• Eber Urzeda Dos Santos

Schweinsteiger em Hidrolândia

Atualizado: Mai 27




Schweinsteiger em Hidrolândia

(Aos meus queridos amigos de Hidrolândia)

Sentamos no banquinho da Praça do Cruzeiro, próximo à sorveteria. Meu amigo, cujo nome preservo, parecia ansioso para me contar suas aventuras da noite anterior:

— Cara! Véi! Nossa senhora! Você não vai acreditar!

— E não vou mesmo!

— Deixa de ser besta, escuta só!

Então ele narrou os fatos - segundo ele, verídicos - sobre o dia em que conheceu a moça mais linda do universo (outra vez segundo ele) e como conseguiu conquistá-la. Tirou do bolso o celular, tentou desbloqueá-lo três vezes.

— Espera aí. Você não acredita, né? Vou te mostrar a foto dela, assim que essa porra desbloquear.

Lá pela décima tentativa, ele conseguiu. Realmente a moça era linda! Aliás, a moça era tida como um cartão postal de Hidrolândia. Nesse momento, uma dúvida filosófica: a beleza e a inteligência são valores excludentes?

De repente interessei-me pela tática da conquista, enquanto contemplava a moça da foto. Achei aquilo estranho: ela estava com uma carinha triste, olhar distante e nada à vontade na pose.

— Foi você quem fez a foto? Perguntei preocupado.

— Foi sim, ontem mesmo, lá na praça de baixo.

— Ela parece incômoda com alguma coisa, né?

— Era o frio. Mês de junho, à noite, próximo à Rua da Paca… sabe como é, né? Mas isso não vem ao caso. Fique quieto aí e ouça: quando saí do trabalho, caminhei pela Rua índio do Brasil até à Rua Dirceu Mendonça, ali coincidi com ela. Cumprimentei-a: aperto de mão, três beijinhos, alguns “e aís?” até que ofereci minha viril companhia pelas ruas pouco iluminadas da cidade.

— Quem nunca?! Interrompi-o por um instante.

Ele disse que buscou vários assuntos para “desbloquear a tela” da menina.

— Primeiro a perguntei se ela gostava de ler. Ela respondeu que nunca lia. Que nunca encontrava tempo para ler. Desisti, então, de Dostoiévski, Balzac e Machado de Assis. Tentei com filmes: mas ela respondeu que gostava mais de séries (Chaves e Chiquititas). Achei estranho, mas continuei tentando.

— Eu também continuaria. Voltei a interrompê-lo, para aquilo não virar um monólogo de “sofrência”.

— Pois é! Foi então que perguntei o que ela gostava de fazer nos finais de semana. Sabe o que ela respondeu?

Puxa vida! Deu medo da resposta dela, mas continuei firme: “sei não, diz aí”.

— Cara, ela disse que gostava de ver futebol com o pai.

Nesse momento, perdi minha esperança na humanidade. Não porque a moça gostava de futebol, o problema é que eu já sabia a conversa que o maluco jogou para cima da pobre menina.

— Pelo amor de Deus! Você não escalou a seleção da Alemanha de 1970 até a de 2014 pra ela, né?

— Tá doido, cara?! Claro que não: foi só a de 2014 mesmo!

Meu querido amigo cultiva certa paixão por nomes estrangeiros. Às vezes comenta a Champions só para pronunciar os nomes que ele mais gostava: se o Cristiano Ronaldo faz um gol de bicicleta do meio campo, para ele pouco importa. Mas se numa jogada de pura sorte, a bola pega na canela do Bastian Schweinsteiger e entra, é a glória!

— Agora eu sei por que ela estava com a cara feia na foto! Disse eu aos risos.

— Tá louco? A foto foi tirada antes do papo cabeça. Depois que falei do Philipp Lahm, Bastian Schweinsteiger e do Thomas Müller, ela pulou no meu colo.

Não falei nada, só pensei: “Eita trem doido: tenho que para com essas coisas de poesia…”.

***

Cinco meses depois recebi o convite do casamento. Eles estavam muito felizes. O casamento na igreja foi lindo. Logo fomos todos ao salão de festas. Bebi bastante, estava muito feliz por meu amigo. Eis que ele surge com o microfone na mão e pediu a atenção de todos.

— Um minuto, por favor, meu melhor amigo vai falar.

O salão de festas estava enfeitado com o tema da Champions League: bolas azuis e brancas por todas as partes. As madrinhas vestidas como bandeirinhas, os padrinhos, como árbitros de futebol. Aquilo estava parecendo uma casa de swing. Mas mudei de ideia quando vi o padre dançando forró com uma das bandeirinhas – Perdão, senhor!

Ele me entregou o microfone e ficou do meu lado, sorridente. Fiquei algum tempo com o microfone para baixo, enquanto observava tudo ao redor. Talvez para ter uma ideia de como começar o discurso.

— Já que o tema é futebol e foi isso que proporcionou a união do casal, eu gostaria de dizer algumas verdades (era melhor não ter bebido tanto). O casamento tá muito bonito, mas vocês não podem continuar vivendo essa farsa - os burburinhos pararam, todos os convidados se sentaram e engoliram a seco -. Eu preciso dizer a verdade contida nas entrelinhas do que uniram vocês dois, antes que vocês descubram tudo e seja tarde demais.

“Muito tarde para recuar”! Pensei e senti calafrios. Minha mão suava frio, minha baba bêbada já havia lambuzado todo o microfone, mas me sentia bem: tanto que consegui deixar um dos olhos abertos enquanto falava.

— Muito bem, vou falar! Boa noite, senhores presentes, ausentes e das galáxias vizinhas! Nunca fui de excluir ninguém, acho que ficou claro. — Meu testemunho vai ser breve. Quero falar do dia em que os noivos se conheceram. Claro que sim: ninguém se casa sem se conhecer… Já diria Mefistófeles.

Uma moça solteira gritou lá do fundo: “adoro Fausto”… Não entendi a ironia e continuei.

— Sei que meu amigo usou alguns homens para te conquistar…

Dessa vez quem gritou foi meu próprio amigo: “adoro uma suruba, é nóis”. A moça do Goethe abriu um sorrisinho lerdo. O sogro levantou-se, pegou a sogra pelo braço, porém se sentou novamente. Continuei:

— Sei que ele, naquela noite insólita, te falou do Phillip Lahm, Thomas Müller, do Bastian Schweinsteiger, entre outros. Nomes difíceis de pronunciar, né? Mas agora que vocês se casaram, é preciso desfazer esse conto de fadas. Casamento é coisa séria, vamos parar com esse negócio de achar que coisa bonita é coisa estranha. Vamos começar por esse tal de Phillip Lahm: imaginemos que ele busque um time de futebol aqui no Brasil para jogar. Com esse nome, ele não jogaria nem no time do Zé Pai D’égua. Claro que não! Imaginemos a cena:

— Seu Zé, eu queria jogar no seu time, posso fazer um teste?

— Como é seu nome?

— Phillip Lahm.

— Quero saber seu nome em português, na língua de Camões (não subestimem seu Zé).

— Bem! Phillip aqui vocês chamam de Felipe, que em grego quer dizer: amigo dos cavalos.

— Até aí tudo bem: cavalo… égua… é nóis, véi! Mas e Lahm, que significa?

— Lahm em alemão significa lento, paralítico, paralisado…

— Então quer dizer que seu nome é “Amigo do cavalo lento”, “Felipe Lento”, “Felipe Macha-Lenta” ou “Cavalo Paralítico”? Moço, acho que nóis num tá precisando de lateral-direito não. Nóis já tem o Chita e o Zé Pacamã, os dois estão disputando uma vaga só.

Depois de desfeito o primeiro conto de fadas, chamado Phillip Lahm, vamos tentar agora que o Thomas Müller tenha mais sorte no time do Zé Pai D’égua.

— Bom dia, seu Zé. Eu sou atacante. O senhor tem uma vaga aí pra gente?

— Qual é a tua graça?

— Thomas Müller, senhor.

— Traduz aí pra nóis.

— Bem. Thomas aqui é Tomás, que vem do aramaico e significa “gêmeo”.

— Gêmeo… tá bonito, eu gostei do nome. Você pode correr por dois, né? Mas e Müller, que diabos é isso?

— Müller, cuja pronuncia aproximada é “Mula”, diferente do “Miller” que vocês pronunciam por aqui, vem do alemão mesmo. Como tantos sobrenomes que têm origem em uma profissão, Müller significa: aquele que trabalha nos moinhos de farinha.

— Então quer dizer que você é o famoso: Tomás da Farinha, o Gêmeo do Moinho… acho que tá difícil de conseguir uma vaga no ataque, seu moço. Já contamos com o Preá, o Jacaré, o Biloca… E correndo por fora, ainda temos o Bãe Maria e o Vaguin da Doida. Acho melhor você procurar um time lá para as bandas do Bonito do Meio.

Mais um conto de fadas desfeito. A noiva deixou o copo sobre a mesa e pôs-se a beber no gargalo da garrafa. O noivo, que parecia ter perdido a identidade, sentou-se e abriu uma garrafa de água mineral. Olhei para o salão e todos pareciam esperar o golpe de misericórdia. Nesse momento, meu amigo começou balbuciar algo. Fazer leitura labial com um olho só aberto foi difícil: “Schweinsteiger nãooooo” Como meu amigo sempre foi um fanfarrão, entendi o não como um sim.

Agora, meus amigos, imaginem a cena com o nosso querido Bastian Schweinsteiger.

— Fala, seu Zé! Fiquei sabendo que seu time tá precisando de um meio-campo habilidoso, posso fazer um teste?

— Pelo amor de Sócrates! Outro alemão que pulou o corguinho! Você é o famoso quem?

— Bastian Schweinsteiger.

— Divino Padeterno tudo junto. Tem como abrasileirar isso aí pra nóis?

— Bastian, o senhor sabe: é Sebastião mesmo, simplesmente Tião.

Seu Zé tirou o bonezinho da cabeça e coçou a careca enquanto o galego (que não tem nada a ver com Galícia) continuou com a tradução daquilo que era seu nome.

— Schweinsteiger, meu sobrenome, não é tão complicado como se imagina: no idioma alemão, existe um processo de construção de palavras chamado Kompositum, palavra do latim que significa composição, no caso, palavras compostas. Na Língua portuguesa, precisamos usar preposições para agrupar conceitos (certidão de nascimento, tarefa de casa…). A única diferença do alemão, é que não é usada essa preposição, então as palavras são agrupadas em uma só. Por exemplo, a composição Geburtsurkunde: Geburt [nascimento] e Urkunde [certificado] forma o conceito “certidão de nascimento”. Já na composição Hausaufgabe, temos: Haus [casa] e Aufbage [tarefa], formando o conceito “tarefa de casa”.

Seu Zé acompanhava o raciocínio sem pestanejar. Logo, o alemão concluiu seu raciocínio:

— Meu sobrenome é formado pelo substantivo Schwein, que significa “porco”, e pelo verbo steigen, modificado para steiger, que significa “subir, subido”. Simples, não?

— Sabe o que é? Meu caro Tião Subido no Porco - disse seu Zé em tom sério -, nosso time tem o Pernaiada, o Bileu, o Mafu do Quita e inclusive já temos um estrangeiro: o Uochingtu (Washington, para os íntimos). Assim que vou ficar te devendo essa. Por que você não tenta uma carreira lá para as bandas do Caxambu? Fiquei sabendo que tão fazendo um apanhado nos terrões da região…

Depois de destruir a tese de que o que vem de fora é melhor ou mais bonito, senti que os convidados voltaram a respirar despreocupados. Por um instante, o silêncio reinou. Mas logo, depois de um “viva os noivos”, todos aplaudiram e a festa continuou. Os noivos se abraçaram e juraram amor eterno. Foi a primeira vez que se olharam sem máscaras. O amor, antes alicerçado em nomes ilusórios, agora tem o nome do quadrado harmônico: Storge, eros, philia e ágape. Sorrindo e fazendo o sinal da cruz - antes de entrar em um coma alcoólico profundo - dei minha última benção ao casal: “até que o Zlatan Ibrahimović” os separe.

Eber Urzeda dos Santos

25/07/2019

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"Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência".

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