• Eber Urzeda Dos Santos

O outro lado de Anna Carolina

Atualizado: Set 11

(ou da depressão: uma doença silenciosa)



Contos de Urzeda: o outro lado de Anna Carolina

O outro lado de Anna Carolina

(ou da depressão: uma doença silenciosa)

Foi o maior ato de coragem de toda sua vida: o monstro a esperava em frente a janela de seu quarto. Seguiu a receita: fez suas reflexões ainda na cama e pôs-se de pé antes do nascer do sol. Manteve-se atenta às cortinas fechadas. Sua cama vazia não apresentava os sinais costumeiros do sexo fervoroso. Sentiu o vazio dos poucos minutos que duravam a relação matutina. Chegara ao banheiro intocada, porém com a sensação de ter passado uma noite de núpcias consigo mesma. Seus olhos passearam pelo banheiro e notou artefatos jamais vistos: os dias agitados tornavam as coisas simples imperceptíveis. A princípio, relutante, evitou o contato com o espelho.

Era um pequeno hotel interiorano junto a uma estação de trem. Um bucólico freio da vida: disseram os seus. Estava sozinha para livrar-se de uma depressão não entendida por quem usa máscaras. Acharam melhor: ela parecia um fardo pesado demais. Deixaram-na decidir por si mesma. “Antes não tivesse exposto minha depressão reflexiva”. Pensou Anna Carolina debaixo do chuveiro.

Enquanto a água inundava seus cabelos e batia com força no piso branco, ela reparava como os respingos debatiam-se contra a parede. Pareciam querer fugir dali, mas explodiam ao mínimo toque nos azulejos gelados e corriam de volta: para se juntar, uma vez mais, à grande família líquida. Incompreendidas, desciam rumo à fossa, onde perdiam sua transparência mundana, para seguir uma outra etapa de suas vidas, no limbo.

***

Anna Carolina acordou disposta: o gozo veio rápido, fingido. Deixou o namorado sonhando com cigarros e correu para completar sua maratona diária: ducha-depilação-ducha, roupão, café, secador, dentes, maquiagem, roupas íntimas, vestidinho azul de alcinha, brincos combinando, salto alto, altíssimo, relógio, celular, carregador, bolsa. Beijo no namorado? Não, ele ainda dormia. Carro do namorado na frente do seu, atrapalhando o tráfego e as emoções: chaves, carro pra lá, carro pra cá, fuga de casa.

O engarrafamento do primeiro semáforo sugeriu o retoque do batom; o segundo, conferir as mensagens; o terceiro, respondê-las. No trabalho, o porteiro a cumprimenta e sonha; a secretária assente e nauseia-se; o chefe a olha e deseja tê-la: — Hoje? Ela, sem julgar o mundo, responde em bom tom: — Claro! Vou ligar pra sua mulher e a gente combina! Em sua mesa o computador é rápido, as planilhas voam, o café tem cheiro bom e ela sai para fumar.

O almoço é rápido. No telefone, sua mãe indaga sobre a dieta do meio-dia, seu pai diz olá e adeus e seus irmãos sonham com a independência ou, mesmo, com a morte. Resta-lhe meia hora: pede um livro novo, um perfume importado e deixa a bolsa cara no carrinho de compras do site. Da cantina, sai às pressas, passa pelo porteiro, atônito com as almondegas, e lhe sorri; passa pela secretária, incrédula com a salada, e a feri; passa pelo chefe, transtornado com o molho na gravata, e o cospe.

À tarde, tudo é mais acelerado: novos dados para a planilha voadora, colegas que vomitam problemas pessoais, a conta que não bate, o tempo que se esvai. Supermercado: fila na seção de carnes, de frios, de peixes, de pães e dos caixas. O engarrafamento de volta sugere um cigarro, um câncer, uma morte lenta. Chega a casa, o namorado que deixou sonhando não é o dos sonhos: quarto revirado, garrafas de cerveja vazias na mesa, o gato com fome, o cão com sede e as chuteiras sobre a mesa do jardim.

Carol cozinha e canta. Carol lava e sonha. Carol passa e xinga. Carol arruma e dança. Ela trata dos bichos e se destrata. Chega o namorado: se comem, comem, TV, discussão, desculpam-se, se comem e dormem. Mas na noite em que tudo aconteceu, Anna Carolina não dormiu, saiu a matar: e matou a fome do gato, e matou a sede do cão, e matou os sonhos do porteiro, e matou as náuseas da secretária, e matou os desejos do chefe.

***

— Quando você decidiu matar toda essa gente? Perguntou-lhe a mulher de jaleco branco, enquanto Carol, maravilhada com o silêncio do consultório, deliciava-se no divã de camurça escura.

— Eles estão mortos só aqui! Disse Carol apontando o dedo indicador para a própria cabeça, entre o olho direito e a orelha.

Estimulada a falar sobre a noite da chacina mental, Anna Carolina abriu-se como se diante de si houvesse apenas um diário em branco, uma canetinha fluorescente neon de tinta rosa e uma xícara de café:

— Brigamos antes de fazer amor, de propósito, era nosso ritual antes da última transa do dia. Mas durante os fetiches das preliminares, notei um ponto luminoso no teto do quarto. Era como um olho de gato, parecia possuir o tapetum lucidum, próprio dos seres noturnos. Fiquei encantado com a luz e a paz emanada do ponto misterioso. De repente, um desconforto tomou-me os pensamentos. Vieram à mente os excessos do cotidiano e o vazio que isso tudo me causava, ao ver-me acompanhada, porém sozinha.

Anna Carolina fez uma pausa quando notou uma leveza inesperada ao narrar sua própria vida. Mas logo continuou:

— Eu havia me voltado para fora de mim. Eu era o ponto luminoso a olhar a vida da jovem entrelaçada com seu namorado na cama. Eu conseguia ver o mundo interior da mocinha: era uma caverna aconchegante, mas gelada e vazia. Ela debatia-se contra as paredes, tentava fugir dos porquês da vida: por que aquele namorado e não outro, por que aquela profissão e não outra, por que aquela empresa e não outra, por que aquelas relações e não outras, por que aquela vida e não outra?

Anna Carolina afastava-se de seu próprio corpo, flutuava sobre o divã como em uma espaçonave sem gravidade, buscava no vácuo seu diário e sua canetinha rosa. Depois de uma pequena pausa para o café, deu um suspiro apaixonado e continuou seu relato:

— Eu vejo a mocinha fora de si, ela olha para seu dia a dia, para vários aspectos de sua vida, sente-se solitária, vazia, e não se reconhece em sua própria vida, ela não é a senhora de sua morada. A pobre mocinha está passando por um surto de lucidez. Ela voltou-se a debater nas paredes de gelo. Vejo tristeza em seus olhos. Seu sorriso não é de alegria, senão de empatia. É uma linda mocinha que tenta tirar sorrisos alheios, porque não suporta a si mesma. Ela chora por dentro, porque não vê sentido no que vem fazendo de sua vida. Agora ela indaga a si mesma: — Quero apropriar-me dessa caverna, quero reapropriar-me do que venho fazendo de minha vida? A mocinha debate-se violenta na parede. Ela quer ressignificar sua vida, ressignificar tudo aquilo que fora vivido de modo precipitado e automático. Ela quer amar a si mesma, quer o gozo livre dos afetos de repressão, quer o ócio criativo dos filósofos, quer dançar sozinha e cantar seus pesares sem pesar: sem que os gatos morram de fome e os cães, de sede.

A mulher de jaleco branco abriu sua gaveta, retirou um bloco de receitas e deixou-se levar: uma viagem solitária, seguindo os seguintes preceitos; ao despertar-se, antes de sair da cama, reflexões sobre o estado presente de seu corpo. Deixar as pulsões agirem sem recriminá-las. Sentir os afazeres e gozar com eles: o frescor do creme dental; a temperatura da água correndo por todo o corpo; as roupas leves descansando na pele macia… Antes de tomar o café, encarar o monstro da janela. Depois, é só respeitar os desejos da alma, com moderação!

***

Anna Carolina estava pronta para encarar o monstro. Abriu a cortina devagar, destravou as janelas e preparou-se para receber a criatura das manhãs. Porém, sentiu pena das pessoas escravas do monstro da janela. Quis agarrá-lo, matá-lo e imaginou-se saltando. Flutuou para fora da janela, deparou-se com outras janelas fechadas, mas sorridentes. E como ela bailava: recriava, a seu modo, todos os passos da morte do cisne, do ballet clássico e envolvente. O monstro, meu Deus, era um cisne, e sua morte, inevitável. Um baile para anunciar que a morte é só mais uma etapa, uma metáfora para o fim de nossa existência, para o fim de todos os ciclos que passamos durante a vida.

Flutuou até chegar ao chão, o monstro estava caído, morto. A plateia levantou-se no fim do espetáculo: alguns sentiram um nó na garganta, outros apenas fome. Anna Carolina, então, viu-se diante da última estação. Perdera por pouco o último trem. O viu distanciar-se aos poucos e imaginou-se dentro dele. Mas o trem não espera, o maquinista é pontual. Ficou confusa, não se sabia triste ou alegre.

Pensou na depressão — a doença silenciosa —, no sofrimento humano, em suas próprias angústias e na dor do vazio profundo, que apenas ela poderia sentir, porque só ela sabia sorrir empática e gozar sozinha. Cheia de coragem, despediu-se dos passageiros do trem com um aceno distante, mas carinhoso. Fechou a janela, o trem partira, ela não. Desceu ao restaurante do hotel e sentou-se sozinha. Percebeu que podia ouvir sua própria respiração. Fechou os olhos e reverenciou a calmaria. Ao abri-los, sentiu sua alma renovada e toda felicidade do mundo: ao primeiro gole de café!

Eber Urzeda Dos Santos

10/09/2020


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"Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência".

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