• Eber Urzeda Dos Santos

Contos de Urzeda: O Diário de Isabel

Atualizado: Out 2



Contos de Urzeda: O Diário de Isabel

O Diário de Isabel


— Sabe de uma coisa, Pedro? Arrependo-me das vezes em que te chamei de querido. Não o amo mais, aliás, odeio você! Desapareça!

Dito isso, Isabel desabou. Confesso que não entendi o ódio a mim endereçado. E ao vê-la imóvel no chão, consegui apenas repetir em pensamentos suas últimas palavras. Procurei ficar quieto, como sempre fazia depois dos insultos diários. Embora reconhecesse minha fragilidade no relacionamento, desconhecia o poder destrutivo que ela me atribuía: ao ponto de tê-la agora em minha frente, tão só e vazia, como no momento em que cada ser triste se vê diante de sua finitude. Se ela queria livrar-se do peso de seu fardo, creio ter conseguido, mas agora seu fardo tenho eu.

Temo que devo narrar os fatos, que culminaram neste quarto frio, sozinho. Posto que minha amada, de mãos sempre tão quentes, encontra-se fria e sem ânimo para qualquer tipo de protesto. Devo salientar, contudo, que a canalhice, própria dos incautos na percepção do outro, poderá fazer-se presente, vestida com os trajes da verdade: uma vez que a mentira, tão agradável aos olhos, mas ladra de vestimentas, vez ou outra, partilha o produto de seu roubo com os narradores da vida alheia. Não que eu queira ser canalha, mas qualquer história, qualquer narrativa da vida do outro, sem que este possa discordar em algum ponto, será carregada de informações no mínimo suspeitas: mais próximas à vileza que à verdade.

***

Isabel veio de uma pequena cidade, como todos, e não me digam que não. Todos vêm de uma pequena cidade litorânea, mesmo os que nunca foram ao mar, cuja o balanço das ondas em noites amarelas, deixa a impressão de que a infância, intolerável e dispersa, permanece para sempre presa ao mar. Por mais que as ondas neguem o rapto das almas infantis, elas, durante suas idas e vindas, levam a angústia adulta para um passeio em alto mar e trazem de volta, para uma estada muito curta e a título de sarcasmo, a paz imatura existente apenas na fase puerícia da vida. Contam que ela fugiu do mar. Por sorte, Teresina acolheu-a bem, foi um abraço verde e quente. Ela o sentiu, como sentem todos ao chegar à tardinha na bela capital nordestina.

O pôr do sol em Teresina é de tamanha beleza, que conquistou, certa vez, um cândido vampiro que aparecera por aquelas bandas. Dizem os sabedores da história, insistentes em negar ser uma lenda, que o vampiro passeava entediado pelas sombras internas do Palácio Karnak, a corromper donzelas e a gente do governo. A conquista era apenas uma forma de acalmar a ansiedade pelo entardecer. Ao cair da tarde, o nobre senhor de dentes largos abandonava as dependências do palácio e se dirigia para a Igreja São Benedito, para acompanhar, junto aos ossos e espíritos dos menos favorecidos, o magnífico pôr do sol visto das torres da velha igreja. Segundo contou-me Isabel.

Eu a conheci numa livraria, na sessão de cadernos. Esbarrou-me e virou-se rápido. Tinha os olhos, grandes e escuros, espantados, mas logo pareceu pedir-me perdão sem nada dizer, pois seu olhar ia ganhando brilho à medida em que os traços do espanto ganhavam as formas de um sorriso tímido e encantador. Olhamo-nos por algum tempo: frente a frente e calados. Assim selamos todos os pormenores do relacionamento que ali começara. Se houve beijos ao primeiro encontro? Sim, um daqueles cheios de batom marcou-me a alma.

Passadas algumas semanas, eu já sabia muito de si. Apesar de ter sido minunciosamente estudado, creio que ela não aprendeu muito sobre mim. Por isso penso ter sido moldado aos poucos sem notar, adquirindo seus gostos pessoais e desejando realizar sonhos, que a princípio, não eram os meus. Aliás, meus sonhos, de certa forma, ficaram presos ao reflexo das lentes dos óculos dela: aquele foi um pequeno instante de felicidade intensa, o qual me levou a dispensar não só as reflexões sobre meus afetos como também o tempo de maturação em que a paixão desconecta o desejo da razão.

Não demorou muito, ela, durante uma de nossas conversas noturnas, contou-me de suas aventuras com o homem da capa preta a passar os dias pelos corredores do Palácio Karnak. Desde aquela noite, nosso relacionamento deixou de ser a dois. E mesmo que o terceiro elemento existisse apenas no plano verbal, não pude deixar de notar sua inquietação e seus arrepios ao falar do senhor misterioso: de seus gestos cavalheirescos, mas também um tanto quanto genioso. Segundo ela, claro!

— Antes de nos conhecermos, Pedro, tive alguns encontros com um homem que conheci no Palácio do Governo do Piauí, onde trabalho. Certo dia, cheguei cedinho, tomei um café para esquentar ainda mais a manhã escaldante e, como de praxe, fui conferir as instalações. Esta era uma de minhas funções no palácio: ver se tudo estava no lugar e funcionando. Pois bem, naquele horário, normalmente, só havia funcionários. Comecei a vistoria pelo amplo hall de entrada do palácio. O cheiro dos produtos de limpeza, misturados ao aroma de móveis antigos, deixava no ar a sensação de que as coisas antigas narravam seus mistérios por meio dos perfumes desprendidos durante a madrugada. Não fosse pela minha alergia por mudanças bruscas de aromas variados, seria bom ficar ali por algum tempo. Porém continuei com a vistoria: os bancos estofados sem encostos, próximos às portas de cristais, ao lado das paredes a sustentar alguns belos quadros estavam ou pareciam limpos. A luminária de teto ainda estava acesa, com todas suas lâmpadas funcionando: apaguei-a. Só então notei que não estava só. Fora como se aquela pessoa, a aparecer do nada, estivesse conectada junto ao interruptor da luminária. Ele estava ao lado de uma pequena mesa. Usava trajes finos cobertos por uma capa escura. Seus movimentos eram cautelosos, e a ausência de ruídos deixou-me atenta. Fiquei a observá-lo por um momento. Ainda sem perceber minha presença, ele retirou a luva de couro da mão direita e correu o dedo indicador sobre a mesa. Logo levou a mão à altura dos olhos e esfregou o dedo indicador no polegar como se fosse possível sentir a textura amadeirada da mesa. Continuei calada e aguardei curiosa. Ele caminhou devagar, e eu o segui.

Ele continuou observando cada detalhe do palácio, quando se aproximou da sala, onde fica a Galeria dos Governadores, parou e fez menção de olhar para trás. No entanto, com um gesto rápido entrou na sala da galeria. Eu só pude ver sua capa revoar ao acompanhá-lo. Apertei o passo e entrei na sala disposta a chamar-lhe a atenção. Barrar a circulação de pessoas não autorizadas dentro do palácio, também era de minha responsabilidade. Porém, depois de entrar na galeria e buscá-lo, inclusive, atrás das portas e das cortinas, não o encontrei.

Toda aquela cena, em circunstâncias noturnas, teria aterrorizado minha alma, mas consciente do sol lá fora, fiquei incrivelmente tranquila. Até o momento em que olhei para a galeria de fotos dos ex-governadores, e todos, sem exceção, tinham os olhos arregalados, voltados para um sofá de camurça marrom a meu lado. Olhei para o sofá e tornei a olhar para os governadores, mas eles já haviam voltado ao estado natural: olhares distantes, mas imponentes. Caminhei um pouco e aproximei-me do sofá. Atrás dele, no exato local para onde os governadores olharam, havia um embrulho atado com uma fita vermelha. Ajoelhei-me, peguei o pacote estranho, desfiz o laço e desembrulhei-o devagar. Dentro havia um manuscrito surrado pelo tempo. Recolhi o papel do embrulho, o laço, o manuscrito e sentei-me em uma poltrona de camurça verde, de modo que fiquei de costas para os governadores curiosos.

Abri o manuscrito e contemplei a bela caligrafia que tingia de preto-fosco as quatro primeiras folhas, as outras, umas quinze ou vinte, estavam limpas, com exceção da última, que trazia acima e à direita uma rubrica indecifrável, a qual pude, com muito custo, reconhecer apenas duas letras: um I cheio de curvas sinuosas e um L, que parecia estar sobreposto ao I. Voltei à primeira página e apaixonei-me por aquelas letras elegantes e harmônicas. Estava tão encantada com o descobrimento, que mal percebi que o texto estava escrito em italiano, justo o idioma que ouvi toda minha infância, mas que se perdeu com a separação de meus pais. Tomada de um desejo febril, que me fez esquecer as tarefas do expediente, pus-me a ler:

Ela é um vazio, uma lacuna, algo que falta para completar um todo, e essa falta é um abismo, e esse abismo, quando presente, leva-me a buscar o objeto da falta pelos quatro cantos do mundo, e essa busca termina em oitenta dias, exatamente no ponto de chegada, curiosamente o mesmo de partida, e esse ponto não representa nada, senão o ser que se encontra nele, e esse ser sou eu, e esse vazio é ela: solidão!

— Terminei de ler as duas primeiras páginas do manuscrito e refletia sobre a solidão, quando ouvi uma voz vinda do hall de entrada do palácio chamando-me pelo nome: “senhorita Isabel!”. Logo reconheci aquela voz: era o senhor João, segurança do Palácio. Chamou-me um par de vezes mais e pelo som que ia diminuindo, percebi que ele se afastava da galeria onde eu estava. Não respondi, meu desejo era terminar de ler. Continuei:

Ela é vontade de si mesma, um desejo por sua própria companhia, e essa companhia enseja autoconhecimento, e esse autoconhecimento é uma viagem interior que não termina, porque essa viagem é prazerosa, em cada reencontro consigo mesma, na aceitação das próprias ideias, e essa aceitação dispensa a ideia do outro, porque a ideia do outro só diz respeito ao outro, porque você é outro, porque você se ama, e esse amor não é solidão, é ver-se sozinho e alegrar-se com isso, e essa vontade de si mesma é ela: solitude!

— Ao ler o restante do texto, de fácil tradução e interpretação, lembrei-me da diferença entre solidão e solitude e pus-me a pensar na solidão como tristeza, como na dor de estar sozinho; e na solitude, por outro lado, como alegria, como estar só e sentir prazer com isso. Até aí, tudo bem! Mas o que aquele manuscrito fazia ali? Mal terminei de formular mentalmente minha dúvida, senti uma mão fria pousar em meu ombro: o grito de terror que dei correu por todo Palácio de Karnak. Virei-me rápido e dei de cara com os retratos dos governadores, todos olhando-me com feições de desaprovação. Logo, pela porta, começaram a entrar dezenas de pessoas, entre políticos, seguranças e turistas. Desmaiei.

Alguns dias depois, recuperada dos sustos e diagnosticada com stress e baixa imunidade, voltei ao trabalho. Não revelei nada a ninguém. Ao entrar em minha sala, deparei-me com o papel do embrulho e o manuscrito sobre minha mesa: deixado pelo senhor João, o segurança. Abri minha gaveta, guardei-o e fui fazer a vistoria no Palácio. Fui direto ao interruptor da luminária no hall de entrada. Antes de apagá-la, olhei para mesa e não vi ninguém. Apaguei-a, e eis que surge o homem da capa, junto à mesa olhando-me maravilhado. “Você consegue me ver!”. Exclamou o homem que surgiu do apagar das luzes. Apesar do susto, eu esperava que aquilo acontecera. Ele era muito familiar: seu rosto pálido, seus olhos profundos e suas vestes antigas eram a descrição perfeita dos vampiros que habitavam os romances que eu lia e, de certa forma, seu rosto, ligeiramente oval de queixo pontudo, deu a impressão de que ele seria minha versão masculina.

— Você quer de volta seu manuscrito? Foi a única coisa que o perguntei. Ainda hoje aterrorizo-me com a resposta dele: “Não, ele não é meu, é seu, você não se lembra de tê-lo escrito?”. Assustada, acendi a luminária e ele desapareceu.

— Depois disso, todos os dias pela manhã, conversávamos durante alguns minutos a sós no hall de entrada. Sempre que alguém se aproximava, eu desligava a luz e ele desaparecia. Ele contou-me sobre o manuscrito, de como eu o escrevi, como era à época em que vivíamos juntos, muito longe dali, na ilha de Sardenha, no oeste da Itália, há um par de séculos atrás. Fiquei encantada com a história. Apesar de absurda, eu sentia que minha vida não era só aquela que se passava em Teresina, ela era mais ampla e verdadeira, e desejei ver com meus próprios olhos a verdade das coisas imperceptíveis que me escapavam.

Uma manhã, o viajante do tempo propôs-me uma visão real sobre meu passado, de um ponto em Teresina em que eu poderia ver a jovem Isabela correndo por um vinhedo na província de Sassari, na Itália. A magia de ver-me em outra época, tomou conta de mim. Como combinado, esperei-o na torre esquerda da Igreja São Benedito, pouco antes do pôr do sol. Agachei-me e sentei-me entre o sino e a janela da torre. Enquanto o sol ia se pondo, lento e distante, meu acompanhante ia materializando-se ao meu lado. Com um sorriso largo, ele olhou em meus olhos e disse-me para olhar direto para o último raio de luz que brilhava no horizonte. À primeira vista, meus olhos embaçaram, mas logo vi uma cortina abrir-se e veio em minha direção um círculo, que aumentava de tamanho ao acercar-se. A visão que tive foi fantástica: vi uma menina correndo por um vinhedo carregado de uvas pretas e verdes. De repente, a menina virou-se e parecia olhar-me direto nos olhos. Aquela menina era igualzinha a mim, como um reflexo meu dos tempos de menina. Então ela sorriu, abriu os braços e correu em minha direção. Nesse momento, apareceu a figura de um jovem e a abraçou, jogando-a para o alto entre gargalhadas que pareciam o próprio som da felicidade. O jovem virou-se e encarou-me. Fiquei estarrecida ao ver quem era aquele menino do outro lado do círculo. Ele sorriu e reverenciou-me botando a mão direita no peito, a esquerda nas costas e inclinando-se devagar. Olhei rapidamente para meu lado: meu acompanhante havia desaparecido. Ao voltar-me para o horizonte, tudo estava escuro: sem sinal do círculo e dos dois jovens no vinhedo italiano.

Desde então, passei a analisar os fatos e as pistas para tentar desvendar o mistério do homem do Palácio de Karnak. Certo dia, durante a vistoria matutina, provei ligar e desligar os interruptores, mas estes já não o traziam de volta. Percebi um vazio imenso, uma lacuna, algo que faltava para completar meu todo, uma dor por sentir-me sozinha. Fiquei embasbacada com o que havia sentido, aquela sensação era parte do texto no manuscrito. Então, angustiada, corri para minha sala, abri a gaveta, peguei o manuscrito e o reli com muito cuidado, para tentar descobrir algo que poderia ter me escapado à primeira leitura.

O jogo solidão x solitude parecia-me claro, mas ao terminar a releitura das quatro páginas, a quinta e sexta página apareceram escritas. Sem demora, e tentando acalmar o coração para não sofrer um ataque, comecei a lê-las:

Querida Isabel, agradeço-te por enviar-me de volta nosso irmão. Há muito ele havia partido para aprender com a dor de estar só, a alcançar à glória de ser sozinho. Em sua partida, percebi que minha solitude, minha alegria em estar só, que tanto lhe ensinei a conquistar, dependia da presença próxima de alguém que amamos, pois de nada vale conhecer a si mesmo e alegrar-se com o que se é se você é sozinho no mundo, não ama e nem é amado por ninguém. Então, minha querida, não tema a solidão e nem idolatre a solitude. Ame a si própria, ame ao outro e não se prive do amor do outro!

Isaac manda-te beijos, e pede para que não se esqueças do pôr do sol. Com amor, Isabella Leali.

***

Isabel me contava as histórias com Isaac cheia de orgulho e pavor. Quando nos conhecemos, ela me disse estar na livraria a procura de um diário, onde ela pudesse anotar toda as peripécias vividas por ela junto ao vampiro italiano. Porém, depois de comprar-me e encher-me de histórias malucas e sem gozo. Ela escondeu-se em si própria, apaixonada pela solidão, pela dor de estar só e, ao mesmo tempo, pela glória de ser sozinha. Tudo isso, caros leitores, levou-a aos cacos de si mesma. E hoje, ao terminar de preencher minha última folha e dar-me o último beijo cheio de batom, disse-me que me odiava, que não me amava, que era melhor eu desaparecer. Insisto, se tem uma coisa que a fez perder-se de si mesma, foi esquecer-se do pedido de Isaac: não se esqueças do pôr do sol!


Eber Urzeda dos Santos

30/09/2020


Se gostaram, por favor, deixem seu comentário, curtam a página e compartilhem com seus amigos!!!

Curta minha fanpage: https://www.facebook.com/eber.urzeda/

Siga-me no instagram: https://www.instagram.com/eberurzeda/

Siga-me no Twitter https://twitter.com/EberEscritor

"Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência".

#escrita #escritoresbrasileiros #leitores #igliterario #devaneios #literaturanacional #livro #escrevendo #autoresnacionais #literaturabrasileira






© 2020 por Eber Urzeda dos Santos

  • Facebook ícone social
  • Twitter
  • Instagram