• Eber Urzeda Dos Santos

Rumores Edealinenses: entre a solidão e a sulitude.

Atualizado: Set 10





Contos de Urzeda, por Eber Urzeda dos Santos


Rumores Edealinenses: entre a solidão e a solitude.

Pouco importa, disse-me Helena sobre os riscos. Pegou-me pela mão e deixamos a Escola Municipal Pedro José Leandro, em Edealina, antes do último sinal, aproveitando-nos do raro descuido do senhor dos portões. Angustiado, posto que é o afeto que não mente, acompanhei-a pelas ruas pouco movimentadas da cidade. Veio-me à mente, enquanto já notava certa alteração do meu equilíbrio emocional, a cena em que Hanna, a jovem pela qual eu escrevia poemas bobos de amor, lançava-me, de quando em quando, olhares de compaixão. Vez ou outra, ainda podia ler seus lábios: “não o faça”. Sussurrava ela, atenta às palavras de ordem e de reprovação da professora de literatura.

Faltei várias vezes ao respeito com os moradores que por nós passaram ao não lhes responder os cumprimentos. “Nunca faltei a si o respeito que lhe devo”: murmurei um par de vezes aos Edealinenses mais exaltados. Depois de cruzar a Praça da Matriz, aproximamo-nos de um Pit Dog, na esquina da praça, Helena agarrou-se em meu braço e puxou-me, sem meias gentilezas, para junto de uma árvore ao ver se aproximar duas senhoras com trajes de igreja a passos curtos e olhares atentos. Elas observavam o declive da calçada, não fosse pelo véu, poderiam os distraídos afirmarem se tratar de uma reverência ao subsolo. Helena abraçou-me, colocou o dedo indicador na vertical e posou-o em meus lábios. Aproximou seu rosto junto ao meu, nossos narizes se tocaram e nossos lábios ficaram separados apenas pela inconveniência do seu dedo.

— Fique quieto! Você sabe muito bem quem são aquelas senhoras. Elas não podem de maneira alguma descobrir-me aqui contigo. Fique em silêncio e continue me beijando. Elas são muito puras para bisbilhotar um casal se beijando. Disse Helena enquanto dissimulava um beijo cálido, típico do fogo dos adolescentes.

Com os olhos abertos, na verdade, arregalados, tentei acalmar-me para não ser sufocado. Pensava em Hanna: poderia ser ela, a louca a me beijar. Não que Helena não tivesse atributos para despertar desejos e pretendentes. Pelo contrário, ela era… é uma mulher de estética impecável. Apenas sempre teve uma cabeça aquém de sua idade e um coração afeito à aventura. Fora isso, desfilava pelos corredores da escola, causando pânico nos meninos e inveja nas meninas. O Caso é que, a mulher da minha vida, daquela época, certamente estaria a poucos metros da gente. Preocupei-me.

Quando as senhoras desapareceram, seguimos um pouco mais pela Rua Vinte e Um e dobramos à direita, na Rua Onze. Outra vez fui arrastado. Desta vez nos escondemos entre uma árvore e um trator estacionado sobre a calçada, também conhecida — mas mal interpretada — como passeio público. Alguns meninos passaram por nós. Eles não demonstraram significativa curiosidade pelo jovem casal a se esfregar à sombra de uma árvore, senão pelo trator que atrapalhava o tráfego dos pedestres e dos cães abandonados. Continuamos. Consegui libertar meus braços e os chacoalhei, numa tentativa de livrar-me do stress de ser controlado e por tudo que ainda viria.

— O que é realmente que tenho de fazer? Perguntei descortês.

— Calma, Jean! Não há razão para descontrole agora, tá bom? É coisa simples: você só precisa ajudar-me a recuperar a minha bolsa. Preciso de minhas coisas, sabe?!

— Tá bom, mas e o Raul, o que você fez com ele? Onde ele está?

— Um puta de um covarde, um filho da puta! Disse que me ajudaria, abusou de mim e desapareceu.

— Como assim… abusou de você? Ele te…

— Não, não foi isso! Na verdade, foi consensual. Mas aquele bosta sumiu, e ainda não me ajudou a recuperar minha bolsa.

***

Preocupado pelo desaparecimento de Raul, tentei colher informações de Helena como prometido a Hanna. Depois de três dias desaparecido, recebemos a visita da polícia e dos pais de Raul, primo de Hanna, na escola. Desconfiávamos de Helena, porque Raul, apaixonado por ela, sempre a acompanhava à casa depois da aula. Não dissemos nada à polícia, Helena também não se manifestou durante a visita. Então decidimos aproximar-nos de Helena para encontrar, ao menos, pistas do paradeiro de Raul.

Sentei-me próximo a ela e comecei a pensar em temas que pudessem fazê-la baixar a guarda. Ela balançava as pernas de modo acelerado e mordia a tampa de sua caneta com raiva. Senti sua respiração ofegante e seu olhar distante. Criei coragem e acerquei minha cadeira junto a sua:

— Tudo bem contigo, Helena? Você parece nervosa, posso ajudar?

Ela olhou-me a princípio com a cara de tédio que lhe era particular, porém logo viu que eu ainda continuava ali e esperava ajudar. Então, aos poucos, ela se abriu.

— É minha bolsa! Disse, descruzando as pernas e apoiando as duas mãos sobre os joelhos antes de pôr-se a balançar na carteira.

— O que tem sua bolsa, você a perdeu?

— Não, não! Respondeu irritada, mas continuou. — Eu sei onde ela está, mas… você poderia me ajudar a recuperá-la?

Helena olhou dentro dos meus olhos, levou as costas da mão direita meio fechada em direção ao meu rosto e acariciou-me. Uma explosão de sentimentos estranhos à minha percepção confundiu minha resposta e fez-me responder qualquer coisa, mesmo sabendo que a poucos metros, Hanna observava-nos, como havíamos combinado.

— Claro, uai! Fale onde está que eu busco pra você! Assim respondi, mas gaguejando como se minha dicção houvesse perdido o norte.

— Não, seu bobinho! Atentei-me para a intimidade repentina. — Temos de ir juntos. Eu mostro onde ela está e você a pega pra mim.

— Por que você não a pega sozinha? Retruquei sem pensar.

— Sabe, é que ela está debaixo d’água, lá no Poço da Pedra. Aquele burro do Raul a deixou cair lá dentro e escafedeu-se de lá, sem me ajudar. Gente, que raiva, que filho da puta!

Antes que eu pudesse dizer algo, ouvi o sinal do recreio e todos levantaram-se rápido e passaram entre a gente. Levantei-me também e disse que após o recreio nos falaríamos.

Saí, olhei para trás e a vi ainda sentada. Levei um susto quando senti alguém puxar-me pelo braço: era Hanna. Corremos pelo corredor e nos escondemos num canto da parede, para conversarmos sem sermos vistos.

— E aí, e aí? Perguntou-me Hanna, pressionando-me na parede.

Hanna era… é uma mulher encantadora. Em sua ausência, sentia dor pela falta e raiva pelos fins de semana — pois ela morava em uma fazenda distante da cidade. Os domingos à noite eram de desejo por sua presença e de esperança por uma segunda-feira alegradora e festiva. Eis que de tanto desejá-la, na falta, ela surgia a cada semana letiva. A rua, então, era tomada por uma primavera especial, a qual flores brotavam nas calçadas, a partir concretos, a enfeitar-lhe o caminho. E como sorria Hanna, parecia flutuar de tão bela. Eu, quietinho, esperava-a no portão, e ela entrava e pegava-me pela mão, presenteando-me com uma semana de talvez, depois de um fim de semana de não.

Encantado com a proximidade de nossos corpos, nada disse, apenas aproveitei o instante de vida feliz, antes que as mazelas do tempo me tornassem novamente um ser desejante, na falta, que clama pelo ser amado. Neste momento de transe amoroso, recebi dois golpes na costela, nada românticos, que me trouxeram de volta ao mundo real.

— Perdoe-me, eu… Ai! Recebi um beliscão dessa vez.

— Fala logo, Jê! Poxa, parece que ficou doido!

Apaixonado por ela ter me chamado de “Jê” e com medo de levar outro beliscão, contei a ela minha conversa com Helena. Hanna teve medo e aconselhou-me a não ir. Eu a tranquilizei e disse que não haveria o que temer. Afinal, sou um bom nadador e o Poço da Pedra não é um lugar tão perigoso. Ela pôs-se de acordo, mas impôs uma condição: ela nos seguiria até o poço para assegurar-se de que nada de mal passasse comigo. Achei lindo, resolvi aceitar, não por minha segurança, mas por sua presença.

O sino voltou a soar. Virei-me para voltar para sala, mas Hanna segurou minha mão e puxou-me para si. Beijou-me o rosto e pediu-me para desistir: “isto pode ser muito perigoso, melhor não ir, melhor avisarmos a polícia sobre o caso de Helena com o Raul no Poço da Pedra”. Disse ela baixinho. Mas depois daquele beijo no rosto — o primeiro —, senti que eu quebraria qualquer um ao meio, no auge dos meus quinze anos, tamanha a força e confiança que senti.

Aproximei-me de Helena, ela estava na mesma posição na carteira que a deixei antes do recreio.

— Cadê aquela bolsa? Vamos lá que vou pegá-la com os dentes e arrancar aquela pedra do poço na unha e quebrar aquela porra ao meio”: pensei, claro, ainda tomado pela força do beijo — no rosto.

— Olha aqui! Disse eu baixinho para não chamar atenção — Nós podemos ir depois da última aula. Ainda temos duas aulas de literatura, podemos sair um pouquinho antes sem sermos notados, assim não chegaremos tão tarde à casa. O único risco é a correnteza do córrego que passa pelo poço. Choveu, o córrego deve tá cheio. Você terá de saltar comigo para ajudar. Você sabe nadar, Helena?

— Não, eu não sei nadar. Se soubesse teria pego minha bolsa sozinha.

— Calma, só quero ajudar. É que se você não sabe nadar, é arriscado.

— Pouco importa, pouco importa, pouco importa os riscos! Disse Helena, mostrando-se irritada e confusa.

Neste momento, a professora pediu-nos silêncio e continuou falando sobre as Memórias Póstumas de Brás Cubas. Passei o resto da aula encarando Hanna, ela havia desistido da ideia de ajudar Helena, mas eu senti que poderia conseguir mais informações sobre Raul. Então, antes do final da última aula, deixamos os materiais com os colegas e de um a um pedimos permissão para ir ao banheiro: Helena foi a primeira, saiu rebolando, provocando como sempre. Depois eu, saí a buscar o olhar de Hanna e me deparei com um sinal de não, pelo balançar da sua cabeça, e um não vá, emitidos por mensagens labiais. Não vi quando Hanna saiu, mas ela era a próxima da lista dos apertados.

***

Enquanto caminhávamos pela Rua Dezessete, Helena fazia pequenas pausas, virando o rosto para não ser reconhecida pelas pessoas que passavam por nós. Chegamos à Rua Quinze e tivemos de descer bastante, para logo pegar a Rua Quatro e voltar em direção à Rua Vinte e Um. Ela fez uma ou duas piadinhas com a topografia das ruas. Chegou a citar Juscelino Kubitschek e Oscar Niemeyer, dizendo que seria melhor eles não visitarem a região. Não entendi o sarcasmo, estava mais preocupado em avistar Hanna.

Chegamos finalmente à Rua Vinte e Um e caminhamos até chegar à GO-319, onde havia uma empresa de laticínios. Ela pediu que aguardasse um pouco do lado de fora, deu um nó na camiseta, deixando seu piercing à mostra e entrou. Depois de alguns minutos, voltou com um copo de leite, o qual parecia congelar suas mãos, fazendo com que ela enrolasse sua camiseta no copo. Sempre que ela levava o copo à boca, levantava sua camiseta junto e deixava à mostra seus seios. Ela realmente parecia sentir prazer em se mostrar, não fazia questão nenhuma em dissimular.

Continuamos pela GO-319. Chegamos ao bendito Poço da Pedra. Pulamos a cerca de arame farpado e nos aproximamos do poço. Helena, sem demora, despiu-se completa, sem nenhum pudor. Eu não sabia se olhava para ela ou para trás, ou para o alto, ou sei lá para onde. Tirei apenas o tênis e a perguntei onde ela havia deixado cair a bolsa. Ela acercou-se e segurou minha mão:

— Venha, ajude-me a descer, mas não me solte.

Segurei em sua mão com força e em um galho de uma pequena árvore à margem do poço como apoio. Fui soltando aos poucos e ela afundava-se com uma das mãos estiradas para baixo, tentando tatear o fundo do poço. De repente, ela soltou minha mão e mergulhou, desaparecendo-se nas águas turvas do córrego. Veio-me um momento de pânico e tirei a camiseta para saltar em seguida. Antes de saltar, porém, senti uma dor profunda ao ser golpeado na altura da nuca e, desde então, nada mais me lembro.

Acordei treze dias depois de ser submetido a um coma induzido. Sentia muitas dores na cabeça e uma confusão desesperadora de pensamentos consumiam-me a alma. A primeira pessoa que vi foi a enfermeira, a qual, por sorte, era minha prima. Perguntei-a pelo ocorrido: por Hanna, por Raul e finalmente por Helena.

Minha prima, então, fez sinal para que eu fingisse estar dormindo. Obedeci, mas fiquei com os olhos semiabertos. Vi quando ela falou algo ao policial que esperava na porta, e ele saiu, olhando em minha direção, como a desconfiar de algo. Ela retornou ao quarto, fechou a porta e sentou-se ao meu lado.

— Jê, o que vou lhe contar é forte e estranho, mas creio que é melhor você saber por mim: O Raul foi encontrado amarrado a pedras no fundo do Poço da Pedra; Helena foi presa com uma bolsa cheia de pasta de coca e transferida para o presídio da capital. Ela confessou o crime: disse que foi forçada pelos traficantes a levar alguém ao poço para que este recebesse a culpa pela morte de Raul, morto depois de discutir com um dos traficantes, o namorado de Helena. Ela disse também que para receber drogas grátis, tinha de captar garotos revendedores, Raul era um deles. Ela confessou também que depois de te ferir, atirou você no poço. Mas como você não afundou, a correnteza o levou para o barranco. Então ela o tirou da água e juntou lenha e restos de capim seco para queimá-lo. Para sua sorte, veio uma garota e pediu por socorro, sendo atendida por peões que trabalhavam nas proximidades do Poço da Pedra. Helena, com medo, fugiu.

— Hanna, o nome da garota é Hanna, ela está bem?

— Não sei o nome dela, aliás, pelo que descreveram, não a conheço.

Depois de alguns dias recebi alta do hospital e pude finalmente voltar à escola. Meu único desejo era voltar a ver Hanna. Cheguei à sala de aula e todos olharam-me surpresos, de certo modo espantados. A carteira de Helena estava vazia, a de Hanna também. Poucos minutos depois, ouvi passos pelo corredor. Uma menina, linda e sorridente, sentou-se ao meu lado. Lançou-me um olhar de boas-vindas e cumprimentou-me com louvor:

— Bom dia, meu nome é Paula, e o seu? Você é novo aqui?

Sentada na mesma carteira, da mesma sala de aula, do mesmo turno, do mesmo ano letivo estava uma menina com a mesma beleza de Hanna, mas com outro nome, Paula. Antes de responder, olhei em volta: os alunos eram os mesmos, com exceção a Hanna e Helena. Então, pensei confuso: será que prefiro literatura ao amor, a falta à presença, os finais de semana às segundas-feiras. Creio que sim, por isso temo que o amor seja apenas uma ilusão, uma negação dentro de minha solitude. Por isso, agora sei: Hanna foi uma ilusão, Hanna nunca houve.

— Olá, Paula, meu nome é Raul! Encantado…!

Eber Urzeda dos Santos

07/09/2020

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"Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência".

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