• Eber Urzeda Dos Santos

O Horror de Hidrolândia

Atualizado: Set 1



O mistério do nevoeiro assombra os moradores de uma pequena cidade do interior goiano. Ninguém ousa escapar, porque não há para onde fugir.

Contos de Urzeda, por Eber Urzeda dos Santos



O Horror de Hidrolândia

Fui covarde em fugir da cidade, confesso. Porém, depois de ver a face do meu próprio medo em todos os meus esconderijos, resolvi não mais hesitar. Recorri, então, à coragem dos escritores para aprisionar as minhas inquietudes no papel, numa tentativa desesperada de me livrar das angústias das noites de névoas e dos sonhos intranquilos. Além disso, espero que o texto sirva de alerta aos meus queridos conterrâneos, a quem lhes suplico: vigiai as almas desavisadas que buscam a ilusória purificação dos seus corpos nas águas pouco confiáveis do Ribeirão das Grimpas.

Levemos em conta algumas peculiaridades da minha meninez: sem a qual o contexto poderia implicar confusas interpretações. Não sei se a história tem qualquer relação direta com os demônios da minha infância, tampouco com as noites de insônia em meus dez primeiros anos. Mas creio, porque ainda dói, que essa passagem infeliz seja fruto da violência doméstica, aplicada como intimidadora da arte ou pela arte do experimento infantil.

Era minha última semana de aula na quarta série, eu estava prestes a me livrar daquele lugar estranho. A escola, com paredes brancas e azuis celeste, limpada a pano mergulhado em água de jasmim, sucumbia todos os dias, ao toque do último sinal, à sombra e à sujeira de um misterioso e denso nevoeiro. Enquanto isso, alunos e professores se lançavam numa correria desvairada para abandonar suas dependências.

Não falo sobre vapor aquoso como o das neblinas ou de um leve e úmido estorvo à visão. O nevoeiro do Grupo de cima — como era chamada a escola primária — era impregnado de partículas de argila preta, a mesma encontrada às margens do riacho que banha a cidade. Ao surgir, envolvia tudo e todos em um abraço de breu noturno. Os telhados vermelhos, as paredes claras e o pátio de cimento queimado, ora verde ora amarelo, recebiam a cor escura dos brejos hidrolandenses.

Fora dos muros da escola, tudo condizia à normalidade dos tempos estranhos: os raios de sol acompanhavam os passos lentos dos passageiros recém-chegados da capital. Os trabalhadores da pequena e sombria cidade desciam do ônibus cabisbaixos e receosos. Ninguém se atrevia a lançar um mísero olhar sequer para os portões da escola. Os pais dos alunos se olhavam de lado e assustados, a dissimular a fé e a compartilhar o mesmo pensamento: “espero que meu filho tenha sido rápido o bastante”.

O fenômeno do nevoeiro e as lendas misteriosas sobre o ribeirão despertavam o interesse de vários meios de comunicação de Goiânia. Porém nenhum jornalista jamais conseguiu alguma informação, nem dos profissionais que trabalhavam na escola, nem da população da cidade. Sem fatos concretos, o que se sabe sobre os mistérios de Hidrolândia são apenas lendas distorcidas, contadas aqui e acolá pelos bêbados e loucos da cidade.

Não levantarei hipóteses sobre a origem do nevoeiro nem sobre o sentimento de culpa dos pais dos alunos. Tampouco falarei do negativismo do povo. Para os cidadãos da localidade, não havia lendas ou nevoeiros: “Afinal de contas — diziam eles —, essa gente da capital deve estar de olho é na argila preta”.

Como cresci ouvindo histórias de pessoas transformadas em argila pelas propriedades mágicas da água do riacho, citarei mais adiante — não por descuido narrativo, senão por fidelidade aos fatos — algo sobre os moradores desaparecidos na região do Poço Velho. Inteirei-me do acontecido ouvindo relatos soltos, murmúrios inconscientes de meu velho avô que, vez ou outra, proferia narrativas de terror enquanto dormia em sua cadeira de balanço: depois de almoçar, mascar seu fumo de rolo e cuspi-lo na parede.

Poucos minutos antes de tocar o sinal da última aula, todos os alunos já haviam guardado os seus materiais. Como de praxe, estávamos a postos. A professora estava sentada de modo incômodo: tinha um pé com a planta apoiada no chão, e o outro apenas a ponta, com os dedos espalhados a saírem da sandália, a buscar a melhor posição possível para um levantar firme e rápido. Os alunos se angustiavam em silêncio e não se atreviam a olhar através das grandes janelas laterais. Nada se ouvia, nem o voar das moscas, as quais desapareciam de forma misteriosa ainda no meio da tarde.

Entre os alunos, havia uma menina que se mostrava indiferente a tudo. Meus amigos e eu tínhamos uma convenção: ela era a menina mais bela da cidade. Embora fosse uma beleza nociva, algo em seus olhos, castanhos e distantes, cativava-me. Não tenho na memória o rosto das outras garotas, talvez seus atributos mornos não clamassem por atenção, o que fez, certamente, com que Deus as vomitasse. Pensei: lembrando-me de um sermão do Padre.

Maria — o seu nome era outro, mas não quero aqui invocar o verdadeiro em respeito às alturas ou às profundezas — tomou algumas moedas das mãos de um menino apaixonado, deixou-o choramingando no corredor, veio em minha direção e pegou-me pela mão:

— Venha comigo e não faça perguntas! Disse a mocinha mandona.

Depois de quatro anos estudando na mesma sala, sem trocar uma palavra sequer com ela, achei tudo aquilo muito estranho. Porém, obediente à beleza, acompanhei-a. Mas não antes de contemplar a triste cena do garoto traído, imóvel, reclinado sobre a porta fechada da sala dos professores, observado entre gargalhadas de alunos que desconheciam, ou pareciam desconhecer, as armadilhas do amor. De certa forma, os alunos daquela época sombria, diferentes dos de hoje, preferiam desfrutar da leveza do humor negro a sentir o peso da compaixão.

Corremos em direção ao portão e saltamos para fora. Caímos sobre o canteiro de flores que dividia a avenida ao meio. Preocupado com o aluno que ficara no corredor, olhei apreensivo para a entrada da escola. Os últimos estudantes saíram desesperados, enquanto o nevoeiro, formado Deus sabe onde, fazia com que a escola, apesar da tarde ensolarada, mergulhasse na escuridão da noite artificial.

Alguns minutos depois, Maria e eu tirávamos os espinhos e os carrapichos da roupa, foi então que ouvimos um grito de horror vindo do interior da escola. O contraste da tarde ensolarada da cidade, com o breu noturno do interior da escola fez com que víssemos um menino albino saindo de dentro desta. “Deve ser só uma confusão visual”. Pensei e esfreguei os olhos com força. Ao abri-los, o garoto albino continuava lá. Suas feições lembraram-me o aluno apaixonado do corredor, mas sua pele, antes morena, seus cabelos e até seus olhos haviam perdido toda a pigmentação. Ele caminhou alguns metros e encarou Maria.

Notei que a sua respiração e os seus músculos faciais passavam a impressão de que ele era a própria imagem da ira. Maria o olhou com naturalidade e com um leve sorriso cínico. Neste momento, voltei a esfregar os olhos. O que eu vi jamais fora contado em histórias de terror: ele olhou para o sol e elevou os braços ao céu. Então, sua pele e seus olhos exalaram uma fumaça escura que, aos poucos, tornou-se nimbosa como as nuvens negras a anunciar tempestades. Quando todo o seu corpo se transformou em uma espécie de pó, opaco como argila ressecada, veio uma leva de névoa escura, porém brilhante, em movimentos circulares como um redemoinho, e envolveu todas as partículas do menino albino, levando-o de volta para o interior sombrio da escola. Maria puxou-me pelo braço, e corremos sem olhar para trás.

Descemos a Avenida Antônio Mendonça em direção ao Ribeirão das Grimpas. No caminho, paramos em uma mercearia à esquerda. Fiquei fora, enquanto Maria entrou para gastar as moedas. Depois de alguns minutos, ela saiu portando uma sacolinha, não me importou o conteúdo, tudo parecia estranho demais naquele dia, eu mal sabia por que a acompanhava. Maria agarrou-se em minha cintura, e continuamos.

Ela caminhava como se fosse um dia corriqueiro qualquer. Eu, aterrorizado, tentava organizar meus pensamentos para entender o que havia acontecido na escola. Respirei fundo, observei que ela me segurava com mais força que carinho. Então a perguntei:

— Maria, o que aconteceu com o…? Ela me interrompeu com um pequeno empurrão e um beliscão, quase carinhoso, no braço.

— Fique calmo e calado, você já saberá de tudo!

Chegamos à Alameda das Grimpas e viramos à esquerda, onde havia uma bica d’água e um poço abastecido pelo ribeirão. A noite aproximava-se com seus ventos tranquilos e gelados. Ao chegar à beira da bica, ouvi coaxos e gorjeios vindos do poço e da margem contrária ao ribeirão. Senti respingos de água fria molharem minhas pernas. Olhei para baixo e acompanhei a queda d’água que batia com força no chão, para logo correr ladeira abaixo em direção ao Poço Velho. Neste momento, Maria aproximou-se e beijou-me o rosto.

— Venha, vamos terminar o que começamos!

Não entendi ao certo o que realmente havíamos começado. Eu me sentia confuso como em uma espécie de transe, mas a segui. Descemos a encosta e paramos à beira do poço. O Poço Velho era um lago como desses de filme de suspense. Ele tinha uma enorme pedra à esquerda a ocultar o túnel construído como alicerce para a ponte da BR-153. As águas, normalmente calmas do Ribeirão das Grimpas, formavam uma corredeira perigosa para os banhistas que se aventuravam a passar pelo túnel.

Segundo contam, alguns aventureiros desapareceram na tentativa de cruzar o túnel do Poço Velho. Aqueles que conseguiam chegar ao outro lado eram acometidos por uma doença rara: depois de sentirem seus corpos queimarem feito carvão em brasa, eles viam suas peles ressecarem, tornarem-se ásperas e receberem um tom cinza escuro. Perdiam a razão pouco tempo depois e passavam a viver nas calçadas da escola. Eram conhecidos como os Cadáveres de Argila. Neste momento, veio-me à mente os velhos que berravam ferozes durante toda a noite no asilo do outro lado da cidade, em resposta aos gritos de lamento dos Cadáveres de Argila. Balancei a cabeça na tentativa de me livrar dos pensamentos ruins. Então, Maria fez um barulho ao desembrulhar algo que estava dentro da sacola e isto me trouxe de volta à margem do poço.

Maria havia comprado um pedaço de carne seca. Ela pegou a carne, partiu-a em pequenos pedaços e os atirou pouco a pouco no poço. Da água surgiram algumas borbulhas, que iam aumentando a cada novo pedaço de carne lançado por ela, até que todo poço começou a fervilhar. Maria, então, agarrou-me com força e arrastou-me para a água. Caí entre as borbulhas e afundei em seguida. Não conseguia mover os braços para voltar à superfície. Ela me segurava e fazia movimentos bruscos. O empenho demonstrado por ela em me levar à parte mais funda pareceu-me algo monstruoso.

Depois de lutar bastante, consegui soltar os meus braços e a empurrei para baixo com a ajuda dos pés. Cheguei à superfície e tomei ar, enquanto via o fervilhar da água aumentar e provocar pequenas ondas, nadei rápido e consegui segurar em uma pedra que ficava quase no meio do poço. Subi um pouco e comecei a vomitar toda a água que havia tragado. Ainda tentando me recuperar, senti uma mão fria agarrar minha perna. O grito que dei, acreditem, ainda é comentado nos dias de hoje: “Foi um grito de terror que despertou o latido de todos os cães da região”… diziam e dizem os bêbados e os loucos da cidade. Depois do grito, chutei a mão que me agarrara, só então me virei e vi o rosto ensanguentado de Maria.

— Me solta, me solta! Você está louca, tá querendo me matar?!

— Você já está morto, não se lembra? Sua alma ficou no corredor da escola. Você me pagou para dar fim à sua vida triste, seu corpo agora pertence às criaturas do Poço Velho. Disse Maria, antes de me agarrar pelas pernas.

Atônito, reconheci pela primeira vez o rosto do menino apaixonado no corredor da escola: era eu, ou pelo menos, uma parte de mim que eu recusava a aceitar. Senti ânsias de vômito, meu coração se apertou como se fora implodir. Revi a cena em que minha alma se despedia com ira e desaparecia no nevoeiro da escola. Olhei para Maria e vi seu rosto, de traços angelicais, mas ensanguentados, perder aos poucos as suas feições de ódio para ganhar rasgos de arrependimento, culpa e compaixão. Neste instante, dos seus olhos rolaram algumas lágrimas que, mescladas ao sangue, correram por seu rosto até caírem na água.

A água voltou a se agitar com as lágrimas de sangue dela. Então, Maria olhou para baixo, soltou minhas pernas e disse:

— Fuja rápido! Salve-se, recupere a sua alma!

Ela abriu os braços e deixou-se cair de costas nas águas borbulhantes pela última vez. Enquanto afundava, ela acenou e sorriu. O poço continuou a ferver por alguns minutos, logo voltou a ficar calmo, e os sons de insetos e de animais noturnos voltaram a dominar o local.

Esperei algum tempo e saltei da pedra. Caí na água e nadei a braçadas desesperadas rumo à margem do poço. Corri em direção à escola, encontrei os portões trancados e os Cadáveres de Argila rastejando-se nas calçadas. Pulei o muro e caminhei pelo nevoeiro com alguma dificuldade. Enquanto caminhava, notei que as minhas roupas, ainda molhadas, ganhavam uma textura lodosa e a tonalidade do nevoeiro. Depois de me despir e atirar as roupas contra o breu, encontrei minha alma albina estirada nos corredores, próxima à sala dos professores. Ajoelhei-me e pedi perdão a mim mesmo, arrependido de querer abreviar minha existência, na tentativa de pôr um fim a uma dor insuportável.

Maria nunca fora encontrada. Os Cadáveres de Argila, desde então, tomaram a cidade. Entre idas e vindas de clínicas psiquiátricas, havia completado dezesseis anos. Foi quando decidi deixar a minha terra natal para nunca mais voltar. Vivi por muitos anos percorrendo diversas localidades pelo país, logo fiz o mesmo por outros continentes. Fugi da cidade, do poço e do nevoeiro, com a esperança de não ver minha vida acabar entre as lembranças da escola e os monstros desconhecidos. Porém, o terror de Hidrolândia não é nada comparado ao horror de viver o tempo todo com meu maior inimigo: eu!

Eber Urzeda dos Santos

25/07/2019

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"Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência".

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