• Eber Urzeda Dos Santos

Trevas do Eu: Homem cortês, mulher triste





Sobre o tempo

— Oi, moça!

Depois de um breve diálogo sobre o tempo, meu querido amigo interceptou a moça mais bonita da cidade. Ela nem sequer usou o precioso segundo que temos (quando indagados de súbito na rua, por um estranho qualquer, em busca de informações quaisquer) para tentar escapar. Spray de pimenta, canivete suíço... não, ela parou e pronto: um cara bonito, não carregava nada suspeito nas mãos e a camiseta combinava com o tênis. Neste momento, duas erupções, duas covinhas surgiram no rosto da menina. Em tempo, já comprei alianças por muito menos.

— Bom dia! — continuou a investida.

Realmente foi um dia bonito: manhã de junho e de sol em Goiânia. Clima ameno, bem diferente da Sibéria hidrolandense a obrigar seus filhos a migrarem para o norte à época das festas de Santo Antônio, mantendo-os distantes, pelo menos até que floresçam as jabuticabeiras. Os interlocutores estavam estrategicamente iluminados pelos raios de sol que atravessavam as copas das árvores. Eu fiquei à sombra: no escurinho da cena, observando como fazem os narradores em terceira pessoa, os que normalmente seguram a vela.

— Tudo bem? — prosseguiu ele com o charme das etiquetas.

A moça estava encantada, ela se julgou a princesa dos contos de fadas que finalmente seria beijada. Mas... parem os relógios, ela fez carinha de princesa versão Disney. Por conhecer meu amigo de longas datas, seria melhor usar a versão Grimm. Ele, leitor assíduo da literatura fina, mas incapaz de ler emoções humanas, não percebeu todos os sinais, explícitos e implícitos, facilitados pela garota, de que ela esperava ser beijada. Talvez aquele biquinho, aquelas bochechas avermelhadas e aqueles olhos fechados, equilibrando-se nas pontas dos pés, quisessem dizer outra coisa lá para as bandas do setor Norte-Ferroviário. Mas a questão era: estávamos no setor Central. Ele sempre achou o pessoal do centro meio estranho: "melhor não arriscar", deve ter pensado. Talvez, para ele, aqueles gestos imprecisos, quase abobados, poderiam significar apenas que a sua interlocutora estivesse atenta ao diálogo ou com alguma crise emocional: normal nas mocinhas do centro, ou coisa assim... vai saber!

— Perdoe os meus modos austeros, mas... — Ele fez uma pequena pausa: pausa a Tchekhov, aprendida durante as noites intelectuais com o saudoso Abujamra. Logo, continuou — posso fazer-lhe uma pergunta? — Sim, meus amigos, ele fala deste modo: com pequenas pausas para dar tempo de analisar a colocação pronominal. Como ele é meu amigo, já o adverti várias vezes sobre o uso das próclises e das mesóclises com o pessoal do futebol, pois nós, que jogamos bola, só conhecemos a sintaxe da linguagem dos peixes: glub, glub, glub!

A menina não disse nada. Mas precisava dizer? Ela apenas sorriu e lubrificou os lábios. "Agora vai!", pensei eu, pensou ela, pensaria quem nem pensa. De repente, vi os calcanhares da mocinha flutuando, aproximando-se daquele rapaz alto, mas um pouco curvado. Estávamos em pleno passeio público, mas, caros amigos, alguém tinha que ver para documentar: fiquei firme, barriga pra dentro, peito pra fora e bloquinho de anotações a postos.

Silêncio nas calçadas: o ambulante cortava um abacaxi, enquanto fazia malabarismos com a faca; o taxista fumava seu cigarro e atirava as bitucas no chão (porco imundo); pardais negociavam com pombas o direito comum aos restos de pães nas calçadas. Veio uma criança correndo e, meio sem querer, presenciou a cena. Talvez tenha pensado algo sobre dois jovens adultos: um em posição de sentido e o outro de deixar-se sentir. Já ia me esquecendo: havia flores, muitas, lindas, irritando minha rinite.

Agora chega! Vamos ao ponto: creio que estou me contaminando de paciência. Eu, hein?! Falei do tempo, falei de que tudo que muda, muda na direção de seu desaparecimento. Falei do meu amigo, da moça apaixonada, da temperatura, do cenário, do latifúndio dos pássaros, do cheiro de abacaxi com flores (pausa para um espirro), da criança, que deveria estar na escola, e do taxista dando mau exemplo. Agora vamos à cena — agora? — sim, agora!

Pois bem, o rapaz (vamos chamá-lo de Nando, só para ter uma referência nominal) inclinou-se em direção à moça, com a perpendicularidade de querer dizer-lhe algo ao pé do ouvido. E vocês aí pensando que ele iria beijá-la direto, não é? Não, meus caros, estamos falando do Nando, o Cocão do Ferró, apelido carinhoso dos amigos. Primeiro virá um par de palavras para eternizar o momento. Algum soneto, algum verso alexandrino, um poema em linha reta a denunciar a sua própria vileza... Calma aí, gente, deixa o cara esquentar os motores!

— Por favor...! — Agora vai, pensei e aprumei as ideias e o caderninho.

— A senhorita poderia, por gentileza, dizer-me o que é o tempo?

O quê? O ambulante se cortou, caiu o abacaxi. O quê? O taxista cuspiu o cigarro fora e o pisou. O quê? Os pardais e os pombos... continuaram comendo. O quê? A criança... continuou correndo. A mocinha ainda fez menção de olhar no relógio, mas franziu a testa, cerrou os dentes e suspirou desapaixonada e desiludida dos homens e da vida. Apesar de levar as vestes do Colégio Santo Agostinho, ela cedeu às pulsões do corpo: tarde demais, pensou e seguiu o caminho da velhitude.

É, amigo leitor, a princesa continuou adormecida: ela esperava o príncipe num cavalo branco, mas só lhe apareceu o cavalo, perguntando-lhe sobre reflexões ainda não imaginadas por ela ou por quem quer que considere o tempo um fator de insegurança e de angústia. Olhei para ela e demonstrei compaixão: custava-lhe ler os contos dos Irmãos Grimm? — pensei, enquanto via sua existência deperecer como um processo de existir.

Fiquei a observar o meu amigo meio ao passeio público, ele estava deslocado. Com pesar, dei-lhe a notícia da volta ao ponto zero. Mostrei-lhe, então, o bloquinho com as anotações sobre o "só sei que nada sei", versão agostiniana sobre o tempo: 'O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei...' (Santo Agostinho, 1987, p.218).

Queríamos saber o que é o tempo ou, pelo menos, se já era tarde demais para saber. Paramos em um quiosque, pedi água, ele, as horas. Inquieto, Nando olhou para o horizonte, sobre os carros, entre os edifícios, a buscar os rastros da menina que caminhava rumo ao futuro e comentou:

— Moça bonita, né? Estranha, mas bonita!

E o tempo esvaiu-se (como tudo se esvai) depois do comentário a respeito do passado.

Fim!


Eber Urzeda dos Santos

Roßtal - Alemanha

12/01/2021

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ISBN: 9798481815527


Design da capa por: Eber Urzeda dos Santos


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