “simplesmente feliz”. Não obstante, ao andar pela cidade, evita os cegos que mascam chicles. E ao chegar a casa, observa que os espelhos estão virados para a parede. As opiniões conservadoras não levam em conta a dor e o contexto da angústia: dizem que Verônica é moça direita. Sobre Fausto, dizem que nunca o viram. Algumas ousam inclusive filosofar — Fausto, de fato, é uma invenção de seu espelho!


Eber Urzeda dos Santos

21/04/2020

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"Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência".

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