• Eber Urzeda Dos Santos

Contos de Urzeda: Não tema, Juliana.

Atualizado: Out 9




Contos de Urzeda: Não tema, Juliana

Não tema, Juliana

Ainda viva, entrei em meu quarto escuro a tatear os móveis para localizar minha cama. Não que irei morrer do nada ou tenha, de fato, morrido: esta não é uma carta póstuma, mas devo atentá-los, contudo, para a utopia da imortalidade. Se conto minha própria história, ela sempre será incompleta, visto que pontos finais em autobiografias só podem ser postos pelo ceifador dos destinos. Por sorte, se você está a ler é sinal que — ainda — sua potência de existir pulsa. Porém não posso dizer o mesmo de quem escreveu o objeto de sua leitura: existem muitas pessoas vivas que não se veem como tal. Digo obviedades, eu sei, mas eu não sabia…

Deitei-me a olhar para o teto. À parede, em frente aos pés de minha cama, um espelho bordeado à madeira trabalhada e coberto com uma manta de seda azul vigiava-me paciente. À direita, uma janela para o mar, imensa e meio aberta, a convidar, sem meias gentilezas, a névoa noturna a refugiar-se em meus cobertores de algodão. Eu olhei para os cristais da janela, que pareciam ampliar a densidade da névoa, e ouvi uma voz invadir meu quarto: “não tema, Juliana”.

A voz era vibrante, mas lenta como o movimento da névoa. Pensei ser só mais uma noite em que meu corpo parecia reagir de forma natural aos entreveros do estresse cotidiano: por isso a ausência de medo. Pensei em meus gatos e no mar. Se eu ainda vivia, mesmo com a potência de agir próxima a zero, era por respeito aos meus gatos e pelo amor às ondas que se quebravam próximas à orla. E quando a teimosia — em permanecer vagando solitária meio à gente de costumes normais — rompia a barreira entre o suportável e a loucura, lembrava-me da menina que sonhava com felinos à beira-mar. Porém não tardou muito e outra leva do nevoeiro tornou a invadir meu quarto: “não tema, Juliana”. Temi.

Cobri-me puxando o cobertor de forma rápida e instintiva. Apertei-o com as duas mãos contra a boca e o nariz, quase me sufoquei ao terceiro chamado: “não tema, juliana”. Desta vez, talvez pela concentração da espera, consegui interpretar de onde vinha aquela voz que permeava a névoa: quando o mar solicitava o retorno das ondas, inspirando para seus pulmões pelágicos as almas terrestres, ele dizia em bom tom: “não tema”. Logo, ao expirar, o mar pronunciava um vocativo, deixando claro às ondas a quem deveriam buscar, “Juliana”. E o terror da noite continuou sem cessar: ondas ao mar “não tema”, ondas à orla “Juliana”.

O pânico em mim foi o prenúncio de um temor maior: encarar o espelho aos pés de minha cama. Porém a necessidade de calar o mar e minha ansiedade, deu-me forças para enfrentá-lo. Levantei-me devagar e senti o frescor noturno da névoa que passeava em meu quarto. Deixei a janela de lado, fechei os olhos, pus-me de frente ao espelho e respirei fundo. Enquanto ao longe o mar parecia chamar-me para si, meu coração disparava sem controle ao sentir a proximidade da única coisa que ele realmente abominava: o monstro a habitar meu íntimo interior.

Quando voltei a abrir os olhos, prendi a respiração e retirei a manta de seda azul que cobria o espelho. Não houve gritos de terror, a paralisia que afetou todo meu corpo forçou-me, como numa brincadeira macabra, a olhar direto para a menina feia, horripilante, durante tanto tempo que — para meu assombro — a vi olhar de volta para mim. Ao fim da paralisia, da agonia, do estado mortífero e lamentável, gritei!

— Cale a boca, menina feia! Disse-me uma vozinha vinda do espelho em tom zombeteiro. — Você é patética, Juliana! O mar não te chama. Ele não quer te atrair para que gozem juntos o prazer e as delícias das profundezas marítimas. Pelo contrário, ele quer te ver boiando, porque você é lixo, porque você foi cuspida, comida e vomitada. Olhe só para você: coisinha insignificante a cuidar de gatos e a escrever poemas para o mar. Um nojo de gente é o que você é. Ninguém te ama, impossível. Você é uma magricela com pensamentos obesos, você tem mau cheiro, ao ponto de seus próprios gatos não te suportarem…

— Não tema, Juliana!

Respondeu ao longe o mar, mas privou-se de argumentos. A repetição talvez seja a técnica mais eficaz para o aprendizado. Continuei encarando o monstro do espelho, tendo a vozinha próxima a humilhar-me e o mar distante a encorajar-me.

***

Sou uma menina linda: é o que diziam. Mas eu não caí nessa, então ganhei o mundo. Praia, gatos, violão, sozinha. Fiz uma tatuagem minimalista, um exagero para quem mora com os pais. Cabelos e olhos rebeldes, além dos metais que perfuram meu corpo. Mas isso é coisa minha, gosto de sentir a energia dos raios, relâmpagos e trovões. Metal é foda. Porém há algo que não consegui deixar para trás: o espelho bordeado à madeira trabalhada. Herdei-o de uns fantasmas camaradas, aos quais conheci em minha infância na igreja: “se não contar a ninguém, pode levá-lo”. Desde aquele dia, não voltei a enxugar as lágrimas, elas rolam livres pelas maçãs do meu rosto e formam um poço às avessas em meu queixo. Dali, observam se é seguro e precipitam-se rumo ao abismo imaginário dos impuros, levando consigo as dores de uma vida toda.

Apesar de querer enterrar-me viva, o espelho é bom: ele aponta meu estado de putrefação existencial. Enquanto meninas falam de minha bunda e de meus seios, um tanto quanto pequenos para a idade, e meninos espalham histórias de meu beijo quente e de meu sexo frio, um tanto quanto confusos para a idade. O espelho chama-me tábua, puta! Agora lhes pergunto, quem vocês tendem a respeitar: o outro ou o reflexo?

Para mim, noites e manhãs são únicas, ansiedade e café se misturam. Não sou amante do trigo, cultivo minhas próprias cenouras, mas não controlo meus próprios afetos. O último que conheci, que ousava controlá-los, foi encontrado sem o apoio dos pés. Tive medo, mas aprendo com o mar e meus gatos. Quando tudo parece perdido, quando tudo que o espelho diz parece-me a única verdade possível, eis que faço uso de um truque simples, ensinado por minha avó para escapar do adeus prematuro: subo em um banquinho, apoio bem os pés, preparo um laço com uma metade da manta de seda azul e o prendo na parte de cima da moldura, com a outra metade, cubro todo mal que há em mim, ao cobrir o espelho.

Tento não pensar na vozinha irritante do meu reflexo, mas às vezes acho que ela tem razão: sou sim impulsiva, tenho pensamentos disfuncionais de impossível avaliação, não sei quando são falsos ou verdadeiros, sei que eles são negativistas: “amor é balela, o mundo é tristeza e a beleza é inútil”. Dizem, jogam limpo, por isso ganharam meu respeito, por isso habitam minha mente desde menina.

***

Ainda pensativa, sentei-me à mesa. Munida de lápis, papel e desejos, compus uma música dedicada à vida, tão simples como o decorrer dos meus dias. Enquanto escrevia, notei a liberdade das letras que iam surgindo, ritmadas ao ronronar de meus gatos e à melodia do mar: “não tema, Juliana”:

Tenho janelas com plantinhas frente ao mar,

Dois gatos encantados sob a lua a trilar

Não vejo mais o espelho, tive que escondê-lo

Pois vê-lo é o sonho a sonhar o pesadelo.

Não tema, Juliana. Diz-me o mar em doce tom

Esqueça as angústias, ouço dos gatos em ron-ron,

Quando estiveres triste, puro reflexo da vileza

Lembre-se de cobrir o mal com a seda da tristeza.

A tempestade e a calmaria vista em alto mar

Ensinou-me que no agito a verdade se revela

E a paz se faz presente no pós-soluço de chorar.

Então se o choro vier, ice sem temor suas velas

Pois navegar com destreza pela vida só é possível

Se cobrirmos os espelhos e abrirmos as janelas.

Depois de fazer a música e cantá-la para meus gatos durante a madrugada de lua imensa e mar iluminado, decidi cobrir para sempre o espelho aos pés de minha cama. Então percebi meu coração desacelerar aos poucos: senti os braços pesados e, inclusive, sono. A sensação de formigamento nas pernas e costas ia desaparecendo à medida em que o ar se tornava novamente abundante. Abri meu guarda-roupas sem demora e apanhei um velho vestido de casamento, o qual fora usado por várias gerações de mulheres fortes e corajosas, e corri em direção ao mar.

A praia estava deserta e as águas calmas. Contemplei a imensidão do mar vestida de noiva, com a cabeça levemente inclinada para o alto, as mãos abertas e os braços estendidos a reverenciar as entidades do Atlântico. Logo, deitei-me sobre a areia fria e senti a insegurança das noivas virgens a caminhar pelo corredor do matrimônio religioso. Mas não me entreguei sem lutar: não deixei que os desdobramentos do pensar pudessem desmembrar o que penso ser do que realmente sou. Tentei não pensar em nada, mesmo sabendo da impossibilidade da mente vazia, e deixei que as águas das ondas elevassem meu corpo e espírito. Fechei os olhos e me entreguei às forças oceânicas.

Algumas horas depois do matrimônio, voltei a casa e presenciei algo que não via desde menina: minha cama estava estática, ela não rodopiava pelo quarto e nem me julgava torpe. Senti minha cabeça leve e os pés quentes. Felizmente, a insônia partira, levando consigo, de mãos dadas, a vozinha do espelho que perdera para sempre seu reflexo. Escancarei a janela do meu quarto e senti toda a brisa marítima correr por minhas roupas e arrepiar-me a pele. Deitei-me, fechei os olhos com leveza e cuidado, e ao longe, ouvi vindo, a passear pelas correntes de ar salgadas e aromáticas, uma voz fraquinha, quase imperceptível, cheia de ternura, a despedir-se de mim: “durma bem, Juliana”.


Eber Urzeda dos Santos

06/10/2020

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"Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência".



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© 2020 por Eber Urzeda dos Santos

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