• Eber Urzeda Dos Santos

Homem cortês, mulher triste

Atualizado: Set 3



Contos de Urzeda, por Eber Urzeda dos Santos


Homem cortês, mulher triste


— Oi, moça!

Depois de um breve diálogo sobre o tempo, meu amigo interceptou a moça mais bonita da cidade. Ela nem sequer usou o precioso segundo que temos — quando indagados de súbito na rua, por um estranho qualquer, em busca de informações quaisquer — para tentar escapar. Spray de pimenta, canivete suíço. Não, ela parou e pronto: um cara bonito, não carregava nada suspeito nas mãos e a camiseta combinava com o tênis. Neste momento, duas erupções, duas covinhas surgiram no rosto da menina. Em tempo, já comprei alianças por muito menos.

— Bom dia!

Realmente era um dia bonito: manhã de junho e de sol em Goiânia. Clima ameno, bem diferente da Sibéria hidrolandense, a obrigar seus filhos a migrarem para o norte à época das festas de Santo Antônio, mantendo-os distantes, pelo menos até que floresçam as jabuticabeiras. Os interlocutores estavam estrategicamente iluminados pelos raios de sol que atravessavam as árvores. Eu fiquei à sombra: no escurinho da cena, observando como fazem os narradores em terceira pessoa, os que normalmente seguram a vela.

— Tudo bem?

A moça estava encantada, ela era a princesa dos contos de fadas que finalmente seria beijada. Mas, parem os relógios, ela fez carinha de princesa versão Disney. Por conhecer meu amigo de longas datas, seria melhor usar a versão Grimm. Ele, leitor assíduo da literatura fina, mas incapaz de ler emoções humanas, não percebeu todos os sinais, explícitos e implícitos, facilitados pela garota, de que ela esperava ser beijada. Talvez aquele biquinho, aquelas bochechas avermelhadas e aqueles olhos fechados, equilibrando-se nas pontas dos pés, quisessem dizer outra coisa lá no setor Norte-Ferroviário. Mas a questão era: estávamos no setor Central. Ele sempre achou o pessoal do centro meio estranho. Melhor não arriscar. Ele deve ter pensado que aqueles gestos imprecisos, quase abobados, poderiam significar apenas que a sua interlocutora estivesse atenta ao diálogo ou coisa assim… vai saber!

— Perdoe os meus modos austeros, mas posso… — Ele fez uma pequena pausa, mas continuou — fazer-lhe uma pergunta? Sim, meus amigos, ele fala deste modo: com pequenas pausas para dar tempo de analisar a colocação pronominal. Como ele é meu amigo, já o adverti várias vezes sobre o uso das mesóclises com o pessoal do futebol, pois nós, que jogamos bola, só conhecemos a sintaxe da linguagem dos peixes: glub, glub, glub!

A menina não disse nada — e precisava dizer? Ela apenas sorriu e lubrificou os lábios. Agora vai! Pensei eu, pensou ela, pensaria quem nem pensa. De repente, vi seus calcanhares flutuando, aproximando-se daquele rapaz alto, mas um pouco curvado. Estávamos em pleno passeio público, mas, caros leitores, alguém tinha que ver para contar: fiquei firme, barriga pra dentro, peito pra fora e bloquinho de anotações a postos.

Silêncio nas calçadas: o ambulante cortava o abacaxi, enquanto fazia malabarismos com a faca; o taxista fumava seu cigarro e atirava as bitucas no chão — porco imundo; pardais negociavam com pombas o direito comum aos restos de pães nas calçadas. Veio uma criança correndo e… meio sem querer, presenciou a cena. Talvez tenha pensado algo sobre dois jovens adultos: um em posição de sentido e o outro de deixar-se sentir. Já ia me esquecendo: havia flores, muitas, lindas, irritando minha rinite.

Agora chega! Queria contar tudo em duas laudas. Falei do tempo, falei de que tudo que muda, muda na direção de seu desaparecimento. Falei de meu amigo, da moça apaixonada, da temperatura, do cenário, do latifúndio dos pássaros, do cheiro de abacaxi com flores — pausa para um espirro —, da criança, que deveria estar na escola, e do taxista dando mau exemplo!

O rapaz — vamos chamá-lo de Nando, só pra ter uma referência nominal — inclinou-se em direção à moça, com a perpendicularidade de querer dizer-lhe algo ao pé do ouvido. E vocês aí pensando que ele iria beijá-la direto, não é? Não, meus caros, estamos falando do Nando, o Cocão do Ferró, apelido carinhoso dos amigos. Primeiro virá um par de palavras para eternizar o momento. Algum soneto, algum verso alexandrino, um poema em linha reta a denunciar sua própria vileza. Calma aí, gente, deixa o cara esquentar os motores!

— Por favor…!

Agora vai, pensei e aprumei as ideias e o caderninho.

— A senhorita poderia, por gentileza, dizer-me o que é o tempo?

O quê? O ambulante se cortou, caiu o abacaxi. O quê? O taxista cuspiu o cigarro fora e o pisou. O quê? Os pardais e os pombos… continuaram comendo. O quê? A criança… continuou correndo. A mocinha ainda fez menção de olhar no relógio, mas franziu a testa, cerrou os dentes e suspirou desapaixonada e desiludida dos homens e da vida. Apesar de levar as vestes do Colégio Santo Agostinho, ela cedeu às pulsões do corpo: tarde demais, pensou e seguiu o caminho da velhitude.

É, amigo leitor, a princesa continuou adormecida: ela esperava o príncipe num cavalo branco, mas só lhe apareceu o cavalo, perguntando-lhe sobre reflexões ainda não imaginadas por ela ou por quem quer que considere o tempo um fator de insegurança e de angústia. Olhei para ela e demonstrei compaixão: custava-lhe ler os contos dos Irmãos Grimm? Pensei, enquanto via sua existência deperecer como um processo de existir.

Observei meu amigo meio ao passeio público, ele estava deslocado. Com pesar, dei-lhe a notícia da volta ao ponto zero. Mostrei-lhe, então, o bloquinho com as anotações sobre o “só sei que nada sei”, versão agostiniana sobre o tempo: “O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei…” (Santo Agostinho, 1987, p.218).

Queríamos saber o que é o tempo ou, pelo menos, se já era tarde demais. Paramos em um quiosque, pedi água, ele, as horas. Inquieto, Nando olhou para o horizonte da rua, sobre os carros, entre os edifícios, a buscar os rastros da menina que caminhou rumo ao futuro e comentou:

— Moça bonita, né? Estranha, mas bonita!

E o tempo presente se acabou, depois do comentário a respeito do passado!

Eber Urzeda dos Santos

01/09/2020


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"Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência".


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© 2020 por Eber Urzeda dos Santos

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