• Eber Urzeda Dos Santos

Eu, carroceiro ou da filosofia

Atualizado: Mai 30




Eu, carroceiro

ou da Filosofia


Tudo aconteceu antes do primeiro beijo. Não que o primeiro beijo tenha de fato acontecido. O caso é que o nosso herói de hoje e a nossa heroína de sempre foram, realmente, ao cinema: aqui não cabe interpretações variadas. Márcio era alto e forte, não obstante conhecia todos os sapatos de seus interlocutores (aqui cabe, sinta-se à vontade). Fran era uma menina mediana, não sabia nada sobre sapatos ou chapéus, contudo conhecia todos os tons das íris humanas: olho por olho, dente… não, não; seus dentes eram usados apenas para mastigar e sorrir.

O filme acabou. Ele espreguiçou-se, mas sem intenção de levar o braço ao encontro do pescoço dela. Ela juntou algumas pipocas voadoras e as pôs de volta no saquinho de papel. Márcio ficou admirado, logo fez o mesmo. “Cinema bom é cinema limpo”, pensou Fran. Porém o filme foi o único objeto de reflexão dele.

— Você gostou do filme, Fran? Uau! Eu achei demais: o cara roubava dos ricos e dava aos pobres. Seria muito bom se todos os ladrões tivessem o coração de Robin Hood, não é verdade?

— Não, não é verdade! — reprovou ela.

— Como assim, você não gostou do filme?

— Claro que gostei! Ele tá cheio de maus exemplos: e eu aprendo mais com os maus que com os bons.

— Mau exemplo, por quê? Ele ajudava os pobres!

— Mas por meio do roubo. Roubar é um ato incorreto em si mesmo, seus fins não contam aqui. Roubar é errado.

— Mas os pobres estavam morrendo de fome. E acho que faria o mesmo.

— Seu hedonismo, Márcio, impede que você conceba uma vida sem dor. Mas você deve ter a consciência de que a busca do prazer, mesmo que seja visando à felicidade do todo, com o tempo, tende a tornar insuportável a convivência humana. O digo apoiando-me em um fato cotidiano: não há felicidade para todo mundo o tempo todo.

— Então quer dizer que eu sou um consequencialista? Que minhas atitudes visam aumentar o prazer e diminuir a dor. Que sou como, por exemplo, os animais?

— É isso aí!

— Então por que você aceitou sair comigo se somos tão diferentes?

— Simples! E nem preciso filosofar para explicar. Vai no popularzão mesmo, ou seja: dois bicudos não se beijam!

— Você é estranha! Linda, isso sim, mas estranha!

— Que lindo! Muito obrigada. Você é realmente muito galanteador!

Eles caminharam devagar rumo à parada de ônibus. Márcio estava pensativo, Fran irradiante, desfrutando daquele pequeno momento de felicidade rara. O ônibus parou, as portas se abriram, Márcio estendeu a mão e ajudou-a subir. Sentaram-se e se olharam por alguns segundos. Silêncio absoluto, cheiro de lata velha e óleo diesel, borboletas no estômago. Uma voz, aquém dos domínios narrativos, indaga-me: “e o beijo?” Respondo-a: ainda não sei se houve beijo. Continuarei a narrar. Quem sabe lá na frente aconteça algo. Por enquanto, minha cara vozinha interior, vivamos onde está a vida, no presente: carpe diem, carpa um lote, carpa os cabelos, mas deixe-me, por favor, continuar.

Fran tinha as mãos apoiadas nas pernas. Márcio sentiu-se tentado a acariciá-las (refiro-me às mãos da moça, estimada vozinha. Márcio é rapaz direito) Ele respirava lentamente. Olhava para a janela, mas só via pasto. Porém os pastos estavam incrivelmente verdes, e havia vacas, incrivelmente gordas, e cavalos, incrivelmente magros. Na verdade, sempre houve tudo aquilo, mas foi a primeira vez que ele os notou ali, incríveis. Ele aproveitou o balanço brusco do ônibus para colar o seu ombro junto ao dela. No rádio do buzão, uma música urbana parecia afetar os músculos faciais de Fran: ela sorria, cantarolava e olhava para o teto. Márcio percebeu e sorriu nervoso, porém via pastos verdes, vacas gordas e cavalos magros. Ele, então, tomou coragem e resolveu puxar assunto, mesmo que seus assuntos soassem um pouco como os do Eduardo e seu esquema: escola, cinema, clube e televisão.

— Hei, Fran, pensei que você gostava de música sertaneja!

— Até agora, tudo o que você disse ter pensado de mim, só faz referência a você, percebeu!

— Eita, é verdade!

Márcio ficou pensativo, Fran continuou cantarolando. Logo, ele voltou aos questionamentos existenciais.

— Vendo você cantarolar agora, lembrei-me que você nunca canta o hino estadual nem o nacional antes da gente entrar pra sala de aula. Você não gosta de hinos?

— Tenho asco, muito asco! Gosto de Rock, nacional, progressivo, psicodélico, sabe?! Tipo Legião, Pink Floyd… Tenho até uma tatuagem!

— Você tem uma tatuagem e gosta de rock? Uau! Mas então por que você não canta os hinos numa versão mais rock and roll?

— Não é por questões de ritmo… digamos que não sou muito adicta à servidão voluntária.

— Servidão voluntária, servidão voluntária, servidão…

— Não sabe o que significa, não é? Pois bem, servidão voluntária é uma forma de dominação em que o governo constrói seu poder, sua autoridade, principalmente, buscando formas de conquistar a obediência consentida dos oprimidos.

— Boiei! O que tem a ver os hinos com a autoridade, opressão…?

— Bem, dou a você um exemplo que é só seu: lembra quando você herdou a carroça de seu pai? Pois é, como você mesmo narrou em sala de aula, a carroça era velha, mas o cavalo novo. Assim que você teve um trabalhão para fazer com que o cavalo aceitasse puxar a carroça como se ele tivesse nascido para fazer aquilo. Agora te pergunto: quem nasceu primeiro, o cavalo ou a carroça? Não responda, foi só um sarcasmozinho que saiu sem querer. O que quero dizer, é que você levou anos adestrando o cavalo (inclusive perdeu um ano letivo por isso), até que ele achasse que o cabresto fosse só um assessório chique e protetor. Pois bem, com o hino é a mesma coisa. Eles sabem, é melhor começar na escola: potrinho adestrado é garantia de cavalo machador.

Márcio refletiu sobre tudo aquilo todo o caminho de volta. Desceram do ônibus, cada um com as suas próprias pernas e apoio. Fran encantou-se com o gesto, ele parecia ter completado o arco do personagem. Parecia que não era o mesmo que deixara o cinema encantado com o Senhor dos ladrões. Ele a acompanhou até à porta de sua casa. A despedida se fez colorida:

— Uau! — disse Márcio molhando os lábios — Você tem grandes olhos azuis!

Depois disso, confesso, não sei o que houve. Infelizmente fui escolhido para narrar só até a última exclamação de nosso herói de hoje. Temo que a bola agora esteja com você, cara vozinha interior. Então, eu a pergunto: houve o beijo?


Eber Urzeda dos Santos

28/05/2021


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"Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência".




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