• Eber Urzeda Dos Santos

Contos de Urzeda: O Mistério de Alixa Mabih, por Eber Urzeda dos Santos.

Atualizado: Set 1




Contos de Urzeda: contos literários, o mistério

O Mistério de Alixa Mabih

(A lenda de Parnaíba)

Sentei-me disposto a escrever um poema, não fosse pelo sangue que jorrava de minha caneta barata, teria conseguido, penso. As manchas da vermelhidão no meu caderno tomaram a forma do rosto de uma antiga colega de sala: Alixa Mabih. Esse vislumbre pavoroso, como todos os outros que remetem meu eu poético ao meu eu terrorífico, revelou-se impaciente e intimidador. De fato, senti-me intimidado, pois a caneta, para meu espanto, não era de tinta rubra como nos contornos do rosto de Alixa, senão preta, sombria como a cor das noites frias e nubladas.

Fechei a cortina improvisada da janela, pois incomodava-me a luz do poste, amarelada e insinuante, a refletir listras escuras em minha parede, piscando o tempo todo como a enviar sinais de cuidado. Tive a impressão de que alguém ou alguma coisa queria me dizer algo, mas não me interessei pelas mensagens da penumbra. Fechei os olhos. Eu só queria recordar-me da menina Mabih, cuja distância territorial e temporal exigiria de minha parte muita atenção, ademais de certo esforço de memória e de afetos.

Do longínquo dia 30 de junho de 2002, feliz por uma conquista, que não era a minha, e triste pela perca de um ente querido, que não era o meu, recordo-me, por força das emoções contrárias, de nosso primeiro beijo, que, aliás, foram dois primeiros ou um primeiro para cada um de nós.

Estávamos em frente a universidade, na Avenida São Sebastião, sentados à sombra tímida de uma árvore a agonizar-se com o calor de Parnaíba, no Piauí, e observados por um domingo inesquecível: Mabih manteve os olhos abertos e a boca estática, no segundo beijo, foi a minha vez. Tanto para ela quanto para mim, a idealização do primeiro “eu te amo para sempre” sucumbiu à primeira frustração das ideias que tínhamos formadas sobre o outro. Fora um amor idealizado a semanas, ocorrido em uma tarde e terminado após o segundo beijo. Aos dezessete anos, caro leitor, tudo é eterno.

***

Após as férias de julho, sentei-me próximo à mesa do professor. Mabih acomodou-se na última carteira à direita da sala de aula. Apesar de preferir a parte frequentada pelos alunos extrovertidos, guardando certa distância do quadro negro, ela não se sentia militante da turma do fundão. Sua solitude voluntária buscava apenas espantar os colegas que cultivavam a falsa perfeição aparente. Sentia pena daqueles que achavam que a felicidade tinha alguma utilidade na vida. Odiava sorrisos escancarados provocados por estupidezes, bem como manifestações de alegrias maquiadas a álcool, sexo ou consumo. Olhei-a por um instante enquanto dissimulava um olhar vago pela classe. Ela parecia ainda mais taciturna que no momento do término, do adeus, da despedida do amor eterno, dos dois minutos de relação mais íntima que tivemos.

— Não sou escrava de ninguém!

Era o que respondia a adolescente Alixa, ao ser pedida em namoro ou amizade. A liberdade conquistada a gritos e desobediência afastou-a dos abismos da vida. Desleais, pensava ela, eram os relacionamentos de cabresto e os hinos cantados nos tempos de escola, verdadeiros cursinhos adestrantes à servidão voluntária. Ela — punk — sonhava com o mocinho de gravata borboleta e suspensório: visões de mundo contrárias, porém ela, ela, e ele, ele.

— Ninguém senhor do meu domínio!

Ela seguia o pensamento estruturado na música das legiões marginadas pelos remanescentes do último grande golpe, e na filosofia lida as escondidas, pois aqueles, meus senhores, eram tempos bicudos.

— Enquanto em mim houver algo de humano, lutarei. Lutarei para não ser enganada ou forçada. Ninguém subjugará meus anseios, minha liberdade. Dizia Alixa em voz alta, parafraseando Étienne de La Boétie.

Mas como todos temos dias em que nos deixamos levar por fraqueza ou aflição: Alixa aceitou o convite de uma colega para conhecer os manguezais do Delta do Parnaíba. E eu aceitei o convite de um colega para passear de barco. Pensei que seria de grande valia deixar meu quarto escuro por algumas horas. Para ela, nada era tão cativante quanto raízes mórbidas emergindo da lama para tomar sol junto às coisas ditas belas da natureza. Porém, manipulados por uma broma macabra, ela e eu ficamos frente a frente, em um pequeno barco a motor, por um longo tempo.

Apesar da pouca idade, Jonas e Lia eram namorados de longa data. Lia era a única colega a quem Mabih tinha certo apreço — uma mocinha boca-suja, mas de grande coração. Jonas era meu vizinho e colega de classe: um rapaz atormentado e rude, porém tinha lampejos de empatia e honestidade. Todos frequentávamos o derradeiro ano no colégio, creio esse o motivo do desequilíbrio de ideias, a trazer-nos, ao mesmo tempo, a impaciência da espera e o medo do que viria acontecer no futuro.

Causou-me desconforto ver Mabih ali, séria, calada. Ela não pareceu se importar, observava as plantas às margens do Rio Parnaíba. Ela sorria por dentro. Era como um sorriso de Mona Lisa, ao ver a gradativa mudança da vegetação, à medida que nos aproximávamos dos manguezais. Eu sofria: angustiado pela sensação de liberdade que o rio me proporcionava.

Paramos em uma ilha e descemos todos. O solo arenoso à margem do rio ia transformando-se em barro argiloso em direção aos mangues. Diziam que nessa ilha havia um lago de água cristalina ao centro, mas as lendas do lago dos mangues, com suas dezenas de versões diferentes, jamais foram confirmadas. O local era evitado a todo custo por pescadores e ribeirinhos que viviam cerca dali. À noite, gritos misteriosos eram ouvidos por quem passava pela região. Eram gritos parecidos com gemidos, amplificados pelas correntes de ar.

Alixa foi a única que se sentiu bem na ilha. Jonas e Lia se olhavam pasmos e assustavam-se com qualquer borbulha que saltitava da lama fétida e fervilhante. Fizemos menção de voltar ao barco, mas Alixa caminhou a passos largos rumo ao mangue com suas raízes e galhos entrelaçados. Ninguém ousou chamá-la de volta. Seguimos em frente para não a perder de vista, mesmo contra os impulsos de sobrevivência emitidos em alto tom pela razão.

Tudo parecia muito calmo. Caminhávamos devagar. Vez ou outra, atolávamos as pernas no barro frio e precisávamos da ajuda uns dos outros para conseguir escapar e seguir adiante. Menos Alixa, ela seguia sozinha. De certa forma, ela conseguia locomover-se com destreza sobre as raízes aéreas e galhos retorcidos do mangue. Desprovida de medo, a pérfida companheira lançou-se pela densa vegetação e desapareceu.

Fiquei admirado com a cena, embasbacado com o romantismo do abandono. No entanto, aquele gesto de desprezo não me causou outro sentimento, senão… paixão. Voltei a desejá-la como nunca antes. Nesse momento de êxtase, cheguei a sentir o aroma de uma pequena flor amarela e solitária, que venceu a lama e o tédio para colorir e perfumar aquele cenário mórbido.

Despertei-me do sonho lúcido ao ouvir um grito sufocado. Pensei ter sido apenas fruto de minha imaginação, uma resposta aos sons antifônicos de minha prece aos céus, mas para o meu espanto, virei-me e vi apenas as mãos de Jonas e Lia estendidas para o alto. Seus corpos já haviam se afogado na lama movediça. Incrédulo, acompanhei a imersão de ambos. Com os dedos abertos em movimentos trêmulos, pareciam despedir-se, até que o último sopro de voz surgiu, da última borbulha de lamento e desapareceram para sempre.

Recordei-me, durante a paralisia momentânea, dos gritos saltitantes da antiga lenda de horror, só então entendi a narrativa: eles não vinham dos espíritos que povoavam os mangues sobre o manguezal, senão de sopros vindos das profundezas da ilha, trazidas por grandes bolhas de gritos comprimidos, que ao emergirem explodiam e lançavam aos ventos súplicas de lamentos, clamores de piedade.

Quando percebi meus movimentos voltarem pouco a pouco, fiz o que faria qualquer covarde: segui a procura de Alixa, deixando para trás o terrível cenário, sem pensar na mínima possibilidade de salvar meus companheiros. Minha preocupação, além de salvar a mim mesmo, estava em encontrar aquela que era objeto do meu desejo renovado. Então, num gesto de desespero, chamei-a:

— Mabih! Mabih, onde você está? Por favor, responda-me! Mabih…

À medida que as ondas sonoras de meu chamado se espalhavam pelo manguezal, iam aumentando o número de bolhas que explodiam em lamentos. Cheguei a ouvir várias a responder-me em tom tenebroso:

— Estou aqui! Venha, preciso de ajuda! Venha, segure minha mão…

Cheguei, por fim, no centro da ilha ao cair da tarde. A lama do manguezal deu lugar a areia branca e firme. Alguns metros depois, avistei um pequeno lago cercado por uma vegetação que não pertencia à família dos mangues. Eram pequenos arbustos de copas arredondadas e caules com cascas ressecadas, cobertas de musgos esverdeados.

Ao aproximar-me do lago, a visão aterradora causou-me ânsias de vômito e culpa: as águas eram negras e cremosas. Pequenas ondas se formavam no centro do lago, onde havia uma espécie de boca, um buraco a abrir e fechar. As ondas iam alvoraçadas à margem e arrastavam tudo que encontravam para alimentar a grande boca faminta: desde folhas e galhos secos de arbustos a pequenas criaturas a passear descuidadas. Era como se as ondas fizessem o trabalho de buscar o alimento para o monstro do lago devorar. Contornei o lago medonho, pisando com cuidado no solo traiçoeiro, mas sem me descuidar do ronco do lago: não queria ser surpreendido pelas ondas traiçoeiras nem pelo que a lenda ocultava.

Depois de caminhar alguns metros, quase sem respirar. Avistei por sobre os arbustos, ainda um pouco distante, Alixa. Ela caminhava de forma estranha, um andar lúgubre, lento e desapercebido da realidade: como os zumbis das histórias de terror. Aproximei-me devagar, sem fazer ruídos. Ela pareceu não se importar com o sangue que empapava sua roupa, apenas olhava em direção ao horizonte, talvez à espera do pôr do sol.

Alixa Mabih sentou-se numa raiz de um mangue vermelho. Observou a lama fresca do manguezal daquela sinistra ilha do Delta do Parnaíba e pareceu admirada com o andar lateral dos caranguejos que se aproximavam curiosos. Do barro lodoso, vi brotar vários outros bichos. Em alguns segundos, ela ficou cercada pelos famintos crustáceos que a viam quase como matéria orgânica morta.

Ainda hipnotizada pela dança dos caranguejos, Mabih sorriu: maravilhada pela última revoada dos guarás, tingindo de vermelho-sangue o crepúsculo nordestino. Olhei para as aves no céu e acompanhei o adeus solar. Aos poucos a claridade desapareceu atrás dos mangues, deixando-nos ao azar da noite escura. Voltei a preocupar-me com Alixa, mas no local onde ela sentara para observar a revoada, havia apenas uma montanha de caranguejos, disputando os últimos resquícios do farto jantar.

Fiquei por algum tempo encantado com a cena e tive uma crise de risos pavorosos, pois em mim já não cabia tanto terror. Então, do subconsciente, veio ordens expressas de atenção e perigo e senti uma necessidade absurda de expelir todo o malgrado pelo riso. Imaginei várias formas de pôr fim à dor insuportável que sentia. Eu estava pronto para encarar o monstro do lago. Caminhei sem pensar e entrei na água lodosa e negra. Busquei os perigos a fim de cessar a dor da alma, não a do corpo, embora os soubesse indissociáveis.

Segui sereno e afundei-me aos poucos, ajudado pelas ondas que me abraçaram com carinho. Já estava quase no centro do lago negro quando senti as águas borbulhantes cobrir-me por completo. Mergulhado nas profundezas desconhecidas, ainda com a respiração presa, abri os olhos e as cortinas improvisadas da janela. E voltei a ver as listras escuras refletidas em minha parede, além das manchas da vermelhidão no meu caderno, representando, em traços perfeitos, quase vívidos, um rosto lindo a aprisionar-me o ser e o estar, o rosto da única mulher que amei em vida: Alixa Mabih. Dito isso, e vendo meu sangue se mesclar com a tinta negra de minha caneta, despeço-me, Adeus!

Fim.

Eber Urzeda dos Santos

31/08/2020

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"Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência".

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