• Eber Urzeda Dos Santos

Novela: O Enigma de Hidrox

Atualizado: Mai 27

Capítulos de I ao VIII disponíveis!


Adultério



Capítulo I - Adultério


Fechou o livro: "traiu ou não traiu”… Pensou Alan enquanto condenava a figura humanizada de Bentinho. Quis levantar-se, mas sentiu que o querer não é poder se ele é desprovido de ação. Continuou sentado, fechou os olhos. Ele sentia prazer em degustar as reflexões pós-leitura, em recriar a literatura em seu íntimo imaginário como forma de redenção. Respirou sossegado, tateou a capa do livro como se buscasse algum relevo, alguma pista que pudesse inferir novos fatos sobre o comportamento das personagens, porém nada lhe veio à mente. Continuou concentrado. Dessa vez, a imersão o levou a sentir o cheiro da Rua de Mata-Cavalos: a principal rua do romance machadiano.

À porta da biblioteca da Praça do Cruzeiro, no centro da pacata Hidrolândia, observava-o uma garota. Diferente das outras meninas que ele já havia visto pela pequena cidade. Ele reparou que seus grandes e profundos olhos ora se voltavam aos dele, não menos profundos, ora ao livro que acabara de ler.

— Levarás o livro contigo? Perguntou-o aproximando-se de súbito, embora seu caminhar característico fosse divinamente dotado de um balançar lento e envolvente.

— Não, não… quero dizer… é... não!

— Não ou não? Brincou a mocinha com o desajeitado e confuso rapaz.

— Toma, pode levá-lo: eu já terminei de ler.

— Achei-o muito bonito.

— Nossa…! Obrigado!

— Éh... tava falando do livro.

— Ah! Claro! Desculpa aí!

Era a quarta vez que Alan lia aquele livro: queria entender, conhecer ou mesmo controlar aquelas inquietudes sentimentais que o faziam sentir-se às vezes Deus, às vezes diabo. O julgamento era inevitável: a virtude absolvia a personagem, uma vez que essa mantinha dominada as suas vontades e controlado os seus sentimentos. Mas à visão de terceiros, munidos de ódio ou culpa, indicava o prazer da carne em detrimento à essência do amor. "Olhos de cigana oblíqua e dissimulada”: pudera, refletiu Alan, o autor não nos poupou - leitores e leituras - de seu fino escárnio, de sua zombeteira estrada de dois caminhos.

A moça sentou-se junto a ele. Trajava um vestido azul e um par de brincos de penas esverdeadas. Morena clara, cabelos bastante negros, levemente cacheados. Olhos castanhos, um pequeno e fino nariz, e uma boca bem desenhada, harmonizada com o resto de seu rosto, contudo, “sorriso de cigana”! Pensou ele, e logo apertou os olhos.

Alan não se deu conta quando, sem ao menos saber o nome da menina, materializou-a como a personagem saída do romance que acabara de ler. Naquele momento, o objeto de sua reflexão exalava um perfume adocicado, que dispersava o aroma dos livros velhos da biblioteca e acalmava seu ser. Sentiu suas mãos tremerem, seu coração disparar e o ar tornar-se escasso. A confusão de sentimentos descompassou sua respiração e fez com que ele perdesse o controle das feições de seu próprio rosto.

— Não vai perguntar o meu nome? Disse a moça com tom de repreensão, embora logo mostrasse seu sorriso e suas covinhas.

— Perdão! É que… eu já tenho um nome pra você!

— Ah, é? E qual é o nome que me deu?

— Maria Capitolina.

— Oh! Acho que gostei! Não está muito na moda, mas é um nome forte, um bom nome pra um pseudônimo. Mas… quer saber meu nome verdadeiro, Alan!

— Nossa! Você sabe meu nome?!

— Claro que sim, todos na cidade sabem quem você é, ou… pensam saber.

— Pensam saber? Não entendi!

— Bem, Alan! Disse ela e fez uma pequena pausa. — Falando contigo agora, percebo que não é tão louco como o pintam.

— Ah! Então sou tido como louco, inclusive pintado como um?!

Ela percebeu que ele ficara incomodado com o teor da conversa. Sentiu o revoar de borboletas em seu estômago e seu rosto queimar como quando perdemos o controle dos próprios sentimentos.

— Meu nome é Sarah Raquel! Disse a moça para mudar de assunto.

Ela estendeu a mão direita, com a palma voltada para baixo. Alan surpreendeu-se, mas também se encantou com o gesto. Quis pôr-se de pé, porém suas pernas apenas formigavam trêmulas, pareciam petrificadas com a cena. Então, ainda sentado, tomou a mão da moça e beijou-a solenemente, sem deixar de olhar fixamente em seus olhos. Sarah puxou uma cadeira e sentou-se. Acomodaram seus corpos num balançar sincrônico junto à mesa, um frente ao outro. Ela, para dissimular um sorriso envergonhado, pegou o livro, abriu-o em uma página qualquer e começou a ler. Alan, tomado de uma confusão de pensamentos, continuou com sua reflexão acerca da obra machadiana, embora a paixão momentânea, que fora a pouco acometido, fizesse com que Sarah e Capitu, ao menos para ele, parecessem ser a mesma pessoa:

— Beijei a mão de Capitu, será que Sarah já recebeu o sobrenome Santiago, ou está, ainda, apenas a desenhar nos muros as marcas de um amor vindouro? Se assim for, nesse caso, nessa fase da vida, ainda há o que fazer para livrá-la daquele louco enciumado? Pensou Alan, mas logo percebeu que sua imaginação começava a confundir a vida real com a literária.

— Capitu! Perdão… Sarah... Você tem que ler o livro como atividade escolar ou o faz por prazer?

Ela o olhou meio de lado e disse que a primeira vez que o leu foi por obrigação, para fazer um trabalho de literatura na escola. Logo, uma vez mais, no primeiro ano da faculdade. Contou que gostou muito da trama, que ficou, aliás, encantada, contudo, confusa. Confessou que não entendeu algumas cenas e, no geral, o desfecho ambíguo. Tanto, que agora o leria por prazer, por curiosidade, por necessidade de respostas.

Alan ouviu o relato de Sarah, ficou maravilhado com seus gestos e seu interesse literário. Se por um lado aquele enrolar de uma mecha dos cabelos, para logo em seguida sobrepô-la em cima da orelha, convidando à contemplação de seus olhos, o deixava esperançoso, por outro, desalinhava seu raciocínio: "não traiu, traiu, não traiu"!

— Que respostas você espera encontrar, Sarah? É algo relacionado ao adultério?

— Antes fosse! Mas não é tão simples. Em se tratando de adultério, teríamos: traiu ou não traiu, ou seja, dois caminhos. O que busco são as razões da ciumeira, tão explícitas no romance: lógica, pelos fatos narrados, porém ilógica, pela narração sem fatos concretos de um homem enciumado. Mais ou menos o que acontece na vida real, não é? Tanto casal que briga por ciúmes, nunca vi lógica nisso, ainda mais quando a razão parece contestável. E você, Alan, por que gosta de Dom Casmurro?

— Eu estou…, não sei por que motivo, preso ao adultério. Tenho minhas próprias teses, a favor e contra. O problema é que a cada nova leitura, as teses, antes excludentes, se mesclam: traiu, não traiu, traiu… Sempre perco o fio da meada!

Ela ficou pensativa. Logo, perguntou-lhe se havia algum motivo especial ou pessoal que o prendia ao adultério. Quis saber se ele seria mais um louco enciumado, um Dom Casmurro hidrolandense: desses que advogam a própria história, em uma tentativa desesperada de encontrar uma espécie de autoabsolvição. Ele respirou fundo, tentou formular argumentos para livrar-se da pergunta, e antes que pudesse abrir a boca, ouviu uma voz cumprimentando-os.

— Olá! Tudo bem com vocês?

Era Verônica, amiga de Sarah, mas Alan a conhecia bem, aliás, toda a cidade. Sarah convidou-a para sentar-se junto a eles e quis apresentá-la a ele. Alan sorriu e disse:

— Eu já a conheço: seu nome é Júlia, ou melhor, a nova Heloísa.

Verônica estranhou o que Alan disse: contestou que ele estava enganado e que seu nome era Verônica. — “Também!” Respondeu ele, o que deixou Verônica ainda mais confusa.

— Agora eu entendo o motivo pelo qual as pessoas dizem que você é meio louco.

— Ele não é louco, Verônica, é que ele gosta de personificar personagens de livros literários. Disse Sarah, tentando apaziguar a situação.

— Que história é essa de personificar personagens de livros? Isso tá parecendo um sintoma mais de sua sabida loucura. E de onde você tirou essa tal de Julia, ou essa Heloísa?

— Desculpe-me, Verônica! Acalme-se: foi só uma brincadeira, não fiz por mal. Em seguida, tratou de explicar quem eram Julia e Heloísa. — Elas são a mesma pessoa, ou melhor, uma é a transformação da outra. Quer saber quem ela é ou quem é você, ou melhor, por que eu vejo você como Julia ou a nova Heloísa? Leia o romance: é de Rousseau.

Verônica, mesmo irritada, ficou curiosa. Desejou saber o que as personagens de Rousseau tinham a ver com ela e perguntou se na biblioteca tinha aquele livro. Ele respondeu que não, mas que tinha um exemplar em casa, e caso ela quisesse, ele poderia emprestá-lo. Verônica sorriu, seu rosto rosado irradiou-se com a possibilidade de saber algo que lhe dissesse um pouco si, pois, até então, vivia entre crises existenciais, por não conhecer a si mesma. Perguntou onde ele morava, para logo buscar o livro.

— Alameda das Grimpas, também conhecida como Rua da Paca. No casarão colonial branco, um dos poucos que restam na cidade, por isso me orgulho de morar lá. É histórico, e eu amo a história de minha cidade, pois a partir dela, temos a noção de onde viemos. Além de histórico também é atual, porque o tendo como referência, temos uma base para construir o futuro de nossa cidade. Ah, claro! Minha casa não tem número, fica próximo à bica d’água, quando quiser, pode passar por lá!

— Vou querer emprestado sim, muito obrigado! Agora já vou indo, tenho pressa, tampouco gosto de ficar segurando vela pra ninguém! Disse Verônica, depois sorriu e deu uma piscadela para Sarah.

— Você tá louca, tá, Verônica? Disse Sarah, envergonhada e trêmula — Nós somos apenas amigos.

Verônica se divertiu com o sem-jeito da resposta de sua amiga. Olhou para trás, deu um último sorriso acompanhado de um aceno e sumiu pela praça. Instalou-se um eterno silêncio. Podia-se ouvir o folhear dos livros. Alan admirava a dissimulada Sarah. Ele esperava uma oportunidade, uma deixa, para convidá-la para tomar um sorvete. De tanto esperar, ela veio: ao meio-dia foram convidados a deixar a biblioteca, pois esta fecharia para o almoço.

— Vamos tomar um sorvete?

— Tenho fome! Acho melhor comer algo de sal primeiro!

— Tenho espaguete em casa. Podemos comprar carne moída e fazer um espaguete à bolonhesa. Que acha?

— Você está me convidando para ir à sua casa?

— Não, não… quero dizer… é... sim, tô sim!

— Não precisa ficar nervoso, seu louquinho! Eu aceito, mas antes vou logo avisando — Nesse momento, Alan sentiu seu corpo gelar, seus olhos arregalarem-se e seus pulmões implorarem por um pouco de ar, — não lavo louças na casa de estranhos!



Capítulo II


O confuso hedonismo de Verônica.

O inverno hidrolandense, característico por seus dias quentes e noites frias, havia apenas começado. O céu limpo permitia um banho de sol maravilhoso: se podia sentir no rosto, ao mesmo tempo, o calor do sol do meio-dia e os últimos resquícios das brisas matinais, vindas do Ribeirão das Grimpas e carregadas com um sem-fim de aromas de flores do cerrado e de algumas jabuticabas temporãs.

Sarah e Alan caminharam entre os bancos e árvores do centro da praça. Ao depararem-se com uma imensa cruz de madeira em um dos canteiros da praça, Sarah fez o sinal da cruz, Alan repetiu o gesto, mas com a mão esquerda. Ela observou o esforço do rapaz, a pouca prática, no entanto nada comentou: "Religião é religião". Concluiu. Embora o comércio estivesse aberto, o movimento no entorno da praça era pequeno. Apenas alguns cães abandonados perambulavam pelos Pit Dogs fechados, revirando o lixo em busca de alimentos.

— Precisamos voltar, o açougue fica na direção contrária! O encantamento com Sarah era tal, que Alan quase se esqueceu de comprar a carne.

— É verdade, por aqui só tem uma padaria, e creio que lá não vende carne, a não ser que você queira um quibe com ovo.

Ele sorriu e imaginou um prato cheio de espaguete com um quibe com ovo no meio. Mas não disse nada. "Melhor não alimentar o louco que me pintam". Pensou.

Compraram a carne e seguiram pela Rua Dirceu Mendonça. Enquanto caminhavam, Sarah, curiosa, perguntou o motivo que o levou a personificar sua amiga Verônica como Julia ou a nova Heloísa. Ele escancarou um sorriso e parecia agradecer a pergunta com o olhar. Nesse instante, passou por eles um senhor. "Sarve, comé que vai?". Era uma época estranha: as pessoas, ao se cruzarem pelas ruas, cumprimentavam-se... Ela assentiu com a cabeça e presenteou-lhe com um sorriso. Alan o respondeu com um: "bão demais, e ocê?", adequando, por respeito e empatia, a variedade linguística que a situação pedia. Logo, disse a Sarah o motivo da personificação de Verônica em Julia.

— Ao ler a obra de Rousseau, lembrei-me de Verônica de imediato, de sua história, de sua submissão às ordens do pai e de seu amor às coisas simples, mesmo ela não conhecendo, a priori, o hedonismo epicurista, ela escolheu o caminho mais simples como Julia.

— O hedonismo quê? Interrompeu Sarah, olhando para o lado, enquanto suas bochechas iam adquirindo um tom rosado.

— Calma, já vamos chegar lá!

Não era segredo para ninguém da pacata Hidrolândia, que Verônica, aos dezesseis anos, fora flagrada por uma turma de colegas beijando um professor dentro da sala de leituras. O caso foi acobertado. Contudo, alguns meses depois, os colegas começaram a vazar os fatos. Então descobriram que, na verdade, Verônica não estava de namoro com um professor, senão com uma professora, o que agravou a situação na escola, na casa de Verônica, na pequena cidade e indo parar, Deus sabe como, no jornal da capital.

O pai de Verônica não quis ouvir os argumentos da filha que, a princípio, queria convencê-lo a aceitar o namoro. Ele não só não deu ouvidos à filha como também a tirou do colégio e mandou-a para uma fazenda no norte do país, para morar com o tio.

Seis meses depois, o pai de Verônica recebeu uma carta que contava de sua transformação: ela havia recebido a visita da professora, sua ex-namorada, mas a repeliu. Verônica disse que apesar de amá-la, era melhor seguir os conselhos do pai. Queria uma vida simples, queria buscar o prazer dos moldes tradicionais, mesmo que para isso, tivesse que renunciar o amor, tido por ela na época como caprichos do coração.

— Se analisarmos as escolhas de Verônica – Prosseguiu Alan, depois de uma pequena pausa –, podemos deduzir que ela se apegou à esperança de ter uma vida menos complicada, sem atritos e sem ter que ficar justificando, para todos e para si mesma, suas escolhas. Veja bem! A Verônica, ao renunciar o amor que sentia pela professora, escolheu o prazer das coisas simples – que é a base do hedonismo epicurista –, renunciando, com isso, às complicações de um relacionamento homossexual, com uma pessoa bem mais velha que ela, em uma pequena cidade. A renúncia foi o ponto de transformação: quando ela deixa de ser Julia/Verônica, para se tornar a nova Heloísa.

— Puxa vida! Tenho que ler este livro.

— Você irá gostar: é um romance que explora o conflito entre o amor e o dever, entre a felicidade e a virtude. Você vai encontrar muito da filosofia de Rousseau nesse romance. Em especial, a máxima rousseana: "o homem é bom por natureza: é a sociedade que o corrompe". Pra falar a verdade, não há muita ligação entre o final da obra e a vida que Verônica tem hoje: do livro não me dou o direito de contar como termina, mas a vida que ela leva, nos dias de hoje, você sabe como segue...

Sarah recordou-se tudo que passara com sua amiga desde o romance com a professora. Uma onda de pensamentos articulados descreveu em tópicos as peripécias de Verônica: o amor proibido do colégio; as consequências da descoberta; a mudança para muito longe; o reencontro com a professora; o romance com o caseiro de seu tio; a gravidez inesperada; à volta para a casa do pai; e, por fim, o relacionamento a três, entre Verônica, o caseiro e a professora. Todos vivendo em harmonia na mesma casa, sob o olhar atento do resto da cidade.

— Tudo bem! Disse Sarah e retrucou. — Mas nós sabemos que as escolhas de Verônica, na atualidade, não são nada epicuristas: ela casou-se e convenceu o marido a aceitar a relação a três. E pelo que ela me contou, o poliamor não está funcionando, porque as brigas a três são mais intensas e frequentes. E o que é pior: a professora gosta de provocar o marido delas até que eles briguem. Verônica disse que a ela sente mais desejos depois das brigas. Coisa de louco, né?

— Eu achei que eu era o louco da cidade, mas com esse pessoal aí, não dá pra competir. Alan sorriu e continuou. — Quanto a Verônica, poderíamos dizer que o caso dela é ainda mais complicado que o da Julia, de Rousseau. No caso do romance, a Julia tornou-se a nova Heloisa depois de mudar sua visão de mundo; no caso da Verônica, ela apenas experimentou ser a nova Heloisa, mas logo retornou ao seu status de Julia. Espero que o romance a três de Verônica não tenha um final como o de Julia ou a nova Heloisa.

Nesse momento, Sarah deu-lhe um tapa de leve na nuca:

— Hei, não me dê pistas sobre o final do romance de Rousseau: eu quero lê-lo.

* * *

Chegando à Avenida Antônio Mendonça, próximo à Escola Municipal José Amâncio de Souza Pinto, observaram o ônibus que faz a linha Hidrolândia-Goiânia passar por eles lentamente, logo parou no último ponto da cidade. Sarah baixou os olhos e sentiu suas mãos suarem. Alan olhava fixamente para o bar junto ao ponto de ônibus: sua boca começou a salivar e quase sentiu o gosto azedinho do molho de pimenta no canto da boca, quando se imaginou abocanhando a famosa coxinha daquele bar. O cheiro de fritura passeava pelo ar enquanto ele experimentava, simultaneamente, as sensações de paixão e fome.

De repente, sem pensar, ele toca o braço de Sarah e avisa que eles têm de descer por aquela rua até à Alameda das Grimpas, onde mora. Ela sentiu um leve arrepio, seu coração acelerou e, sem dar-se conta, começou a subvocalizar seus pensamentos. Ao perceber sua inquietação, ele tratou de quebrar o silêncio da cena:

— O que você gostaria de sobremesa.

— Sorvete!

— Hum… isso eu não tenho em casa. Acho que só tenho doce de leite com pau de mamão…

Dessa vez quem salivou foi Sarah: lembrou-se dos doces que sua avó fazia. Entre eles, o doce de leite com pau de mamão. Podia sentir sua textura cremosa na boca e como os pedacinhos do caule do mamoeiro ralado faziam cócegas em sua língua… Alan a observava: ela mordia os lábios e engolia em seco. Ele só não sabia que ela ainda estava pensando no doce. “Boca e olhos de cigana oblíqua e dissimulada”. Pensou…





Capítulo III

Os olhos de ressaca de Sarah

Já estavam na esquina entre Avenida Antônio Mendonça e a Avenida Goiânia. Atravessaram a rua e seguiram por uma pracinha de forma triangular. Havia uma enorme árvore mais ao fundo, e na grama rala, à sombra da árvore, dormia o bêbado da cidade. Os dois o conheciam: aparentava ser um senhor de idade avançada, moreno, calvo e jamais o haviam visto sóbrio. Tampouco sabiam onde morava, ele sempre estava ali, ao pé da árvore ou à porta do bar. O homem tentou levantar, mas logo caiu sentado, deitou-se e ali ficou sem se mexer. Sarah, assustada, pegou na mão do Alan e o puxou de volta para a rua.

Ele sentiu o suor frio da mão de Sarah. Sua respiração estava ofegante e não conseguia desviar os olhos do senhor, que naquela hora dormia seu coma sossegado.

— Não tenha medo, Capitu… digo…

— Não é medo… mas também não sei o que é! E pare, por favor, de me chamar de Capitu. Ou pelo menos me conte por que me associa a ela. Se eu gostar, pode continuar chamando-me assim.

— É verdade! Ainda não te contei! Talvez ainda não saiba bem dizer o motivo. Talvez por que tenho fome… e não posso pensar de barriga vazia.

— Tudo bem! Você me contará durante o almoço. Eu gosto de comer acompanhando novelas: principalmente quando eu sou a protagonista. Brincou ela.

Dobraram a esquina em silêncio. À medida que iam aproximando-se da casa de Alan, o nervosismo de ambos aumentava. Enfim, chegaram à Alameda das Grimpas. A rua de chão batido e esburacada estava úmida. O cheiro de terra molhada e as marcas de rodas no chão davam pistas de que o caminhão pipa havia passado a pouco por ali. As sandálias baixas de Sarah estavam pesadas por causa do barro acumulado. O barulho da queda d'água da bica ia aumentando, anunciando a proximidade do velho casarão. Para ele era um privilégio morar ali: o som da água batendo nas pedras e o coaxar dos sapos o relaxava, sempre dormia como um rei.

A casa de Alan ficava a poucos metros da bica. Suas águas corriam em direção ao Poço Velho: um poço formado no curso do Ribeirão das Grimpas, junto à ponte da BR-153. Ouviram os gritos de alguns meninos que lá banhavam. Em cima das pedras, uniformes do Colégio Estadual Deputado Manoel Mendonça, mochilas, cadernos e livros esparramados denunciavam os matadores de aula. Alan acercou-se ao velho portão de madeira. Com uma das mãos puxou-o para si e com a outra, sobre o portão, do outro lado, girou a tramela e o abriu.

— Entre, por favor! E não se preocupe com os latidos: o Boni está amarrado.

Sarah titubeou: mordeu levemente o lábio inferior. Com a mão direita acariciava o outro braço estendido pelo corpo. Suas pernas, trêmulas e indecisas, pareciam esperar o fim do conflito entre os sinais de alerta, emitidos pela razão, e os de coragem, pelo coração. De repente, deu o primeiro passo para entrar, obedeceu ao coração. Voltou a parar, olhou para os dois lados da rua, viu dois meninos, que vinham do Poço Velho, aproximando-se. Então, com um movimento brusco passou pelo portão e pôs-se ao lado da porta. Ela sentiu que sua perna esquerda movia impaciente, enquanto esfregava as mãos e continuava a morder o lábio inferior.

Alan pegou a chave que estava escondida em uma das plantas sob a janela e tentou abrir a porta. Na primeira tentativa, a chave girou em um vão da antiga e enferrujada fechadura. Sarah o olhou com um sorriso cínico e logo voltou o olhar para cima. Então, com mais paciência e precisão, ele direcionou a chave e conseguiu abrir a porta. Os dois ouviram o ringir estridente das presilhas. Sarah havia perdido todo seu bom humor, pensou na falácia das senhoras desocupadas e prendeu a respiração.

Antes de ser vista pelos meninos, os quais vinham em algazarra, esfregando os pés nas pequenas poças d’água, enlameando uns aos outros, ela entrou a passos largos. Caminhou para o lado da sala, onde, sobre uma mesinha de madeira, encontrava-se um filtro de barro. Levou a mão ao copo de alumínio, mas esbarrou em sua alça, ele caiu no assoalho de tábua corrida e foi quicando até os pés de Alan. Assustada, ela olhou em direção à porta, viu que não poderia mais ser vista por quem passasse pela rua, sentiu um leve alívio e respirou fundo. Logo, Voltou o olhar ao copo e, só então, encarou Alan com um meio sorriso, bochechas rosadas e olhos de ressaca.

— Você está bem? Perguntou Alan e ofereceu-lhe outro copo que estava na prateleira à sua frente.

— Sim... sim, claro... Claro que sim!

— Sim ou sim? Alan devolveu-lhe a piada, e os dois riram como crianças.

Ela respirava calma e observava tudo na casa: o azul claro das paredes da sala, o teto sem forro, escurecido pela fumaça do fogão caipira o qual, aliás, era o que ditava o cheiro predominante da casa embora, vez ou outra, a fumaça apresentasse notas de folhas de eucalipto. Da sala para a cozinha havia uma escada de três degraus em cimento queimado de cor verde, mas desbotado pelo uso e falta de zelo. O chão da cozinha era de tábua corrida, com exceção ao piso a redor do fogão caipira que, como a escada, também era de cimento queimado, no entanto, vermelho.

Ele convidou a moça a sentar-se junto à mesa de madeira maciça. Puxou uma cadeira, ela agradeceu o cavalheirismo e sentou-se. Ele juntou os ingredientes para fazer o molho à bolonhesa: a carne, o alho, a cebola, a cenoura, o molho de tomate, a mostarda e alguns tomates-tapera de seu próprio quintal. Ela se ofereceu para ajudar... "Olhos de cebola". Pensou ele. "Será divertido…". Ele entregou-lhe uma tábua de cortar, uma faca muito bem afiada e os ingredientes.

— Sei que não é da minha conta, mas estou curiosa. Por que você mora sozinho? E seus pais, onde estão?

— Eu não moro sozinho! Bem, na verdade meus pais moram aqui também. Eles passam mais tempo na fazenda, mas sempre que podem, passam uns dias por aqui. Eles não gostam muito do agito da cidade.

— Que agito, que cidade! Disse Sarah, zombando de seu ponto de vista sobre a cidade.

— Ué... pra quem vive na roça, Hidrolândia pode ser considerada uma cidade agitada. Respondeu Alan entre risos.

Enquanto preparava a lenha no fogão caipira, contou um pouco da história de seus pais: que seus bisavôs desembarcaram no Brasil depois de fugirem dos horrores da primeira Guerra Mundial. Eles vieram da Alemanha, por isso o sobrenome, Müller. Que seu avô ainda era criança de colo na época, e que viveram uns anos no Rio de Janeiro, até serem convidados, por um rico fazendeiro de Goiás, a morar e trabalhar em suas terras, hoje conhecida como Bonito do Meio. Contou também que eles trabalharam muito e economizaram bastante para comprar um pedaço, não muito grande, de terra, cujo terreno fértil e rico em água permitiu que sua família retirasse dali o seu próprio sustento.

Dito isso, percebeu que o fogo trepidava. Ele pegou a panela, acrescentou um pouco de banha de porco e esperou esquentar. Refogou o alho e a cebola, em seguida acrescentou a carne. Enquanto a carne fritava, ajudou Sarah a ralar a cenoura. Notou que ela tinha o nariz vermelho e os olhos lacrimejantes de ressaca, ou melhor, de cebola. Adicionou, por fim, a cenoura ralada, refogou tudo por um minuto mais e cobriu tudo com uma camada espessa de molho de tomate e um pouco de mostarda. Baixou o fogo e deitou o espaguete em outra panela, cuja água fervia há algum tempo. Dez minutos depois, a mesa estava posta, sem a etiqueta dos burgueses: um garfo estava à direita de um prato, e o outro, à esquerda, ficando as colheres em lados opostos.

— Poxa! Esqueci os tomatinhos, foi mal aí!

— Não tem problemas: um pouco de sal, pimenta do reino, limão e temos nossa salada de tomates-tapera.

Sentaram-se e serviram-se. O cheiro do molho de tomates com mostarda misturava-se com o de lenha queimada: os dois salivaram e atacaram seus pratos. Por um instante o Eros de ambos foi esquecido, a única vontade platônica, naquele momento, era o de matar o que os matavam, a fome.

— Então, por que me personificou como Capitu?

Ele a olhou nos olhos e sentiu que sua curiosidade desejava ouvir coisas sensuais a seu respeito: ela perguntou e baixou os olhos, fingiu (dissimulou) que o espaguete lhe escorregava do garfo, e dava-lhe voltas, e voltas, e voltas.

— Então vamos lá, Capitulina! Mas não quero que você se envergonhe. Prometa que não se irritará comigo. Muito menos tire conclusões precipitadas a meu respeito, nem leve a sério as comparações: elas são apenas uma forma de criar um mundo paralelo ao nosso: que seja mais literário e menos literal, menos chato. E é também uma forma de fazer arte a partir do mundo real, levando-o para o mundo das ideias, de minhas ideias. Vamos, prometa que não me julgará!

— Tudo bem! Eu prometo! Já estou me afeiçoando com a sua loucura. Já nem acho que é loucura, acho que é arte. Creio que é por isso que as pessoas te julgam louco: a arte não entendida é tida como loucura na cabeça dos ignorantes. Eu ignoro muito a arte, queria ser como você.

Alan ouviu tudo que Sarah disse e ficou calado por um instante, mas logo balançou a cabeça como se quisesse voltar à pergunta de Sarah.

— Bem, por que eu personifiquei você como Capitu… vamos por partes: quando estava na biblioteca, observei você chegar. Vi que você, ao ver-me, ficou parada, esperando uma oportunidade para aproximar-se e puxar assunto. Pelo menos foi à conclusão a qual cheguei. Reparei, mas dissimulei - como Capitu - que você olhou três ou quatro vezes para o livro que eu lia, a fim de identificá-lo. No momento que você conseguiu, sentiu coragem e veio ter comigo. Você não veio falar comigo por interesse no livro: você usou o pretexto do livro para aproximar-se de mim. Claro! Eu estava lendo Dom Casmurro, logo vi seus “olhos de cigana oblíqua e dissimulada” - com todo respeito -, e pensei: Capitu! E aqui estamos...

Sarah pegou a colher o garfo e enrolou o espaguete vária vezes, logo deixou os talheres na mesa e pegou o copo cheio de limonada. Segurou-o com as duas mãos, levou-o à boca, mas não bebeu, satisfez-se só com o aroma do limão. Voltou a deixá-lo na mesa e pegou novamente os talheres. Moveu os lábios para a esquerda e direita. Alan percebeu seu incômodo e tentou amenizar a situação.

— Peço desculpas, caso você tenha se ofendido. Não se importe com essas bobagens que eu disse! Você sabe… eu fantasio demais as coisas.

Sarah pegou o copo: levou-o ao nariz e sentiu de novo a fragrância do limão. Fechou os olhos e apreciou o cítrico açucarado da bebida como se aprecia o aroma de uma boa taça de Cabernet Sauvignon. Dessa vez, tomou toda a limonada de uma só vez. Pelo canto de sua boca escorria uma gota densa de açúcar e limão. Então, fixou o olhar nele e, lentamente, fez um movimento sensual com a língua e lambeu o canto da boca. Continuou mordendo os lábios. Olhou dentro dos olhos dele como se quisesse invadir seu espírito. Ela apoiou-se com as duas mãos sobre a mesa e levantou-se devagar. Rodeou a mesa, provocando-o com o balançar de seus quadris. Colocou a ponta do dedo indicador na limonada dele e umedeceu-o os lábios.

Ele ainda encontrava-se sentado, sem reação. Sarah o pegou pela camisa, o fez levantar. Aproximou-se dele até que suas bocas quase se tocassem. Logo, com a ponta do nariz, fez movimentos circulares em torno de sua boca. Ela pegou suas mãos e pousou-as sobre seu corpo. Sentia que ele tremia e isso parecia dar-lhe ainda mais prazer. Ela estava a ponto de enlouquecer diante àqueles olhos vazios e estáticos, então, beijou-o, sem culpas, de forma voraz.



Capítulo IV

Sangue e tristeza

Alan abriu os olhos e percebeu um perfume diferente em sua cama. Sentiu-se leve e bem-disposto. As lembranças da tarde de amor com Sarah extasiaram seu ser e alegraram sua manhã. Abraçou com ternura o travesseiro com o qual ela havia escondido seu corpo nu, o mesmo que logo lhe servira de apoio durante uma longa sesta: um doce e pesado cochilo pós-amor e massas. Sentiu o frio matinal passeando pela casa e desejou um café.

Saiu da cama, vestiu um jeans e uma blusa de frio. Foi à cozinha, abriu a porta que dava para o quintal, então foi surpreendido por uma corrente de ar frio vinda do brejo, à beira do Ribeirão das Grimpas. Pegou a escova de dente, aplicou uma camada generosa de creme dental e seguiu caminho rumo ao jirau, junto à antiga bica d'água: construída em madeira com formato de calha. Molhou a escova na água corrente e gelada e seguiu o ritual de cada manhã: contemplou o verde musgo impregnado na madeira da bica, sua água cristalina, algumas samambaias penduradas ao redor da casa e as jabuticabeiras, sempre viçosas, prestes a florescerem.

Lavou a escova e lembrou-se que não havia soltado o Boni na noite anterior. Foi à sua casinha para vê-lo. A casinha estava com a porta aberta e sem sinais de seu cãozinho. Chamou algumas vezes e caminhou rápido até o portão principal da casa. Também estava aberto. Saiu, olhou para os lados, mas não o viu. Chamou-o algumas vezes. Assoviou e chamou-o novamente, mas sem sucesso. Deixou o portão aberto: caso Boni voltasse, poderia entrar sem ter que rosnar e arranhar as frágeis ripas do velho portão.

Entrou em casa, prendeu fogo no resto de madeira que havia sobrado do dia anterior no fogão caipira e foi moer o café. Destapou a lata: o aroma de barril de carvalho do café torrado o despertou ainda mais. Girou a manivela do velho moedor e ficou observando o pó do café caindo aos poucos sobre um pequeno recipiente de latão. Nesse momento, as lembranças do dia anterior trouxeram-lhe um doce-amargo de sensações, o que fez com que seu coração disparasse a cada nova cena que lhe invadia a mente: logo após que Sarah adormeceu-se em sua cama, ele, ainda tomado por sentimentos confusos da paixão repentina, deitou-se ao seu lado e acariciou-lhe os cabelos. Ela respirava de forma serena, e a meiguice de seu rosto avermelhado trouxe um ar de tranquilidade para o ambiente. Então, invadido por uma paz interior que acalmou seu coração, deixou-se levar pelo sono.

Despertou-se pouco depois e encontrou apenas a noite. Sarah havia deixado a casa sem se despedir. Sobre o criado mudo, ao lado do abajur, o livro Dom Casmurro e seus brincos de penas esverdeados pareciam ser um bilhete de até logo. Ele olhou para os lados, caminhou até a porta da sala com cuidado e receio. A porta estava entreaberta. Ele olhou para a rua pouco iluminada, baixou os olhos e fechou a porta devagar. Voltou para a cama. Ele tinha no corpo as marcas do amor, mas o coração pesado. O azul celeste do vestido de Sarah povoou sua mente: adormeceu...

Alan fez o café, apanhou um pacote de bolachas e sentou-se à mesa. A cadeira, a qual Sarah sentou-se, parecia encará-lo. Tentou disfarçar: brincou de rolar as bolachas pela mesa. Atirava-as para cima e aparava-as com a boca. Mas a cada intervalo de uma bolacha para a outra, a cadeira parecia clamar por atenção. Olhou-a: "esse pedaço velho de madeira tá querendo zombar de mim". Pensou.

Enquanto levava a louça suja do dia anterior para o jirau, ouviu alguém bater palmas. Deixou tudo que fazia, correu para o banheiro e olhou sua aparência. O espelho desbotado refletiu a imagem de um rapaz magro, de olhos tristes e cabelo bagunçado. Molhou as mãos e passou-as em seus cabelos crespos, viu-os baixarem um pouco, quase nada. Dirigiu-se ao portão...

Era um sujeito alto, barba por fazer, que trazia consigo um cigarro de palha apagado na boca. Chapéu encardido, camisa listrada e botinas cheias de bosta de vaca. Ele cheirava a curral e tabaco. Reconheceu-o de imediato: Senhor Joaquim, o velho caseiro que trabalhava em uma fazenda próxima à BR, mas do outro lado da cidade. O conhecia de longa data: O senhor Joaquim, de domingo a domingo, passava pela rua com a carroça carregada de latões de leite para lavá-los na bica da cidade, sem se importar com a poluição de seus produtos de limpeza.

— Bom dia! Seu Joaquim... Bão?...

Cumprimentou-lhe com certo entusiasmo, mas o Senhor Joaquim apenas segurou a ponta de seu chapéu, apertou os lábios, franziu a testa e assentiu timidamente.

— Uai, sô! Num tá muito bão não, né?!

Sem rodeios, o conhecido carroceiro explicou o motivo da visita inesperada.

— Eu tava indo levar o leite lá pro laticínios Gogó hoje cedo, quando dei fé, vi um pouco de sangue lá na ribanceira da BR: assustado com aquilo fui ver que presepeiro era aquele, desci da carroça e procurei no meio da saroba até encontrar o corpo...

Alan sentiu suas mãos suarem, o coração apertar e uma dor no peito que parecia que algo queria sair de dentro dele. "Sarah". Pensou ele. Logo sentiu uma dor apertar-lhe o peito e o estômago. Deu um passo para trás e levou a mão direita a boca.

— Tá lá na carroça: cê me acompanha, se faz favor?

Suas pernas não respondiam aos estímulos do cérebro. O coração aterrorizado impedia a articulação dos pensamentos, ele apenas balbuciava palavras soltas e sem nexo. O senhor Joaquim retirou a lona preta que cobria a parte de trás da carroça, e Alan levou as duas mãos ao rosto, arregalou os olhos e abriu a boca involuntariamente ao ver o corpo ensanguentado, deitado no assoalho, entre latões de leite, sem vida.

Algumas lágrimas correram e molharam o canto de sua boca. Sentiu o sabor azedo e salgado das lágrimas de tristeza, bem diferente do agridoce das lágrimas de alegria. Entre soluços e pesares, pegou o corpo frio e apertou-o junto ao peito: Boni morreu...

Levou seu cãozinho até o fundo do quintal, deitou seu corpo entre uma jabuticabeira e uma mangueira, buscou um enxadão, retirou algumas folhas e pôs-se a cavar. Enquanto cavava, chorou bastante. A amizade de quase dez anos havia terminado. A morte ceifou a vida daquele que por muitos anos fora seu único interlocutor, pois existia, de fato, uma relação dialógica, em que ambos, mesmo usando diferentes mecanismos de comunicação, se entendiam e sabiam-se amigos.

Após enterrar seu amigo, não soube o que pôr sobre o túmulo: pedras, cruz, flores... Ele não tinha, naquele momento, forças para pensar nos significados das coisas, tampouco queria cobrir com qualquer coisa sem significado: teve medo que sua fragilidade momentânea o levasse a adotar uma visão mais ingênua do mundo. Abaixou-se e escreveu com o dedo sobre a terra úmida: “Meus respeitos”.

O suor tomou seu corpo, suas mãos estavam calejadas, assim como seu coração. Deixou o enxadão no chão, entrou debaixo da bica d'água e arrepiou-se com a água gelada correndo por seu corpo. Sentou-se no pequeno e raso poço formado pela queda d'água, encheu a mão de areia e água, abriu os dedos deixando a areia molhada cair no chão, formando pequenas esculturas. A brincadeira o distraiu por algum instante, mas logo recobrou consciência e lembrou-se de Sarah, de tudo que aconteceu entre os dois e que resultou na morte de seu melhor amigo.

— Por que ela ficou comigo? Por que não se despediu? Por que deixou o portão aberto... Espera aí! Por que ela abriria a porta da casinha do Boni e o soltaria? Preciso vê-la...

Os porquês sem respostas e o sentimento de culpa deu-lhe forças para agir. Foi ao quarto, vestiu-se rápido. Enquanto atava os sapatos, lembrou-se que não sabia nada de Sarah: seu endereço, seus pais, seu paradeiro... Tentou lembrar-se das conversas que tiveram ou algo que trouxesse pistas de onde começar a procurá-la.

— Verônica… é isso! Elas são amigas, claro! Preciso ir à sua casa!... Mas bato à porta e digo o quê? Disse Alan em voz alta e firme.

Alan buscou uma boa desculpa para procurar Sarah na casa de Verônica. Pelo espelho da penteadeira, viu o livro e o par de brincos de Sarah e ficou aliviado por já ter um álibi.

— É isso! Vou dizer que tenho de devolver as coisas de Sarah e que resolvi emprestar-lhe o livro de Rousseau: para que ela veja a transformação de Julia em Heloísa: é isso, é isso!

Correu à sala, mas hesitou-se por um momento. Não sabia se havia guardado o livro de Rousseau entre os romances filosóficos ou literários. Seu estado de espírito e seus pontos de reflexão independente, ao terminar de ler um livro, sempre mudavam os clássicos de prateleira.

Verônica vivia do outro lado da cidade, próxima ao cemitério. Era preciso caminhar muito, mas a vontade de ver Sarah uma vez mais o enchia de coragem. Pegou os livros, botou-os em uma mochila e levou o par de brincos na mão. Eram os objetos com os quais mais sentia a presença de sua amada. Trancou a porta, fechou o portão. Ao olhar a rua, as marcas de sangue no chão devolveram-lhe as feições do pesar, uma tristeza imensa invadiu seus olhos. Lacrimejou: passou o antebraço no rosto, na altura dos olhos e seguiu adiante.

Ouviu o barulho de centenas ou milhares de abelhas passando por ele. Estava próximo ao cemitério, cuja seus ipês floridos, hibiscos e rosas naturais lançavam ao vento o convidativo perfume dos néctares, disputados com música e dança por abelhas e beija-flores. Parou de frente ao portão de metal, respirou profundamente e bateu. Ouviu latidos. Estava com as pernas pesadas e tentou escolher seu melhor sorriso. Verônica abriu o portão e, ao vê-lo, fez um gesto de incredulidade. Seu rosto perdera o rosado que lhe era tão característico e tornou-se pálido. Seus olhos estavam avermelhados e cheios d'água e seu corpo inclinou-se levemente para trás.

— O que aconteceu, Verônica? Quis saber Alan.

Antes que ela pudesse reagir à pergunta: veio seu marido, afastou-a da porta e o empurrou. Alan caiu sentado e encarou seu agressor. Ele franziu a testa, retraiu os olhos e, com a boca meio aberta, pressionou os dentes superiores nos inferiores como cão raivoso e gritou.

— Melhor você sumir daqui... Pegou Verônica pelo braço e bateu o portão com muita raiva...


Capítulo V

As mulheres também traem?


Alan levantou-se do chão empoeirado da rua. A poeira avermelhada dos arredores do cemitério tingiram seu jeans claro e suas mãos frias. Sentiu vontade de bater novamente à porta de Verônica para pedir explicações, para saber o verdadeiro motivo do medo de Verônica e da ira de seu marido. Entretanto, sentiu que o momento não era o mais apropriado, decidiu deixar as coisas esfriarem e voltar depois.

Seguiu pela rua que levava o nome de um xará: Rua Alan Kardec. “Bem que poderia se chamar Alan Müller, como eu”. Pensava ele, sempre que passava por ali. Continuou caminhando sem jeito. A vergonha que sentia do ocorrido, fazia-o pensar que cada casa daquela rua ria de sua atitude covarde. Principalmente a que ficava próxima à delegacia da cidade. Ela era imensa: suas cinco grandes janelas azuis o olhavam com tom de reprovação. A porta, de mesma cor, tinha implícito em seu portal contornos que mais parecia uma boca humana, rindo com ironia de um ser desprezível, inútil.

A sensação de que alguém o observava, fazia com que ele olhasse para trás cada minuto. Estava próximo a GO-219, quando viu uma antiga colega do colégio dobrar a esquina. Ela o viu e não hesitou em cumprimentá-lo com fervor. Sua presença o acalmou, sentiu-se bem ao seu lado. Eles estudaram juntos durante todo o colegial, eram íntimos, mas há algum tempo não se viam. Mary se casou com um rapaz de fora havia dois anos ou mais. Alan recebeu o convite, mas não foi: não tinha roupas para a ocasião.

— Mary, minha querida, tudo joia contigo? Faz um tempão que não a vejo, pensei que tinha se mudado de Hidrolândia…

— Oi, meu amor, estou bem, obrigada! E você, hein? Tá bonito… sempre gostei mais de você com a barba cerrada! Venha cá, me dá um beijo!

Foram três beijos no rosto. Ele a achava muito madura no colégio: falava coisas de mulher mais velha, insinuava aventuras e se jogava no colo dos rapazes, excitando alguns e envergonhando outros. Ela era muito querida por todos, gostava da companhia dos meninos e, nos dias de missa, era comum vê-la passeando entre os arbustos dos canteiros altos da Praça da Matriz. Sempre que caminhava pela praça, Alan contemplava o lugar ao qual certa vez, à noitinha, antes da missa dominical, Mary pegou-o pela mão e os dois subiram em um dos canteiros, esconderam-se entre os arbustos, abraçaram-se e sentiram um ao outro por mais de meia hora, sem beijos, apenas roces.

— Como vai seu marido?

— Antes não tivesse me casado! Ele nunca está em casa: é representante de peças automotivas. Vive viajando. E o que é pior, a região que ele trabalha é bem longe: Rio Grande do Norte e Paraíba. Nem sei mais se sou casada ou solteira!

— É, deve ser bem difícil pra você! E filhos, você ainda não pensou em ter herdeiros?

— Ah! Claro que sim! Mas como vou ter filhos? Para ter filhos é preciso… Ui! Já ia falar besteira.

Ele sentiu um calor inesperado, seu coração acelerou e suas orelhas pareciam queimar. Sentiu-se meio torto, não sabia o que fazer com as mãos e respirou fundo. Reparou como o corpo de Mary havia mudado durante o tempo em que ficou sem vê-la. Ela era uma menina magra, de pernas longas e finas e pouco se notava seus seios. Agora ela ganhara curvas por todo corpo, suas pernas tinham um contorno musculoso, porém delicado, conservando os traços femininos. Seus seios hipnotizantes comprimiam os botões de sua blusa, e seus lábios, antes finos, tornaram-se carnudos e prendiam a atenção dele. Por um instante, ele reviveu o abraço dos dois nos canteiros da praça.

— Aloou... tem alguém aí? Disse ela, depois de dar três cascudos no rapaz sonhador.

— Opa! Desculpa! É que eu estava pensando… Tenho um problema pra resolver…

— O que foi, posso ajudar?

— É uma história meio complicada, mas quem sabe você possa me dar uma forcinha!

Alan contou-a sobre Sarah, sobre o almoço em sua casa, mas sem detalhes. Logo, disse que queria rever Sarah para entregar-lhe o livro, o qual ela havia esquecido em sua casa. Por isso procurou Verônica, para perguntar seu endereço: mas que ao chegar a sua casa, ela estava estranha e o marido transtornado.

— Eu conheço muito bem a Verônica, ela é minha amiga desde a primeira série. E quer saber? Você não deve ter nada a ver com a loucura deles. Aquele marido dela é um animal: ele tem problemas para conviver com suas duas mulheres. Diz que não, mas ele bate nelas toda semana. E elas não fazem nada, não o denunciam nem bota aquele monstro pra correr. A Verônica deve ter medo que ele faça alguma coisa com o filho dela. Sei lá! Talvez ela tenha medo dele sumir com o pobrezinho.

— Então você acha que pode me ajudar?

— Claro! Ó! Faz assim… Eu vou até a casa dela hoje à tarde e a convido para jantar comigo. Daí você vem e fala com ela.

— Mas você acha que o marido dela vai deixá-la sair de casa, ainda mais à noite?

— Vai sim! Ele tem medo de mim. Eu já te disse: ele é um covarde! Pode ficar tranquilo. Lá pelas seis e meia pode aparecer, aproveita e janta com a gente, tá?

Alan agradeceu a ajuda e já ia se virando quando ela pegou na ponta de seu queixo e lhe deu três beijos: o último no canto de sua boca, molhando-a levemente. Ele sorriu timidamente e seguiu rumo à ponte do Botafogo, junto ao Ribeirão das Grimpas: queria ir para casa caminhando pelas margens do ribeirão, como fazia quando criança.

Desceu a ribanceira escorregadia e sentiu o cheiro de mato verde. À beira do barranco, apreciava a fraca correnteza e alguns poços onde costumava pescar lambaris com os colegas de rua. Ia por um trieiro formado pelo gado e pela gente que ali passava a diário. Seguiu atento ao movimento dos peixes, mas sem se descuidar do chão a sua frente: não queria pisar em nenhuma cascavel que por ventura estivesse de cochilo pela trilha.

Ao aproximar-se de sua casa, pelos fundos do quintal, ouviu vozes vindas de sua casa. Percebeu que não eram de seus pais. Parou atrás da cerca de tábuas que separava seu quintal do Ribeirão das Grimpas e esperou para ver quem eram e o que faziam aquelas pessoas em sua casa. De repente, viu alguém correndo com uma pá na mão, gritando várias vezes: “não é ela, não é ela… é só um cachorro”. Ele ficou aterrorizado com o que ouviu. Rastejou-se por alguns metros e viu que alguém tinha desenterrado seu cãozinho. Mais acima, entre a casa e a bica, um homem e uma mulher choravam abraçados. Ouviu mais vozes: “o sangue lá da rua pode ser do cachorro. Calma, gente!”. Logo, a mulher que chorava, responde com uma voz furiosa: “calma… calma é o caralho? Eu quero minha filha de volta”. Alan sentiu suas pernas tremerem, um nó na garganta e uma vontade louca de vomitar.

— Meu Deus, meu Deus! O que está acontecendo? Pensou ele, enquanto passava a mão pelos cabelos, quase os arrancando e segurando o choro para não ser descoberto.

Ouviu alguém se aproximar rápido. Sentou-se de costas para a cerca e ficou quieto. O barulho de passos rápidos andando sobre as folhas secas da mangueira, dava a impressão que estava a três ou quatro metros dele. Fatalmente seria descoberto. Suou frio e apertou os olhos. Prendeu a respiração e ficou totalmente imóvel. Os passos já pareciam estar a um metro, só a cerca baixa, até então, impedia o contato visual. Pensou em levantar, firmou os pés e as mãos no chão, mas ouviu outro grito: “Bora Zé, o chefe tá chamando”. E o homem saiu em disparada rumo ao portão principal de sua casa. Inclinou-se, olhou pelas frestas da cerca e viu um policial saindo de sua casa. Escorou a cabeça na cerca e chorou, copiosamente.

Levantou-se devagar. Olhou por cima da cerca e não viu ninguém. Quis entrar em casa, mas sentiu medo. Secou algumas lágrimas com as mãos sujas de um barro azulado, sentiu o cheiro forte da argila molhada, típica do ribeirão, e a náusea apossou-se de todo o seu ser. Não quis arriscar. Pensou em Sarah: onde ela estaria, por que as pessoas a estão buscando em minha casa, por que a polícia?

Ficou escondido por um tempo em uma pequena caverna na ribanceira do ribeirão. Esperou escurecer um pouco e decidiu ir à casa de Mary falar com Verônica. Enquanto fazia o caminho pelas margens do ribeirão, sentiu suas pernas fraquejarem, ouviu sons abdominais e uma sequidão no paladar insuportável. Pensou em beber da água do ribeirão, mas pensou na água tocando seu estômago vazio e sentiu tonturas. O frio do cair da tarde fazia com que seus joelhos perdessem a mobilidade.

Queria apertar o passo, porém estava fraco demais. Grilos e sapos faziam um alvoroço de sons ensurdecedores e, ao longe, respondiam as saracuras inquietas. Olhou para trás várias vezes, lembrou-se de um livro, que leu quando jovem, sobre a lenda do lobo-guará, e a lenda começou incomodá-lo: um homem foi amaldiçoado a viver dentro de Hidrolândia, por seu apego a terra e sua ganância. Segundo a lenda, sempre que ele tentasse cruzar as fronteiras da cidade, delimitado pelo Ribeirão das Grimpas, se transformaria em um lobo-guará…

Alan finalmente chegou à casa de Mary e bateu à porta com cuidado. Ela abriu e ao ver o estado dele, abraçou-o e levou-o para dentro.

— Nossa! Você está gelado, o que houve?

Alan contou tudo que aconteceu. Ela ouviu em silêncio, não o julgou, tampouco quis saber detalhes. Buscou algumas roupas de seu marido, uma toalha e pediu que ele tomasse um banho quente, enquanto ela preparava o jantar.

— Onde está Verônica, ela não veio?

— Não! Respondeu Mary mordendo os lábios e olhando para baixo — Ela não estava em casa. Mas pode deixar comigo; amanhã bem cedinho vou até lá e trago ela comigo, nem que seja à força.

Ele tomou um banho demorado. Quando terminou, foi à cozinha, e Mary estava sentada, esperando por ele. Sentou-se, ela o serviu. Durante o jantar, não se falaram muito. Ela o observava, comia pouco, mastigava devagar e mordiscava a ponta do garfo. Ele tinha fome, mas não conseguia comer, as lembranças do dia atemorizavam seu coração e fechavam seu estômago.

— Ei! Não fique assim, vai! Tudo vai se resolver.

Terminaram de comer e ela ligou a TV. Disse que era para ele distrair-se um pouco, para não ficar pensando tanto. Ela saiu, pouco tempo depois voltou. Vestida com uma camisola preta e trazia consigo uma garrafa de óleo de amêndoas nas mãos.

— Vem aqui! Deite-se, vou te fazer uma massagem e você vai relaxar e dormir como um anjo.

Ele se deixou levar. Ela pediu para que ele se deitasse de bruços e levantou sua camisa. Untou as mãos de azeite e começou a fazer movimentos circulares em suas costas. Alan sentiu seus olhos pesados, a respiração lenta e seus braços dormentes. Mary, vendo que ele estava quase dormindo, pediu para que ele virasse, desabotoou sua camisa, voltou a untar as mãos e massageou seu peito. Desceu até a cintura e deixou que seus dedos escorregassem pelo interior de sua calça, mas nesse momento, ele segurou suas mãos.

— O que você está fazendo?

— Relaxe, Alanzinho! Só relaxe e feche os olhos!

Ela levantou-se, desligou a TV, fechou as cortinas e apagou a luz…


Capítulo VI

Mary Bovary e seus romances românticos

Alan abriu os olhos, espreguiçou-se e olhou para o relógio de parede na sala da casa de Mary.

— Santo Deus, já são nove da manhã! O que é que eu tô fazendo aqui?

Ele estava deitado no sofá, coberto com um edredom rosa claro, estampado com sombras negras de flamingos, os quais executavam a primeira posição clássica do balé: com os calcanhares juntos, os pés abertos e os dedos afastados; e as asas abertas, formando um círculo e levemente abaixadas. Alan jogou o edredom no chão e viu que estava nu. Pegou-o de volta.

— O que é que eu tô fazendo pelado aqui… Santo Deus! Cadê aquela doida?

Sua pele arrepiou-se quando sentiu uma brisa de ar frio entrando pela porta, enrolou-se e foi ao banheiro pegar suas roupas. Não as encontrou. Viu a porta do quarto de Mary fechada. Bateu duas vezes e chamou baixinho. Mary não respondeu. Voltou a bater, mas desta vez não chamou, apenas abriu a porta devagar. Não havia ninguém no quarto. Sentiu o perfume provocante de Mary mesclado com o cheiro forte de argila: Suas roupas estavam sobre a cama, ainda sujas, envoltas à camisola preta e uma calcinha de rendas de mesma cor.

A primeira peça de roupa que tentou encontrar foi sua cueca: ela estava dobrada e envolvida pela calcinha. Vestiu-a, deixando, por descuido, a calcinha cair no chão. Vestiu também seu Jeans e sua camiseta. O cheiro de seu suor acobertado pelo perfume de Mary causou-lhe repulsa. Jogou o edredom na cama e viu a calcinha no chão. Pegou-a com cuidado, examinou-a, tentou descobrir qual era a parte de trás e a da frente, mas não obteve sucesso. Nesse exato momento, viu uma sombra. Virou-se, obedecendo a seu instinto de defesa, ficou boquiaberto e arregalou os olhos: na porta do quarto, observava-o Mary e Verônica.

— Acho que não vai ficar bem em você. Disse Mary, em seguida tomou a calcinha de sua mão e a jogou em um cesto no canto do quarto.

Verônica tinha os olhos inquietos, reparava em todos os movimentos que ele fazia. Sentia que lhe faltava o ar sempre que ele a olhava direto nos olhos. Mary chamou-os e pediu para que se sentassem à mesa enquanto ela preparava o café. Tinha comprado pães franceses e pães de queijo. Sentaram-se de modo em que Verônica e Alan ficassem cara a cara. Verônica sorriu-lhe de lábios cerrados, ocultando os dentes, deixando claro que aquela situação não lhe agradava. Ele devolveu-lhe um sorriso torto: como se um lado de sua boca lhe sorrisse com carinho, e o outro com raiva.

Verônica perdeu a paciência: levantou-se, tomou o bule das mãos de Mary, pediu para que ela se sentasse e pôs-se a fazer o café. Mary não mostrou a menor resistência. Sentou-se de frente a ele e sorriu um sorriso meio de lado, puxando um dos cantos da boca e olhando para cima. Se ele não a conhecesse tão bem, pensaria se tratar de uma menina tímida. Mas aquele sorriso não significava outra coisa, senão uma tentativa descarada de conquistá-lo.

Aquele olhar meigo e ingênuo – à primeira vista –, o fez lembrar-se de Luísa: a moça romântica, de atitudes inconsequentes, a adúltera apaixonada da obra de Eça de Queiroz: O Primo Basílio. Mas a ingenuidade da personagem de Queiroz era algo próprio dela. Mary, por outro lado, usava o poder do ser ingênuo apenas para a conquista: um artifício da sedução. Por ser assim, ela era para ele Emma Bovary, personagem central da obra Madame Bovary, de Gustave Flaubert. Esta sim tem sua representante na vida real: assim como Emma, Mary formou seu ideal de homem induzida pelas leituras de romances românticos desde a adolescência. Para seu azar, casou-se com um homem que não mereceria um papel de destaque em nenhum romance romântico. Desde então, ela busca o prazer da carne, antes estimulado pelo alargamento de sua imaginação no auge de sua puberdade, para, ao menos, tentar preencher o espaço vazio deixado por mitos que satisfaziam todos os seus desejos de mulher, mesmo antes de tornar-se uma.

Mary abriu a sacolinha com os pães de queijo e os pôs em uma pequena cesta artesanal de vime de bambu e deixou-os próximo a ele. O cheiro de queijo e polvilho fez com que Alan fechasse os olhos por um instante e se lembrasse dos pães de queijo que lhe fazia sua avó no forno de um velho fogão caipira, cuja fumaça de madeira queimada dava um toque especial de defumados, sentido tanto pelo paladar quanto pelo olfato. Pegou o menor, levou-o a boca com rapidez e o mordeu.

— Hei! Temos de orar primeiro: agradecer pela comida! Mary o repreendeu, tomando o resto do pão de queijo de sua mão e acariciando seu rosto com os dedos.

— Orar? Sei… com essa boca que… sei…! Deixa pra lá. Pensou ele, deixando transparecer um claro sorriso sarcástico.

O cheiro do café tomou a casa toda. Verônica juntou-se a eles. Deram-se as mãos e Mary pediu para que Alan fizesse a prece.

— Olha! Eu não sei rezar… Nunca entrei numa igreja!

Alan tinha um problema com as escadas da igreja, mas não queria falar sobre isso. Verônica então tomou a palavra e fez uma prece tão carregada de sentimentos, que fez com que ele pensasse sobre sua transformação.

— Realmente, Verônica é a nova Heloísa. E ele sentiu-se feliz com a reflexão.

Começaram a comer e depois de algum tempo, Mary quebrou o silêncio: pediu para que Verônica dissesse o motivo que levaram ela e o marido a agirem de forma tão agressiva com ele. Verônica respirou fundo, baixou os olhos e tomou um gole de café.

— Quando você chegou lá em casa, o delegado havia acabado de sair. Disseram que a Sarah estava desaparecida, e que buscavam informações das pessoas mais próximas a ela. Os pais dela disseram à polícia que eu sou sua melhor amiga, então…

— Então o quê? Perguntou ele sem paciência e suando frio.

— Eu disse a eles que a última vez que a vi, ela estava contigo na biblioteca. Então o delegado mandou uma viatura ir à sua casa. Quando contava para o delegado onde costumávamos ir juntas, ele recebeu uma ligação dos policiais que estavam na sua casa: eles disseram que encontram sangue na rua e no portão. Daí eles saíram em disparada, E cinco minutos depois, você chegou.

Ainda com a boca cheia, ele parou de mastigar. Engoliu em seco os restos de pão de queijo e sentiu que aquilo cortava sua garganta. Ele tentou articular em sua cabeça o que responderia: falaria sobre seu cão morto; sobre a tarde de amor com Sarah; sobre ela sair sem se despedir… Ele, então, pousou as mãos sobre as pernas e fez movimentos para frente e para trás, balançando todo o corpo e com um olhar vago, ora de culpa ora de preocupação, até que Verônica continuou.

— Calma: nós já sabemos que encontraram apenas seu cãozinho na cova. Não sei o que você fez, nem te conheço tão bem para acreditar ou duvidar de você. Além disso… Sarah…

— Pelo amor de Deus! O que tem ela, você sabe alguma coisa sobre Sarah, sobre onde ela está? Disse ele impaciente e com os olhos lacrimejando.

— Vamos, Verônica! Desembucha de uma vez! Disse Mary, ainda mais impaciente.

— A Sarah está grávida…

Um calor repentino subiu-lhe a cabeça enquanto sentia seus pés congelarem. Alan tinha o rosto pálido e o olhar fixo à boca de Verônica, esperando, com piedade de si mesmo, por alguma história que lhe devolvesse a normalidade do pulsar de seu coração. Mary, não menos estupefata, só conseguia olhar com pena para ele e desejava ouvir algo que libertasse o pobre rapaz daquele sofrimento terrível.

— A Sarah… ela… é! Como vou dizer… Ela tinha um caso com um homem bem mais velho que ela. E… ele… é… ele é casado. Quando ela o contou que estava grávida, ele enlouqueceu: disse que era um homem público, um político conhecido na cidade e que aquilo não poderia seguir adiante. Daí ela contou-me que ele lhe deu dinheiro e o telefone de uma clínica em Goiânia…

— Meu Deus… Que monstro! Disse Mary com as duas mãos sobre a boca.

Alan estava completamente imóvel. Olhava diretamente para Verônica, mas parecia ver algo através dela: como se ela fosse apenas uma sombra encobrindo o horizonte de suas percepções. Ele sentiu-se usado, mas não acreditava que tudo o que eles passaram naquela tarde, desde a biblioteca até a sua casa, tinha sido puro teatro de Sarah para encontrar um pai para seu filho. “Os olhos dela não diziam isso… se bem que: olhos de cigana oblíqua e dissimulada”. Pensou para seu pesar!

Verônica ia continuar com a história, mas ouviu alguém bater à porta. Era seu marido acompanhado de dois policiais.

— Não os deixe entrar - disse Alan tremendo e soluçando -, preciso de mais tempo para descobrir onde está Sarah.

— Espere! Eu tive uma ideia: vou deixar apenas meu marido entrar e pedir ajuda a ele.

Verônica não deu tempo para que Alan e Mary concordassem ou discordassem da ideia. Foi à porta, abriu-a e deixou apenas o marido entrar. Com um sorriso amarelo, disse aos polícias que aguardassem um momento. Fechou a porta e pegou o marido pelo braço.

— Você precisa ajudar a gente: o Alan está aqui, mas a polícia não pode levá-lo agora. Ele é inocente, não fez nada e precisa de tempo para descobrir onde está Sarah.

Seu marido mal a deixou terminar o pedido, empurrou-a contra a parede do corredor de entrada e a derrubou. Abriu a porta e gritou com raiva.

— Corram! Entrem! Ele está aqui!

Os policiais e o marido de Verônica entraram pela casa derrubando tudo que encontravam pela frente. Chegaram à cozinha e encontraram a porta que dava acesso ao fundo do quintal escancarada. Os três partiram em disparada pelo quintal. Mary correu e fechou a porta, atrás dela, com um semblante de terror nos olhos e gelado, estava Alan.

— Rápido! Suma daqui! A gente vai resolver isso pra você. Procure meu irmão, o Gustavo. Vou falar com ele para que nos ajude. Disse Mary, entregando-lhe uma jaqueta e um boné de seu marido.

Ele caminhou rapidamente em direção ao centro da cidade, escondendo-se entre as árvores e evitando cruzar olhares com as pessoas que passavam por ele. Subiu pela Rua Dirceu de Mendonça e entrou à esquerda na Rua Índio do Brasil. Caminhou apressadamente junto aos muros. Seus joelhos começaram a falhar, pensou em desistir e se entregar. Mas logo chegou à Avenida Piracanjuba, onde mais à frente e à esquerda tinha um pasto, uma pequena parcela de mata fechada e uma represa. Decidiu ficar escondido ali, até que escurecesse e pudesse procurar o irmão de Mary.

Pulou a cerca de arame farpado e caiu sobre o cascalho. Era a primeira vez na vida que ele via sangue em seus joelhos. Passou os dedos sobre as escoriações, sentiu a textura quente do líquido e ficou encantado com a experiência. No entanto, um ruído assustador que se aproximava rápido o fez mudar de semblante: da paixão pelo próprio sangue, para o pânico da sirene da viatura da polícia. Levantou-se, e sem medir o perigo, atirou-se dentro de uma grota.


Capítulo VII

O que será que elas bebem?

A viatura contornou todas as ruas da Vila Mutirão e desapareceu em seguida. Alan tinha escoriações por todo o corpo. Ele caiu dentro de uma nascente e molhou suas pernas feridas. Sentiu latejos de dor. Tinha o jeans rasgado na altura dos joelhos pela queda da cerca e sentia frio por estar todo molhado. Rastejou-se e escondeu-se entre folhas secas e um monte de gravetos á beira da nascente.

À sombra das árvores o frio era insuportável. Esforçou-se em mover as pernas, porém não conseguia: pareciam mortas. A ideia de não poder andar mais o assustou e ele tratou de tentar move-las de todas as formas. O esforço empregado fez com que suas pernas voltassem a se mexer e, consequentemente, esquentou seu corpo, mas n#ao o suficiente para cessar o ranger de dentes.

A tarde caia pavorosa. A fome causava-lhe enjoos. A água da nascente, gelada e cristalina, já não lhe caia tão bem. Parecia acompanhada de um gosto de ferrugem, e o aroma de barro e lodo provocavam-lhe ânsias de vômito. Apoiou-se no barranco e firmou as pernas, mordendo os lábios inferiores e apertando os olhos com muita força. Puxou o ar e o prendeu várias vezes, até conseguiu dar alguns passos. Parou e pôs as mãos sobre as costas na altura lombar. A dor que lhe subia dos joelhos passando, principalmente, pela perna esquerda, o fazia lembrar-se de suas consultas: em que o ortopedista lhe dizia algo sobre as complicações causadas pela inflamação do nervo ciático.

Olhou para os lados, procurando algum pedaço de madeira que pudesse lhe servir de apoio. Havia apenas alguns galhos secos pelo chão, mas muito finos. Viu uma pequena planta com galhos de uma grossura que pareciam servir. Tentou quebrar, torceu um galho, deu várias voltas, mas não logrou quebrá-lo: era demasiado verde, o único que conseguiu foram dois calos nas mãos.

Continuou o caminho devagar, apoiando-se no barranco. Subiu pelas paredes da grota agarrando-se em raízes úmidas e aromáticas. Observou a sua volta: não havia ninguém nas proximidades. Ele estava próximo à Rua 06, a última da Vila. Ziguezagueou entre os assa-peixes para não ser visto. A noite caiu depressa. Suas pernas trêmulas e a exaustão de seu semblante fez com que algumas crianças, que passaram por ele, pensassem se tratar de um mendigo bêbado: algumas riram, zombaram, outras ficaram apreensivas. Havia perdido quase todo o medo, o cansaço impedia que seus pensamentos o tratassem como um fugitivo. Na esquina da Rua 06 com a Avenida Transbrasiliana, ouviu a buzina de um caminhão que passava pela BR-153 e ficou novamente em estado de alerta.

Apertou o passo e seguiu em direção à casa do irmão de Mary. Gustavo vivia um pouco mais à frente e à esquerda, na Alameda dos Eucaliptos. Chegou próximo ao portão e foi recebido com o ladrar de um rottweiler. O cão ficou de pé, com as patas escoradas na grade do portão de metal e latiu com raiva.

— Calma! Bichinho feio! Vai chamar seu dono, vai!

— Quem é que tá aí? Perguntou uma voz ainda dentro da casa.

— É o Alan, amigo de sua irmã, Mary… Eu…

Antes que pudesse terminar de dizer o que queria, ouviu uma ordem ameaçadora.

— Some daqui, agora! Se não eu chamo a polícia!

Alan botou as duas mãos atrás da cabeça com os dedos entrelaçados e lágrimas jorraram de seus olhos cansados. O cão continuou com sua tentativa de expulsar o intruso e balançava o portão como se o quisesse derrubar. Ele já ia dar meia-volta, quando sentiu uma mão fria tocar-lhe o braço. Soltou um grito de terror, o que fez com que o rottweiler aumentasse ainda mais o tom de seus latidos. O movimento brusco que Alan fez para livrar-se daquela mão ameaçadora, fez com que Mary quase caísse no chão.

— Calma, Alan! Sou eu!

Mary o abraçou e esfregou com força as mãos em suas costas.

— Calma, meu amor, calma! Está tudo bem agora! Agora vamos sair daqui, que o marido da Verônica, aquele animal tosco, já fez a cabeça do meu irmão e ele acha que você tem culpa no desaparecimento da Sarah.

Mary pegou o braço esquerdo dele e o pôs sobre seus ombros de modo que ele pudesse apoiar-se, e com o seu braço direito envolveu-lhe a cintura. Desceram a Alameda dos Eucaliptos e viraram à esquerda na Avenida Perimetral.

— Não podemos ir para minha casa, muito menos para a sua: há policiais por toda parte. Eles fecharam todas as saídas da cidade. Mas a Verônica e eu tivemos uma ideia. Parece um pouco louca, mas vai dar certo. Confie em mim.

Continuaram caminhando, as ruas estavam desertas e frias. Próximo ao antigo campo de futebol, avistaram as luzes de uma viatura que vinha de encontro a eles. Rapidamente se esconderam atrás da mureta de entrada do campo, ao lado da bilheteria.

— Vamos, que ideia vocês tiveram? Pode me dizer que eu aceito. Não quero que me levem para a delegacia: eu morreria naquele lugar, sem poder fazer nada e esperando a boa-vontade da polícia.

Continuaram caminhando em direção ao Colégio Deputado Manoel Mendonça.

— Olha, é o seguinte! Deixa-me terminar, depois você diz se aceita ou não, tá?

Alan caminhava olhando para trás e com a sensação de que a qualquer momento os policiais iriam prendê-lo.

— Vamos pedir a ajuda de um casal amigo da Verônica, eles moram na cidade há pouco tempo, assim que não sabem quem você realmente é. Vamos dizer a eles que seu nome é Rodrigo… ou algum outro que você quiser; que queremos ajudar a procurar por Sarah, mas precisamos de informações: nomes de amigos e, principalmente, se eles sabem da história da gravidez e quem era o namorado dela. Precisamos saber, porque se a polícia descobre que ela estava grávida de um homem casado, você não será mais o único suspeito. Não sei se vai ajudar muito, mas será um atenuante. A polícia terá outro suspeito para perseguir e pode que tenhamos mais tempo para encontrar a doidinha…

— Espera, espera, espera aí! Você está falando dos pais de Sarah?

— Cala a boca, eu disse pra me deixar terminar!

Alan esfregou as mãos na cabeça e olhou para baixo resmungando algo: não sabia se deixava Mary continuar - com o que para ele parecia ser uma ideia de jerico - ou se dava um basta na história toda, procurando a polícia para resolver logo o caso.

— Olha aqui! Espera eu terminar, tá bom? É o seguinte… Vamos dizer que passamos o dia todo procurando por Sarah. Que você, inclusive, está todo machucado por causa disso. Vamos ficar enrolando eles até a gente descobrir quem é o tal do cara casado que tinha um romance com a doidinha da Sarah.

— Isso não vai dar certo… E pare de chamá-la de doidinha! Além disso…

Alan não pôde terminar seu raciocínio. Eles ouviram o barulho de uma sirene, a viatura estava próxima. Mary o empurrou contra um muro e o beijou. A viatura diminuiu a velocidade, os policiais olharam o que parecia ser um casal de namorados se esfregando no muro. Um dos policiais cutucou o outro e balançou a cabeça com um gesto de reprovação, mas seguiram em frente e desapareceram ao virar à direita, na Rua Frei Luís Mário. Mary e Alan também entraram à direita, mas um quarteirão antes, na Rua Goiás. Estavam próximo à casa dos pais de Sarah. Ele observava Mary com o canto dos olhos:

— Nossa! Que personagem putinha! Eu jamais criaria uma putinha tão perfeita. Ela tem todas as características das mais célebres personagens adúlteras da literatura. Por outro lado, ela está tentando me ajudar… Hum…, mas continua agindo como uma putinha… uma putinha amiga, mas putinha. Ela me lembra, um pouco, a Senhora de Rênal: a adúltera de O vermelho e o Negro, de Stendhal. Quer me ajudar, mas vai acabar me entregando. É uma danadinha mesmo… danadinha e doce… gosto dela!

Passaram por um dos poucos postes de iluminação da rua que funcionava, Mary o olhou nos olhos. Ele tinha um sorriso cínico, quase vulgar. Parecia estar em outro mundo, sem nenhum problema e apaixonado.

— Que cara é essa? Perguntou ela.

— Olha! Você é casada, não pode ficar por aí beijando as pessoas! Vai pegar mal pra você…

— E… eu hein? Eu só tentei te ajudar! A polícia ia te pegar e eu… Além disso, eu só botei minha boca na sua: foi você que veio todo assanhado com a língua. Era pra ser só um beijo técnico.

— Beijo técnico?! Sei! Até parece…

Chegaram à casa dos pais de Sarah. Mary abriu o portãozinho de madeira e caminharam até a casa que ficava nos fundos de um enorme quintal. Mary bateu à porta e segurou na mão de Alan. Uma mulher alta, de cabelos negros e cacheados, olhos castanhos, de nariz fino e levemente arrebitado, uma boca grande com contornos bem definidos e um rosto divinamente esculturado abriu a porta. Alan sentiu um aperto dentro do peito.

— Meu Deus! Como elas se parecem!

A mãe de Sarah, mesmo com seus quarenta anos recém-completados, parecia ser sua irmã, tamanha era sua jovialidade.

— Boa noite, senhora! Mary cumprimentou-a, evitando um olhar direto. — Nós viemos para tentar ajudar vocês no que precisarem. Somos amigos de sua filha, passamos o dia todo a procurando pela cidade e pelos entornos também. Meu nome é Clara, e esse é o…

Ela hesitou-se por um momento:

— O Jorge, é… Jorge, o nome dele é Jorge.

— Jorge?! Pensou ele. — Não era Rodrigo?! E você, Clara?! Puxa vida! Eu tô é ferrado na mão dessa doida.

— Entrem, por favor! Eu sou a Matilde. Disse ela secando os olhos.

Matilde os levou à cozinha, pediu para que se sentassem e os ofereceu café. Pôs a garrafa em cima da mesa e foi à dispensa. Mary sentiu um desconforto repentino, quando lembrou que seu marido chegaria naquela mesma noite.

— Meu Deus! Tenho que ir rápido para casa, o Jorge já deve ter chegado! — Jorge? Seu marido se chama Jorge? Nossa! Você é uma…

Matilde interrompeu os dois. Ela trouxe uma lata cheia de petas, um tipo de biscoito de polvilho doce. Alan, que passou o dia inteiro sem comer nada, perdeu a razão: não a esperou sequer buscar os pratos. Destapou a lata, pegou uma peta de formato arredondado, levou-a até o nariz, sentiu o aroma de polvilho recém-torrado, salivou como se tivesse um reservatório de água na boca e mordeu um pedaço tão grande que teve que ajudar com a ponta do dedo, a botar aquele troço de peta para dentro da boca. Mary o repreendeu baixinho.

— Nossa! Você precisa de bons modos.

— E você vem me falar de bons modos, putinha! Pensou ele em silêncio.

Mary ficou inquieta, ela não podia mais esperar. Enquanto isso, Alan comia sem parar.

— Desculpe-me por não oferecer algo melhor: não tive fome nem vontade de fazer o jantar pra comer sozinha.

— Sozinha? E seu marido, onde ele está? Perguntou Mary.

— Bem! Nós estamos separados a mais de um ano. Quando nos mudamos para Hidrolândia, viemos apenas Sarah e eu. Mas ele vem todo fim de semana para ver a Sarah e logo volta pra Goiânia.

— Sinto muito… mil desculpas, eu não queria...

— Não tem problemas, já foi superado! Disse Matilde e abriu pela primeira vez um sorriso.

Mary aproveitou que Matilde estava sozinha e resolveu deixar os dois ali e voltar para a casa. Ela sentiu que Alan estaria seguro com a mãe de Sarah, pelo menos até o amanhecer.

— Olha! Infelizmente tenho que ir para casa, mas a senhora pode dizer o que sabe para o A… É… Jorge, e amanhã nos encontramos bem cedinho e saímos para procurar a Sarah. E não se preocupe, nós vamos encontrá-la.

Alan ouvia tudo com indiferença: a fome e a notícia da separação dos pais de Sarah, o deixou sereno e despreocupado. Mary despediu-se e disse que voltaria na manhã do dia seguinte. Matilde a acompanhou até a porta, quando voltou, Alan comia a última peta.

— Pobrezinho! Você deve estar com muita fome. Quer que eu faça algo rápido para você comer? Macarrão com sardinha, pode ser?

— Não se preocupe, Dona Matilde…

— Nada de dona, pode me chamar só de Matilde, tá bom?

— Tudo bem, dona… quer dizer, Matilde! Eu estou satisfeito, obrigado. E desculpa aí, eu… comi todas as suas petas.

Ele se levantou recolheu os copos e pratos e pediu para ajudar a lavá-los. Ela recusou. Tomou os pratos de sua mão e voltou a deixá-los na mesa. Nesse momento, ela reparou que ele tinha o jeans rasgado e sangue nos joelhos. Pediu para que ele se sentasse. Correu até o banheiro e voltou com uma caixinha de primeiros socorros. Perguntou o que tinha acontecido. Ele disse que ao procurar por Sarah pelos arredores da cidade, havia escorregado e caído em uma grota cheia de pedras.

Matilde estava com dificuldades em limpar a região ferida e propôs que ele tomasse um banho primeiro. Ele recusou a princípio, mas logo ela o convenceu, dizendo que cuidaria de seus ferimentos e de suas roupas. Buscou uma toalha e o acompanhou até o banheiro. Pediu que ele se despisse e ficou esperando as roupas para lavá-las.

— É… eu não tenho outras.

— Sem problemas, eu arranjo algo pra você vestir até as suas secarem. Disse Matilde e olhou dentro dos olhos dele.

— Tá bom, mas… eu poço fechar a porta do banheiro?

Ela o olhou com um sorriso largo. Sentiu seu cheiro de suor e barro, mordeu o lábio inferior e pousou os olhos sobre a cintura dele. Ele a assistia incrédulo. Mas logo, o cheiro de sabonete despertou suas fantasias e imaginou-a nua, de cabelos molhados e o corpo coberto de espuma. Ela sorriu para ele, pegou uma mexa de seu cabelo e botou atrás da orelha: “exatamente como Sarah”. Pensou ele.

— Pode deixar! Eu fecho a porta pra você!

Ela, então, entregou-lhe a toalha, sorriu timidamente, virou o corpo devagar, mas demorou tirar os olhos dele. Chegou à porta do banheiro, olhou-o novamente dos pés à cabeça, pegou na maçaneta e segurou a chave com força. Tardou algum tempo imóvel, pensava o que fazer. Logo, depois de um largo suspiro, ela fechou a porta devagar. Porém, tomada pelo desejo e liberdade da escolha do próprio gozo, escolheu ficar do lado de dentro…


Capítulo VIII

Mathilde de La Hidrox

Alan não pregou os olhos durante a noite toda, Matilde dormiu como uma criança. Os primeiros raios de sol penetravam pela janela do quarto e pelas frestas do telhado. Ele a observava: ela dormia de lado, de frente para ele, com o cobertor tapando apenas seu quadril. O desenho sinuoso do corpo daquela senhora o fez esquecer-se, por um momento, que se tratava da mãe de Sarah. O frio matinal provocava pequenas ondas de arrepios nos ombros e nos seios descobertos de Matilde. E Alan, refém de seus instintos, deixou-se levar por pensamentos sensuais e vibrantes.

Há um par de dias, ele era apenas um homem que se tocava, mas nunca havia tocado ninguém. Poucas horas depois, seu imaginário fora recriado com cenas reais. Primeiro por Sarah, “a menina dos olhos de cigana”; Logo, Mary: a experiente mulher casada, a doce adúltera, mas amiga, que assumiu todo o controle e parecia sentir prazer com tal situação; por fim, Matilde, a mãe de sua primeira experiência, a de alma vampiresca, a que lhe chupou todo o sangue e que lhe marcou todo o pescoço.

Ela dormia feliz e sexy, ele tomou o cobertor, o abriu por toda a cama e a cobriu. Matilde despertou-se, tinha os caninos a postos e os olhos vermelhos. O atacou sem piedade, o pegou pelos cabelos e o mordeu a jugular: ele, sem reação, vitimou-se, mais uma vez.

Por volta das dez da manhã, os dois acordaram com o ruído de alguém que batia à porta. A voz de um homem chamou por Matilde, duas ou três vezes. Sua expressão séria e seus olhos alertas denunciaram algo ameaçador.

— É meu marido!

— Ex-marido: você quis dizer, ex-marido.

Matilde tapou a boca de Alan com uma das mãos e com a outra fez um gesto de silêncio e sussurrou em seu ouvido:

— Ele ainda não aceitou a separação, continua tentando reatar. Melhor que ele não te veja aqui. Senão… ! Melhor esperar que ele se canse de bater e vá embora.

Depois que se fez o silêncio, Alan vestiu suas roupas ainda molhadas, porém limpas. Matilde preparou sanduíches de queijo, feitos em uma sanduicheira de fogão e serviu o café. Ele sentiu o cheiro do pão torrado e do queijo derretido que saia pelas beiradas. Pegou um e o mordeu. O queijo quente queimou sua língua, e sem poder mastigar o pedaço de pão com queijo ainda quente, abriu a boca, fez um “o” com os lábios e soprou como um louco.

— Viu só? Não esperou para fazermos a prece antes de comer… Deus castigou!

Ele a olhou com um sorriso cínico e comparou a semelhança de sua religiosidade à de Mary: que se aplicava apenas ao pão, à carne não. Tentou personificar Mathilde de La Mole em Matilde, mas a personagem de Stendhal se interessou por Julien Sorel por suas qualidades intelectuais, não por suas calças rasgadas, pelo sangue em seus joelhos, pelo cheiro forte de suor e barro ou por ele se chamar Jorge, o borracheiro, Jorge, o do caminhão, ou Jorge com qualquer outro aposto rude e viril. Tampouco gostou da ideia de ser o Julien Sorel de La Hidróx, apontado como um alpinista social que ataca as mulheres vulneráveis: “a vitima aqui sou eu”. Pensou ele, e novamente vitimou-se.

— Melhor você ir embora, meu marido, digo, meu ex-marido, pode voltar a qualquer momento.

— Espera! Eu preciso saber de algumas coisas sobre sua filha. Tenho que encontrá-la! Eu preciso saber quem é ou era o namorado dela, se ela tem outros amigos além da Verônica. E se você sabe que ela está…

— Grávida! Interrompeu Matilde — Sim, eu sei!

— Então temos que contar à polícia, senão eles continuaram achando que eu…

Matilde deixou a xícara de café cair no chão. Sua respiração descompassou-se e seu rosto ficou pálido. Levantou-se da cadeira e caminhou lentamente para trás, até que suas mãos tocassem um armário de metal. Sem tirar os olhos dele, abriu a gaveta e tateou os talheres em busca de uma faca. Encontrou uma pequena, sem deixá-la a mostra, gritou:

— Saia daqui agora, seu monstro!

— Calma Matilde! Eu posso explicar! Eu… eu…

Ouviram bater à porta, e ela gritou por socorro. Então as batidas na porta ficaram mais intensas como se alguém a quisesse derrubar a socos e pontapés. Alan olhou em direção à porta sala, logo voltou a olhar Matilde: Abriu a porta da cozinha e fugiu pelos fundos. Subiu no muro e saltou no quintal vizinho. O salto machucou ainda mais seus joelhos. Doíam, sangravam. No entanto ele sorriu: suas pernas eram ágeis e suas lágrimas doces.

Saltou muros e cercas e chegou à Rua Índio do Brasil. A rua estava pouco movimentada. Quis voltar para a casa e desejou não ter conhecido Sarah. Mas minutos depois, a lembrança daquela boca macia, circulando e roçando a sua, o fez mudar de ideia e deu-lhe forças para continuar procurando-a. Seguiu em direção à Avenida Goiânia, parou na esquina e olhou para os lados, não viu ninguém e continuou em direção à sua casa. Com medo de que houvesse alguma viatura na porta de sua casa, decidiu chegar pelos fundos: entrou à direita, na Rua Aimoré e chegou à Alameda das Grimpas. Sua garganta seca o obrigou a saltar a cerca de arame farpado para matar a cede em um pequeno rego d’água que corria paralelo à rua, do lado de dentro dos quintais dos senhores da água.

Após beber, tratou de voltar à rua. Enquanto passava entre os arames farpados, ouviu o barulho de um carro e se jogou em uma moita de capim cidreira. O carro passou por ele sem o notar. Ele rolou pela terra de dor: o arame farpado cortou, ainda mais, seus joelhos, e o capim cidreira fez pequenos cortes em seu rosto e braços. Gemeu por alguns minutos deitado ao chão, apertando os olhos e mordendo o lábio inferior. Levantou-se, cruzou a rua. Estava próximo à sua casa, mas queria chegar pelos fundos. Olhou por cima do portão de uma casa, onde morava um casal de anciãos. Não viu ninguém, abriu o portão devagar, entrou, voltou a fechá-lo e andou abaixado para não ser visto. Caminhou por entre as árvores e chegou ao fundo do quintal, pulou a cerca de tábuas velhas e quebradas e assomou-se à margem do Ribeirão das Grimpas.

Antes de prosseguir, sentou-se na areia ao lado de um fio de água do riacho. Fez uma concha com as mãos e bebeu um pouco de água. Logo, cavou a areia até encontrar uma camada azul escura e fria de argila. Pegou um pedaço e a sovou. A massa argilosa depois de sovada adquiriu uma cor cinzenta e um cheiro de terra molhada. Passou um pouco pelos ferimentos: a dor fez com que ele deitasse e se contorcesse na areia. Sentiu frio, apesar de seu rosto estar coberto de suor. O frescor da argila aos poucos aliviou sua dor. Permaneceu deitado por alguns minutos. Logo sentou-se, respirou fundo e pôs-se de pé. Caminhou pelas margens e chegou ao fundo de seu quintal. Subiu o barranco e escondeu-se atrás da cerca. Olhou pelas frestas, não viu ninguém. Sentiu um odor desagradável: botou a camiseta no nariz e olhou em sua volta para ver se havia algum animal em decomposição próximo. Não viu nada, voltou o olhar para o quintal de sua casa e avistou algo que lhe causou uma imensa dor. As lágrimas começaram a cair, o soluço aumentou gradativamente: seu cãozinho, que fora desenterrado pelos policiais, se decompunha ao ar livre, sobre folhas de mangueiras, ao lado da cova vazia.

Saltou sobre a cerca e foi ao encontro de seu amigo morto. Ajoelhou-se ao seu lado, cavou com as mãos até que suas unhas começassem a sangrar. Pegou-o com cuidado e deitou-o na cova, enterrando-o pela segunda vez. Passou as mãos sujas de terra e sangue no rosto e secou as lágrimas. Sentiu nojo de seu estado, de sua vida: vomitou.

Pôs-se de pé com dificuldades. Não importava mais nada. Foi à bica d’água e deixou que a água fria lhe limpasse o corpo e a alma. Com frio, saiu da água e deitou-se próximo a porta da cozinha de sua casa, sobre um amontoado de madeira que secava ao sol. Ficou ali por quase uma hora. Ouviu os pássaros: pardais nas jabuticabeiras e sanhaços na figueira. Depois de reflexões distorcidas e pensamentos de raiva e tédio, entrou em casa e procurou algo para comer.

Sua casa estava de ponta-cabeça: nada ficou dentro dos armários, dos guarda-roupas… Pôs as cadeiras de pé, buscou algumas lascas de madeira, ordenou-as no fogão caipira e prendeu fogo. Buscou algo para comer na dispensa, mas tudo que havia antes desapareceu, exceto um saco de farinha de mandioca. Caminhou com muito pesar até o quintal, entrou no galinheiro e encontrou vários ovos. Fritou três e os pôs sobre um prato cheio de farinha. Sentou-se à mesa, pegou o garfo e espetou as gemas dos ovos mal passados. As gemas amarelas, quase laranjadas, escorreram pela farinha e fizeram uma poça na borda do prato. Lembrou-se do sangue de seu cãozinho e deixou o prato de lado.

Olhou-se no espelho: seus olhos vermelhos de cansaço e lágrimas não piscavam, pareciam distantes, mortos. Tirou as roupas molhadas, rasgadas e sujas. Pegou uma camiseta e uma bermuda que estavam jogadas pelo chão, vestiu-as e deitou-se. Sua respiração estava calma, seus olhos pesados e seus pensamentos criavam imagens de uma moça sorrindo e sentada sobre o seu corpo na cama. Raios de luzes, ora azuis ora esverdeados, coloriam o quarto, e a moça, antes sentada, flutuava lentamente, sorrindo e chamando seu nome…

— Alan! Alan! Acorda, homem!

— Mary! O que você está fazendo aqui?

— Cale essa boca e vem comigo! A polícia tá chegando, a gente tem que sair daqui!


Capítulo IX

Renascer

Alan pegou algumas peças de roupa e saiu em disparada com Mary pelos fundos da casa. No momento em que estavam saltando a cerca, ouviram a sirene da viatura da polícia, o barulho de uma freada brusca e gente gritando: “Cerquem a casa!”. Os dois entreolharam-se mudos. A única opção era clara, correr.

As sombras das mangueiras se confundiam com as da noite. Os últimos raios de sol despediram-se e desapareceram. Enquanto corriam, Mary olhou para trás e viu vultos passeando pelo quintal. Pegou Alan pelo braço e o empurrou dentro do ribeirão, atirando-se em seguida. Nadaram e se esconderam entre as vegetações que cobriam a margem do outro lodo. Viram dois policiais aproximarem-se. Ficaram imóveis, apenas tremiam de frio e respiravam ofegantes. Enfim, os policiais voltaram para a casa do Alan. Os dois saíram da água e correram em direção à BR-153. Desceram as pedras do Poço Velho e atravessaram a BR-153 por baixo, pelas manilhas de concreto.

Continuaram caminhando pelo pasto escuro por quase meia hora. As luzes da cidade ficaram distantes pouco a pouco. Alan tinha dores por todo o corpo e sua garganta seca e dolorida parecia anunciar uma infecção viral. Pararam e olharam em volta, avistaram uma luz não muito longe.

— Olha! Aquela luz é da casa do Seu Joaquim. Disse Alan, com a voz trêmula pelo frio e pela sensação de ter a garganta arranhada.

— O carroceiro?

— Ele mesmo! Vamos até lá, creio que ele pode ajudar a gente!

— Não temos muita escolha, né?

Chegaram, abriram a porteira que ficava de frente para a casa. O ranger das dobradiças despertou os cães. Pela sinfonia dos latidos, perceberam que no mínimo havia três cães aproximando-se para atacá-los. Por instinto, subiram na porteira sem calcular os movimentos e altura necessária para que não fossem alcançados. Ainda sem ver os cães na escuridão, eles gritaram o senhor Joaquim sem parar. A porta da sala se abriu, viram uma luz fraca de lamparina e ouviram um assovio. Os cães pararam de latir.

— Quem é que tá aí? Que é que cês qué?

— Sou eu, Seu Joaquim, o Alan, da casa da bica.

O Senhor Joaquim voltou a entrar na casa. Dois minutos depois, eles ouviram o barulho de um gerador de energia: a casa e todo o curral ficaram iluminados. Próximo a eles, os três cães os observavam. Pelo tamanho e, principalmente, pela idade, não iam se aproximar muito, muito menos atacá-los.

— Boa noite, moço! Boa noite, moça! Em que posso servi-los, inda mais numa hora dessas?

Os dois se olharam espantados, não haviam pensado nada para dizer. O silêncio de ambos pareceu incomodar o velho carroceiro.

— Desculpa incomodar a essa hora, Seu Joaquim! É que…

— Desembucha, rapaz! Vocês fizeram coisa errada, num é? Pra estarem com essas caras de gato na carreira, cês só pode ter feito trem errado. E outra coisa, por que cês tão tudo moiado? Vem pra dentro, ou cês vai se resfriar!

Desceram da porteira e acompanharam o velho carroceiro. Entraram pela porta da sala, seguiram por um corredor escuro e com cheiro de folhas de eucalipto queimadas, usadas para espantar pernilongos. Chegaram à cozinha. No fogão caipira, algumas brasas ainda ardiam: o senhor Joaquim as revirou e pôs um par de lenhas sobre elas.

— Agora cês fica aqui perto do fogo pra quentá um pouquinho, que eu vô buscar uns trapinhos pro cês cabá de se secá.

Alan sorriu timidamente e assentiu com a cabeça: parecia sentir-se à vontade na casa do velho. Mary reparava em cada canto da casa: as tábuas do chão da cozinha estavam manchadas, e as manchas pareciam frescas, úmidas. “Parece que o velho passou o dia todo esfregando o chão”. Pensou ela.

Apesar da simplicidade da casa, tudo estava em seu lugar: as conchas de cozinha penduradas na parede, bem como as frigideiras de cabo negro; e em uma tábua sobre o fogão caipira, postas para defumar, linguiças e charques. Ela olhou para as outras paredes, percebeu que tudo estava perfeitamente ordenado. Ela, então, observou o telhado da casa e viu as telhas esfumaçadas e cobertas por teias de aranha, além de um símbolo estranho. Nesse momento, a mão fria, calejada e áspera do velho carroceiro agarrou-lhe pelo pescoço e suas pernas estremeceram. Alan virou-se ao ouvir o gemido de dor e susto de Mary. A cena que seus olhos espantados presenciaram deixou-o mudo e sem reação: o Senhor Joaquim estava vestido todo de branco, com o que parecia ser uma capa com adornos dourados. Com uma das mãos segurava um punhal de cabo amarelo metálico apoiado na cabeça de Mary, com a outra, apertava o pescoço de sua amiga, a ponto de deixá-la com o rosto pálido e quase sem respiração.

O terror estampado no rosto de Mary fez com que Alan, chorando baixinho, fosse em direção aos dois, levantou a mão direita, com a palma voltada para cima como se quisesse tomar à mão de sua amiga, livrando-a daquele monstro.

— Por favor! Deixe a Mary em paz! É a mim que o senhor quer! Disse ele em prantos.

Eis que Mary faz um movimento de desespero, consegue livrar-se da mão do senhor Joaquim e tenta correr. Assim que abraça Alan, recebe uma punhalada nas costas, e os dois caem no chão frio da cozinha. Ele grita aterrorizado, enquanto vê o velho carroceiro aproximando-se ainda mais deles. Então, Alan deixou-a, já sem vida, estendida pelo chão e se arrastou para trás até dar com a parede. No canto da parede com o fogão caipira, ele viu um objeto e o pegou para atirar no assassino de Mary. Ao ver o que era, aumentou o tom do choro e do desespero: a sandália de Sarah, coberta de barro e sangue seco.

O velho senhor, então, pegou Alan pela gola da camisa e o arrastou para a dispensa. O deixou em um canto, arrastou um caixote de madeira que ocultava uma porta no assoalho de tábuas e sinalizou com os olhos para que Alan a abrisse. Ele fez que não com a cabeça e disse vários nãos sem voz, apenas com o movimento dos lábios, enquanto esfregava as unhas nas tábuas do chão. O velho mostrou-lhe o punhal sujo com o sangue de Mary. Ele, sem muitas opções, se arrastou e abriu a porta do alçapão. Olhou para dentro e sentiu um cheiro pavoroso. Vomitou dentro do buraco e sentiu um chute alvejar suas costelas. Ele caiu dentro do buraco e uma dor horrível atacou-lhe os joelhos. A porta se fechou e ele ouviu as passadas do velho saindo. Mas logo pareceu voltar devagar, com pequenas pausas, como se estivesse arrastando algo. A porta se abriu, ele olhou para a luz fraca e viu o velho atirar o corpo de Mary sobre ele. Ela caiu sobre suas pernas. Seu corpo já não tinha a temperatura dos vivos. Chorou copiosamente abraçado ao corpo frio de sua amiga.

Alan apoiou-se sobre o corpo de Mary. O breu do alçapão não permitia que seus olhos tivessem outra função senão chorar. Apalpou o corpo de sua amiga e deparou-se com o seu rosto. Ajoelhou-se e pediu perdão várias vezes. Enquanto se culpava por tudo que havia acontecido, sentiu pontadas em seus joelhos. As dores eram agudas e iam aumentando, até que uma última onda de dores fez com que suas pernas não se movessem mais.

— Não… não… não! Eu não quero mais continuar com isso. Pra mim chega!

Lembrou-se do rosto de Sarah, Verônica, Mary e Matilde. Fez força para esquecê-los. Rostos tão diferentes, mas com um único sorriso. Quando conseguia esquecer as feições de um, logo vinha um outro e voltava a se lembrar de todos novamente. As linhas de cada rosto se desenhavam e formavam um só: com o formato de um triangulo invertido, de testa mais larga e queixo estreito, afinado. Covinhas aos pés das bochechas rosadas como duas maças, sobrancelhas imponentes sobre grandes olhos castanhos, uma boca volumosa, de sorriso largo, mas com contornos delicados. Tudo envolto por cabelos loiros, longos e com tímidas ondulações laterais.

Apaixonado pelo rosto que agora povoava sua mente, sentiu seu coração mais leve. Parou de chorar, apoiou a testa no chão de terra batida, apertou os olhos com toda a força e repetiu algumas vezes:

— Eu não quero mais esse pesadelo, não quero mais continuar com isso. Pra mim chega! Não quero mais!

De repente, enquanto se concentrava na tarefa de esquecer tudo, ouviu alguém pronunciar seu nome com uma voz fraca, mas conhecida. Logo, sentiu alguém tocar seu ombro.

— Alan! Alan…!


Capítulo X

As mil faces de Anna Carolina.

Alan abriu os olhos devagar: a luz do sol que entrou pelas grandes janelas da biblioteca de Hidrolândia embaçou sua visão e isso fez com que ele esfregasse os olhos com força até sentir uma leve tontura. A reflexão pós-leitura havia transcendido o enredo de Dom Casmurro, invadido outras obras e, principalmente, sua própria vida.

Aos poucos sua visão voltou ao normal. Ao seu lado, de pé, e ainda com a mão em seu ombro estava Anna Carolina, a funcionária da biblioteca, com um vestido azul colado ao seu belo corpo e um par de brincos de penas esverdeadas. Olhou-a nos olhos e sorriu timidamente ao ver refletido neles o olhar oblíquo e dissimulado de Sarah; o amigo, mas passional de Mary; o complicado de Verônica; e o medroso, porém sensual de Matilde.

— A gente tem que fechar pro almoço, você quer que eu te ajude a descer a rampa! Disse Anna Carolina, sempre prestativa.

Ele olhou para sua cadeira de rodas, suas pernas imóveis e sentiu saudades das aventuras vividas durante o tempo em que se imaginou correndo, nadando e até sentindo dores nos joelhos que nunca lhe foram úteis: “Logo volto a ler e terei a vida que eu quiser, mas agora tenho fome”. Pensou ele, e logo agradeceu a ajuda de Anna Carolina.

Pegou o livro, pôs sobre o colo, deslizou as mãos pelas rodas de sua cadeira e a posicionou. Anna Carolina veio e o ajudou a deixar as dependências da biblioteca. Então, ela pediu para ele esperar um pouco e trancou a porta.

— Por que uma biblioteca precisa ser trancada? Perguntou Alan com curiosidade e ironia.

— Ué! Se não tranco, entram aqui e levam todos os livros!

— Você tem razão! Mas… por outro lado, se alguém os leva, pode ser que sejam lidos…

— Alan, Alan! Você… sempre tão sarcástico, não é?

E os dois riram como crianças. Ela segurou firme na cadeira de rodas e com alguma dificuldade conseguiu ajudá-lo a descer um pequeno degrau antes de chegar à rampa de acesso. Enquanto isso, Alan imaginava o que devia ter na cabeça de um arquiteto que constrói degraus no fim de uma rampa.

— Obrigado, Carol! Agora é comigo!

Anna Carolina caminhou ao lado dele alguns metros. Ele percebeu que ela queria algo: tinha as mãos inquietas e o olhava com frequência. Parecia que queria chamar-lhe a atenção, mas não sabia bem como.

— Você quer me perguntar algo, Carol?

— Quem… eu? Eu… não… É… quer dizer, eu…

— Pode perguntar, vai!

Ela sorriu, presenteando-lhe com suas covinhas rosadas.

— Sabe o que é?! Quando você estava cabisbaixo e de olhos fechados, não pude deixar de ouvir, quando você… por várias vezes… é… disse: Sarah, Capitu, Mary, Verônica e tantos outros nomes, aos quais não consigo me lembrar de todos agora. Em que você estava pensando?

— Creio que no amor!

— Amor? Mas agora que você falou em amor, lembrei-me que você também disse o nome de um tal Joaquim. Onde é que ele entra na história?

— Bem, todo amor precisa de um antagonista!

Alan divertia-se com as perguntas e respostas, mas logo fez cara de preocupado: “Meu Deus, o que será que ela ouviu? Preciso tomar cuidado com as minhas viagens”. Ele a olhou meio de lado e temeu pela próxima pergunta.

— Agora boiei! Não entendi por que você precisa de um antagonista, quando pensa no amor. Muito menos por que pensa em tantos nomes. Você tem uma lista de amantes: é isso, seu louquinho?

Alan sentiu-se encantado, quando ela o chamou de louquinho: às vezes dizia coisas estranhas só para ser taxado de louco por ela. Anna Carolina esperava a resposta de olhos baixos, com a cabeça levemente inclinada para trás e devolvendo-lhe o olhar meio de lado.

— Não, não, não é isso! Vou te explicar o que aconteceu. Você tem dois minutos?

Ela abriu um sorriso maravilhoso e em seus olhos uma luz de ansiedade brilhou. Ele pediu para que ela se sentasse em um banco junto à mesa de concreto, à sombra das árvores, no centro da Praça do Cruzeiro. Ele manobrou sua cadeira de rodas de modo que os dois ficassem frente a frente. Ela o encarou, enrolou uma mecha do cabelo no dedo indicador da mão direita, levou a mexa enrolada até tocar em seus lábios e, logo em seguida, a pôs sobre a orelha.

— Olha! Normalmente — disse Alan e fez uma pequena pausa —, quando termino de ler um livro, gosto de fechar os olhos e repassar mentalmente o enredo, as personagens, a ação, o tempo, o espaço, o clímax, o foco narrativo, o desenlace… É uma técnica que uso para costurar toda a história para depois vivê-la.

— Vivê-la, como assim?

— Olha! Nunca comentei isso com ninguém, mas…

— Eu sei, eu sou especial pra você!

— Como pode saber? Eu nunca te falei isso!

— Diretamente nunca falou mesmo, mas quando você fica lá babando na mesa da biblioteca com as suas reflexões pós-leitura, você sempre diz meu nome: é Anna Carolina pra lá, Anna Carolina pra cá… Nunca comentei nada, porque você também diz o nome de várias outras meninas. Daí…

— Meu Deus, que vergonha! Eu sou um monstro mesmo! Quer dizer que eu falo enquanto estou pensando? Como eu nunca percebi isso?

— Normalmente, você sonha mais do que pensa! Noto que você está cochilando, quando, na mesa, tem resquícios de baba.

— Gente do céu! Além de monstro, eu sou um porco! Nunca mais volto a pisar na biblioteca.

— Tá louco?! Se você não voltar mais, eu peço demissão!

Depois de ouvi-la, o tom avermelhado de vergonha do rosto de Alan passou a ter o tom avermelhado da paixão: principalmente pela reação de Anna Carolina, ao perceber que tinha deixado escapar o quanto ele era especial para ela também. O silêncio deixou os dois atônitos: olharam para o lado, cada um buscava algo que pudesse quebrar o gelo. Alan olhou para baixo e viu o livro Dom casmurro em seu colo. Com o coração acelerado, decidiu contar suas experiências. Respirou fundo, fez uma pequena pausa e a olhou: “Olhos de cigana”. Pensou ele.

— Na verdade… é… não sei se você já percebeu, mas… eu sou cadeirante!

Ela riu alto, mas logo se desculpou. Ele riu também e pediu desculpas pela gracinha proferida.

— Eu disse o lance de cadeirante para justificar as minhas viagens na literatura, os meus sonhos. Você se lembra de Pasárgada, o poema de Manoel Bandeira? “Vou-me embora pra Pasárgada / Lá sou amigo do rei / Lá tenho a mulher que eu quero / Na cama que escolherei”. Pois é: cada livro que eu leio torna-se minha Pasárgada. Sabe, nunca tive uma namorada, talvez por isso eu prefira os romances românticos aos de fantasia ou ficção. Em muitos deles, a vida é como eu gostaria que fosse a minha. Gosto dos livros com aventuras amorosas, mas que tenha um antagonista forte, que não facilite o caminho, para que no final, o valor das conquistas esteja nas próprias conquistas: para que não seja preciso partir em busca de outras, senão conservar e reconquistar, a cada dia, o que um dia lutei pra conquistar.

Alan tomou ar e reparou que Carol tinha os olhos fixos nos seus. Continuou:

— Hoje, por exemplo, depois de reler Dom Casmurro, eu quis, a princípio, entrar na pele de Bentinho, pra tentar descobrir por que ele não consegue viver em paz com Capitu, já que ele lutou tanto para ficar com ela. Às vezes a personagem é tão forte, que a minha reflexão fica presa à vontade dela. Quando isso acontece, eu acabo me perdendo, deixando-me levar pelas vontades da personagem. Por outro lado, e é agora que entra você na história, quando quero apenas viver a parte feliz dos romances, você sempre me vem à mente. Você é a pessoa que me acompanha em minhas viagens: você é a Capitu, quando rabisca o muro com um prego: “Bento e Capitulina” ou Alan e Anna Carolina, já que a viagem é minha.

O coração de Anna Carolina batia acelerado. Seu rosto rosado refletia todos os sentimentos que as paixões provocam. Ela apoiou os cotovelos sobre a mesa e o queixo entre as mãos. Sua boca estava seca e inquieta. Ora mordia o lábio inferior, ora o superior. Concentrou-se em seus próprios olhos: não queria piscar, por medo de perder alguma manifestação de emoção no rosto de Alan.

— Que lindo! Mas… espera aí! No livro Dom Casmurro não tem nenhuma Sarah, nem Verônica… De onde você as tirou e, principalmente, quem são elas?

— Essa é a parte complicada, a que eu não controlo... Pois bem! Deixe-me ver se consigo explicar: quando terminei de ler o livro, quis fazer uma reflexão acerca do adultério de Capitu. Para isso, comecei no tempo em que eles, Bentinho e Capitu, ainda eram crianças. À medida que eles foram crescendo e descobrindo o amor que sentiam um pelo outro, algo no meu íntimo interior ia humanizando a personagem Capitu. Tudo nela era moldado, lapidado: o rosto, o cabelo, o corpo, o sorriso, ao ponto de eu olhar pra ela e ver você. Nesse momento, deixei as reflexões de lado e passei a fantasiar um romance com você. A gente até se diverte muito, mas durante minhas aventuras, pelo cansaço, pelos remédios que tomo para dor na coluna, acabo deixando-me levar pelo sono. Então, o que era só uma fantasia, passa a ser um sonho. Mas é o tipo de sonho que a gente tem quando está muito cansado, prestes a dormir, e imagens que a gente não controla começam a se mesclar com a realidade.

— Ainda não entendi o lance dos nomes de tantas meninas.

— Não são “tantas meninas”: todas elas são você!

— Todas elas são eu? Ainda tô boiando!

— É o seguinte: todas elas são personagens de livros que li e que logo, nas minhas fantasias, foram humanizadas. Elas tornaram-se você, pelo menos em alguns aspectos, claro! A Sarah Louise Kerrigan, a rainha das lâminas, por exemplo, é uma personagem da série de livros StarCraft. Ela é uma vilã: meio humana, meio inseto, mas apesar disso, ela é uma personagem muito sensual. Nisso vocês se parecem, com todo respeito. Além disso, normalmente, a Sarah é quem sempre me conquista e depois some, desaparece do nada. Outra personagem que sempre invade meus romances é a Verônica: ela representa o que você tem de complicado…

— Nossa! Você me acha complicada?

— Na vida real, não! As personagens que crio ou recrio inspiradas em você, de certo modo, servem para tornar você mais mundana e cheia de defeitos: é a forma que encontrei para enganar meu coração, para que ele aprenda a não gostar tanto de você.

— Você não quer gostar de mim?

— Não é isso! Olhe pra mim! Não vê meu estado? Tento enganar meu coração inventando coisas feias a seu respeito. Mas nunca se esqueça: estamos falando de meus romances imaginários.

— Romances imaginários! Você é bem mais louquinho do que eu pensava!

— Obrigado!

Anna Carolina abriu sua bolsa e retirou uma foto sua de quando tinha dez anos, na cama de um hospital onde se recuperava da retirada de um tumor, cujo tratamento lhe havia deixado sem seus longos cabelos. Ela entregou-lhe a foto e contou-lhe a história:

— Assim que completei dez anos de idade, fui diagnosticada com câncer. Eu não entendia bem o que era na época, porém, pela tristeza de todos lá em casa, percebi que era algo terrível. Começaram a mimar-me ainda mais. Faziam tudo para que eu me sentisse bem, mas minha própria família não sabia como lidar com a situação. Por vezes, pegava minha mãe chorando pelos cantos da casa. Meu pai, que eu pensava ser o homem mais forte do mundo, trancava-se no quarto por horas, já não acompanhava o futebol na TV e sempre que me via, apesar do sorriso meio forçado, tinha o olhar muito triste e distante. Eu queria dizer a eles que estava tudo bem comigo, mas não conseguia, talvez por falta de oportunidade, porque eles se fechavam cada dia mais. Com o tempo, fui me entristecendo também, não pela doença em si, mas por sentir-me culpada, por sentir-me causadora da tristeza deles.

Alan ajeitou seu corpo na cadeira, mas sem tirar os olhos de Carol que, depois de uma pequena pausa, olhou para os lado e continuou:

Logos após a cirurgia de retirada do tumor, o tratamento quimioterápico fez com que meus cabelos caíssem. Creio que foi o momento mais difícil pra mim, porque a partir dali, entendi a gravidade das coisas e passei a esperar pelo pior. Vivia triste, tentavam de tudo pra que eu voltasse a sorrir, mas nada adiantava. Fui piorando, até que um dia parei de falar.

Nesse momento, Anna Carolina tomou bastante ar. Ela sentia desconforto em contar a própria história. Limpou algumas lágrimas que caíram, olhou para Alan e prosseguiu:

Foram longos dois meses sem dizer uma palavra sequer. Eu simplesmente vegetava. Mas numa manhã, quando fui internada para fazer uma bateria de exames, estávamos minha mãe e eu no quarto. De repente, vi a porta se abrir e aparecer dois palhaços. Palhaços mesmo: não eram médicos ou voluntários que se vestiam de palhaços, eles eram profissionais, viviam daquilo. Pois bem, eles chegaram sorridentes e fazendo barulho. Cumprimentaram-me, dizendo: “Bom dia, dona Maria, como vai sua tia, a dona alegria, que dorme de dia, chupa melancia e faz pipi na cama”… Eu estava tão azeda da vida, que só consegui pensar: “não rimou”. Minha mãe, vendo que eu não reagia, disse baixinho para os palhaços: “agora não, obrigado!”. Os palhaços então se despediram de uma forma estranha, como se estivessem andando e falando em câmera lenta: Ennntãooo nóóósss jáááá vaaamooosss, Tchiiiiiiaaaaaaauuuuu…” As vozes dos dois em sincronia, aumentando e diminuindo o tom da fala, enquanto abriam e fechavam a porta, foi tão legal que eu soltei uma gargalhada e disse: “que palhaços!” Minha mãe caiu no choro, quando me viu sorrir e falar. Sem demora, ela abriu a porta do quarto, abraçou os dois palhaços e disse mil obrigados, enquanto chorava como uma louca. Mas era um choro de felicidade, sabe?! Tanto que os palhaços a abraçaram também e começaram a pular no corredor do hospital. Aquilo ficou parecendo mais um corredor de hospício. Desde então, vendo que minha mãe estava feliz por ver-me feliz, mudei de atitude e voltei a ser a menina sorridente e tagarela que sempre fui.

Alan apoiou as duas mãos nos braços da cadeira e ajeitou seu corpo: as dores na coluna aumentavam, e ele sentia que precisava tomar seus remédios com urgência. Por outro lado, sentiu o coração apertar e quase sair pela boca ao ouvir a história da Carol. Sem sucesso, tentou dissimular algumas lágrimas.

— Muito obrigado por compartilhar sua história comigo. Realmente é uma história linda de superação. Senti vergonha por às vezes agir como se eu fosse o único a ter problemas no mundo. Obrigado mesmo! Disse Alan aos soluços, logo voltou sua atenção para as coisas que havia dito em voz alta em sua reflexão pós-leitura.

— Por sorte, eu me lembro de quase tudo que sonhei. Por azar, não controlo meu balbuciar durante as ações nos meus sonhos reflexivos. Quero que você saiba, porém, que se eu tiver dito algo que você não gostou: desde já, peço perdão.

— Na verdade, eu ouvi algumas coisas que você disse que me deixaram curiosa: eram palavras sensuais, que não vou repetir agora, mas na minha interpretação, nas suas histórias, parece-me que você nunca tomou a iniciativa na conquista, que sempre foi conquistado, estou certa?

— Puxa vida! Achei que tinha dito só um par de palavras soltas, mas, no entanto, parece que fui até objeto de interpretação.

Anna Carolina se desculpou várias vezes. Não sabia como agir, depois de ter dado a entender que ela fora ouvinte de toda sua imaginação em voz alta.

— Carol, você não tem que se desculpar! Nós nos conhecemos há anos, mas sempre mantivemos um muro entre a gente, uma distância que nos impedia de trocarmos duas palavras com mais intimidade. Você sempre me tratou super bem, e quer saber? Acho que eu nunca disse o que sinto por você antes por medo de sua reação. Afinal, minha situação sempre foi um empecilho.

— Pois você é um idiota! Sabe quantos anos esperei que você me chamasse pra sair?

Alan desconcertou-se com a resposta de Anna Carolina. Seus olhos cheios d’água pediam consolo, mas suas mãos imóveis não puderam acudir as lágrimas de anos de espera que caiam, jorravam, enquanto seu peito apertado tentava, sem sucesso, maquiar os soluços que pareciam implodir em sua garganta. Anna Carolina, com os olhos vermelhos de choro e paixão, levantou-se, acercou-se a ele e sentou-se em seu colo. Com a mão direita tocou em seu queixo, levantou sua cabeça, até que seus olhos ficassem bem próximos, secou algumas lágrimas de seu rosto molhado e quente, olhou-o com a expressão séria, sentiu sua respiração ofegante, fechou os olhos e beijou-o.

Alan tinha os lábios trêmulos de emoção, não queria fechar os olhos por completo, tinha medo de que aquela cena fosse apenas mais uma de seus romances imaginários. Com carinho e cuidado, pôs as duas mãos sobre o rosto de Anna Carolina, que permanecia com os olhos fechados, afastou-o um pouco para contemplar a beleza da menina da biblioteca, fechou os olhos e beijou, sem entrelinhas, a personagem principal de sua vida real.


Fim




Eber Urzeda dos Santos

08/05/2020


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"Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência".

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