• Eber Urzeda Dos Santos

O Terror dos Clowns

Atualizado: Set 1




Contos de Urzeda, por Eber Urzeda dos Santos

O Terror dos Clowns (O Eu contra Si mesmo)

Suzi despertou-se assustada. Apesar da zonzeira pós-sono, sentou-se, apoiou as duas mãos sobre a terra fria e notou que suas pernas estavam quebradas, flutuando nas águas podres, de correnteza fraca, do córrego Capim Puba, em Goiânia. O aroma das ervas orvalhadas, misturado ao putrefato das águas poluídas, subordinadas ao frio da manhã cinzenta anestesiaram seus membros.

Ela mordeu os lábios e levou as mãos para trás: firmou o corpo, elevou os quadris e arrastou-se um pouco. Repetiu o procedimento algumas vezes. Com muito esforço, conseguiu se afastar da margem do córrego, mas não o suficiente. Ainda com os pés tocando a água, voltou a levar as mãos para trás. Mas desta vez não encontrou terra firme, senão algo macio, revestido com um tipo de tecido liso, fluido e macio ao tato.

Os seus movimentos eram calculados para impedir que a dor, aparentemente vindoura, acordasse de seu sono profundo. Ela se virou devagar e viu um tecido colorido de aspecto brilhante e levantou a cabeça com muito custo. Queria ver o que havia tocado. A cena abominável a fez tragar o próprio grito, e sua consciência agiu rápido para levá-la de volta ao estado vegetativo e protetor.

Ao desfalecer-se suave pelo chão, sentiu sua cabeça tocar a terra úmida enquanto seus olhos esbugalhados ainda viram dois últimos flashes de terror: ao seu lado, um palhaço jazia trépido, com a maquiagem desfigurada, os olhos costurados e com um líquido denso que corria por sua boca, formando uma poça plasmática no chão, fervente em movimentos vibrantes, pelo ataque de girinos negros e raivosos, a subir e descer da boca do palhaço; e acima, sobre a ponte, viu um vulto a admirar o espetáculo. Logo ele afastou-se do parapeito da ponde e desapareceu pela névoa, deixando-a velar sozinha, involuntária, o palhaço do Capim Puba.

***

Suzi estava sempre contra si mesma. Seu gozo era por aquilo que a fizesse sentir-se mal. Culpava a mãe morta, o pai ausente, o menino do primeiro beijo e o professor que recusou tocá-la: quando a sós, após o último sinal de uma sexta-feira qualquer, esperou todos os colegas de sala saírem para fechar a porta. O professor guardava seu material tranquilo, quando olhou para a porta e a viu se despir sem pudor. Imóvel, acompanhou agônico o caminhar de sua aluna. Ela aproximou-se o bastante para sentir a respiração confusa e aterrada do professor. Sentiu um arrepio forte ao tocar-lhe a mão gelada, macia e impregnada de giz e medo. Tomada de desejo e tédio, pousou a mão do docente em seu seio e apertou-a com força. O professor, obediente ao superego da aula que acabara de lecionar, fugiu, deixando-a sozinha e furiosa. Suzi, antes de se vestir, ainda presenciou o horror de um conflito interno: uma parte de si sorria ousada, a outra, fraca e dócil, lamentava a ignomínia humana.

***

— O circo chegou, o circo chegou!!!

Festa na cidadezinha. Às primeiras horas da manhã, o velho calhambeque do circo a anunciar sua chegada despertava os meninos, espantava os galos e assustava os cães. Era um circo miserável, numa cidadela pobre a oferecer um espetáculo caro para meninos e meninas ricas, e quem mais pudesse pagar.

— O circo chegou, o circo chegou! Anunciava o velho carro de som. — Vai lá tu, vá lá você!!! Era um circo pobre, mas com cuidados imperativos.

Suzi, na cama, ainda pensava na mão do professor a tocá-la. No entanto, ao ouvir o carro de som, levantou-se eufórica. Sentiu o frio da manhã cinzenta de Mozarlândia e arrepiou-se. Maio era um mês cômico: fazia frio e tinha clowns na cidade. Pés descalços na calçada e o coração quente a olhar a maravilha assombrosa do automóvel que, quase em chamas, passava por ela. Ela pensou ver o palhaço: “nariz arredondado e vermelho / sorriso artístico e puro / no interior do carro escuro / a acenar pra mim”. Ficou tão extasiada, que teve de descrever a cena em verso, para logo declamá-la frente ao espelho, pois tudo que ela queria: era sê-lo.

A estreia aconteceu num sábado à tarde. Suzi jamais esqueceria aquele dia, porque todos os sábados à tarde eram dias de primeiro beijo. E beijo lembrava batom borrado e boca de palhaço ao final do show: excitação e dessorriso. Antes vieram outros, admitia, mas o primeiro beijo foi o de sábado à tarde, porque esse sim, lembrava palhaços e angústias. Naquela tarde, maquiou-se para o grande encontro. Escolheu um vestido de alcinha, leve, azul celeste, quase transparente. À mostra seus seios jovens e pernas virgens. Encheu os pulmões, empinou o nariz e saiu a perfumar, a princípio, a Rua São Paulo.

Apesar das manhãs frias de maio, as tardes eram de sol escaldante e quase proibitivas: mozarlandenses amuavam-se em suas casas e suplicavam à padroeira da cidade: “um tiquinho de nuvem, minha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, tenha piedade de nós!”

Suzi continuou sua saga. As ruas desertas e ardentes queimavam o ar, teatralizando miragens elevadas: de luxúria aos olhos da menina apaixonada — em seu mundo mágico; de soberba aos maridos de pequeno espírito — nos bares da cidade; e de ira aos olhos das esposas domesticadas — em suas jaulas imaginárias. Suzi aproximou-se da Rodoviária e avistou a imensidão das lonas coloridas. Pôs-se de pé cada um de seus pelos: a imaginar o palhaço com um cigarro, e um teto com espelho, pois tudo que ela queria: era tê-lo.

Pagou a entrada com cinco dinheiros, passou por baixo das cordas de segurança e invadiu o vale fantástico e secreto do circo. Viu leões tristes, empacotados a vácuo. Um elefante murcho deitado em suas próprias fezes, também um cavalo a receber outra mão de tinta, para voltar a ser zebra. Foi ao trailer do palhaço e bateu à porta. Um velho senhor de cabelos e barba branca abriu-a devagar e deparou-se com o terror. Suzi entrou sem formalidades, observada pela nova e desconfiada zebra.

Ainda hoje há murmúrios sobre o desaparecimento da pequena Suzi. Histórias alcoolizadas dão conta que ela vive no Rio Tesouras, a assombrar pescadores e banhistas entre as cidades de Mozarlândia e Rubiataba. Dizem que leva um vestido azul e a boca pintada como a de um palhaço. Que suas gargalhadas assombrosas, durante as tardes de sábado, podem ser ouvidas a quilômetros de distância, a clamar pela volta do circo e do palhaço, para findar seu pesadelo, pois tudo que ela queria: era vê-lo.

***

Alguns anos depois, Suzi deixou a cadeira de rodas. Comprou flores e desceu a Avenida Marechal Rondon rumo ao cemitério Jardim das Palmeiras. Ao passar sobre a ponte do Córrego Capim Puba, baixou a cabeça e tentou não se lembrar do passado que ainda a corroía. Porém o enfrentamento do próprio medo a fez refletir. Tomada de coragem e ansiedade, olhou para dentro de si. Ela parou, respirou fundo, acercou-se ao parapeito da ponte e olhou para baixo. À margem do córrego, fitas de isolamento usadas pela polícia ainda se balançavam com o vento. Ela voltou a imaginar a cena do palhaço morto e do vulto em cima da ponte. Com os olhos lacrimejados, percebeu que ocupava a mesma posição do vulto da noite misteriosa. Desejou reverenciar o terreno sagrado, onde o palhaço perdera para sempre sua última graça e apelo, pois tudo que ela queria: era revivê-lo.

Continuou sua caminhada pesarosa. Chegou à portaria do Cemitério Parque Jardim das Palmeiras e entrou sem que ninguém percebesse. As passarelas margeadas por túmulos fizeram-se infinitas. Ela observava as datas das lápides horizontais, e seus afetos mudavam as feições de seu rosto a depender de quanto cada finado havia vivido: sentia tristeza pelos que se foram jovens demais e não puderam sentir as frias mãos dos palhaços sobre suas espinhas dorsais, e alegria por aqueles que conseguiram viver tempo suficiente para provar os dessabores que a vida, intensa ou calma, apresenta depois de cada curto instante de felicidade.

Depois de longas reflexões a passear sobre os mortos, chegou à lápide do palhaço. O nome da personagem já não lhe era importante. Leu primeiro o nome, logo o sobrenome materno e o paterno. Ajoelhou-se e levou as mãos em formato de concha à boca, instigada pelo momento de pavor. Os soluços intensificaram seus lamentos e as lágrimas embaçaram seus olhos: diante de si, ao lado da lápide, um nariz de palhaço reluziu. Porém não havia tom rubro, o nariz tinha a cor lúgubre dos funerais noturnos, e no lugar do elástico, um fino cipó cheio de espinhos.

— Como pode um palhaço ter graça ou sensualidade, levando um nariz tão tenebroso sobre a face e espinhos a castigar-lhe o rosto? Pensou Suzi, pouco antes de sentir seus lábios cínicos envoltos num sorriso trépido!

Deixou as flores sobre o túmulo, pegou a fina coroa de espinhos atada ao nariz terrorífico, guardou-os em sua bolsa, levantou-se, tomou bastante ar, expeliu todas as suas tristezas e... sorriu, livrando-se de seu pesadelo, pois tudo que ela queria: era perdê-lo.

Aos olhos de Suzi, as manchetes de jornais eram tristes e vazias: elas já não anunciam os desaparecimentos dos palhaços nem dos professores, virou notícia corriqueira. Os tempos são outros, ela pensava: “os leitores já não gozam seu prazer ao descobrirem cavalos sob à tinta de zebras. Eles querem é a maravilha do mundo, do consumo desenfreado de felicidade eterna, da bebida verde das manhãs incertas, da comida dos pássaros de peito esbelto, da ejaculação predatória. Preferem a flauta de Pan à lira de Apolo: acham lindas as suas orelhas de asno a ouvir apenas o ruído do vento, posto que não há sabedoria fora de si ou conflitos internos. — Gente besta, meu Deus!” Dizia Suzi.

Depois de exterminar os próprios pais, o garoto, e o professor, ela reencontrou-se com seu vulto há muito desaparecido. Decidiram juntos que só um ficaria com aquele corpo. Jogaram damas, xadrez e cartas ao sabor da sorte. Porém, ao ver diante de si um curinga, duvidou das mazelas da vida e do palhaço no espelho da carta. “Seria o curinga afeito à sorte do jogo ou ao azar da morte?” Perguntou-se, já sabendo a resposta.

Continuaram e continuam o jogo: vencer a si mesmo é uma das grandes visões de paraíso, de representação aos olhos do outro no teatro da vida. Suzi, hoje, vive consigo mesma seus dias de glória ao prazer de seu único apelo, pois tudo que lhe resta: é esquecê-lo.


Eber Urzeda dos Santos

03/08/2020.

Se gostaram, por favor, deixem seu comentário, curtam a página e compartilhem com seus amigos!!! Adicione-me no Facebook: https://www.facebook.com/eber.urzeda.santos Curta minha fanpage: https://www.facebook.com/eber.urzeda/ Siga-me no instagram: https://www.instagram.com/eberurzeda/ Siga-me no Twitter https://twitter.com/EberEscritor "Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência".


#conto #literatura #ficção #terror #palhaço #filosofia #urzeda






© 2020 por Eber Urzeda dos Santos

  • Facebook ícone social
  • Twitter
  • Instagram