• Eber Urzeda Dos Santos

Contos de Urzeda: O espelho de Áivil

Atualizado: Jan 12



Contos de Urzeda: O Espelho de Áivil

O Espelho de Áivil


A pequena Áivil sentou-se à sombra de uma palmeira à margem do açude da cidade. Aquela seria sua última tarde em Ibirajuba, Pernambuco. Ela apanhou duas pedras no chão e pensou em atirá-las na água. Desistiu: a água era o bem supremo, motivo de tanto adeus e tristeza. Muito jovem para deliberar a própria vida, viu-se obrigada a partir, levando consigo apenas a esperança da felicidade utópica e a angústia de não poder ser, por força maior, fiel aos próprios desejos.

Uma parte de si, porém, relutava em deixar a cidade. Talvez por medo dos donos das águas e das terras: exploradores da sede, da fome e do dízimo. Ela se levantou e guardou as pedras no bolso esquerdo de seu jeans: com o sonho de que estas se transformassem em alianças, quando ela, ainda angustiada, embora por razão contrária, voltasse a tocá-las com o anelar da mão esquerda, numa tentativa de realinhar os sonhos da menina à realidade da mulher.

Com a trégua do sol, abandonou as calçadas e caminhou no centro da rua sem se preocupar com o trânsito. Chegou à Praça Agamenon Magalhães e parou frente à Igreja Santo Izídio. Reparou nas muretas dos canteiros da praça pintadas em verde-amarelo e logo passeou o olhar pelas paredes da igreja. Das três portas, apenas a do meio estava aberta. Uma linda mulher a trajar um pomposo vestido de noiva deixava suas dependências para ganhar o mundo. Não havia padre nem coroinhas, tampouco os convidados para a chuva de arroz, não havia padrinhos, damas de honra nem pajens. O noivo também não fora convidado. Áivil sorriu e pôs a mão esquerda no bolso esquerdo de seu jeans: lá estavam o anel de noivado e a noiva a espera de um milagre.

Ela continuou a zombar da vida prática e girou em passos duplos pela praça como num passo de valsa. Após algumas pestanejadas, viu um rapaz aproximar-se sorridente.

— De que ris? Perguntou ela impaciente.

— Não estou rindo, menina! Não vês a diferença? Não é um riso, é um sorriso, visto que não é cômico, senão apaixonado.

Áivil pensou em dar um nome ao menino, mas ponderou: “melhor não, melhor danço”. Resolveu deixá-lo no esquecimento como havia feito com a noiva e pôs-se a rodopiar sua valsa triste, e rir de seus sonhos, e sorrir para a finitude do tempo que ainda lhe restava. Já cansada, sentiu seus pés doerem em seus sapatinhos novos. Retirou a mão do bolso e secou a única lágrima que rolara naquela tarde de despedidas. Ao voltar a casa, Áivil parou na esquina da Rua Professor Alencar com a Emídio José de Melo e contemplou o portão da escola. Escorado nas grades do portão fechado, o menino da praça voltou a surgir. Mas desta vez, sem o sorriso apaixonado. Ele apenas acenou, fechou os olhos e numa atitude pueril, esfumaçou-se e foi ter com as nuvens.

A porta de sua casa estava aberta. Observou as caixas de mudança espalhadas pela sala. O olhar de seu pai estava distante e o de sua mãe irradiante: tamanho o poder de dissimulação do verdadeiro sentimento em nome do bem-estar familiar. Seu irmãozinho brincava feliz com o cãozinho que teria de ficar. Áivil foi ao seu quarto buscar lembranças, mas nada viu, exceto um colchão estirado para a última noite.

Deitada em companhia do luar e das estrelas a invadir seu quarto através da janela desprovida de cortinas, lembrou-se das duas pedras em seu jeans. Buscou-as. Tendo à mão um prego que encontrara próximo ao seu colchão de palhinha, rabiscou alguma coisa nas nelas e deixou-as no canto, entre a parede e o travesseiro. Ela olhou para o teto escuro do quarto e deixou-se levar pela imaginação: e o teto encheu-se de estrelas. Logo, seus olhos pesados — por sua vida pesada — trouxeram-lhe suaves pesadelos.

Pela manhã, pouco antes de partir, enterrou uma das pedras no quintal. Olhou para a cova e desejou ter uma flor para enfeitar a cripta de sua pedra sagrada. Pôs-se a caminhar devagar. Quis olhar pela última vez para a cova rasa e triste, mas já estava decidida a não recuar ante nenhum afeto: pois ela sabia — apoiada em suas leituras sob a gameleira do quintal — que o mundo tentaria persuadi-la.

Ela respirou fundo, encheu os pulmões de ar e coragem e seguiu em frente. Levou consigo apenas uma pedra simbólica, para, quando necessário, poder ampliar sua consciência: aumentando a visão sobre si mesma e sobre o mundo sempre que pensasse nas duas pedras: a do passado, enterrada, e o do futuro, em seu bolso esquerdo. Dessa forma, ela poderia desatar os nós de energia presos em algum lugar de sua juventude que pudesse impedi-la, de certo modo, de ver a vida com a altivez de olhos adultos, a aceitar o novo e o diferente, ademais de corrigir os descaminhos que a fizessem perder a razão de ser e a capacidade de orientar-se na vida adulta e sombria: “talvez na simbologia das pedras separadas, eu possa encontrar o conforto necessário, quando o resgate de minha memória afetiva seja meu último suspiro de prazer!”. Pensou Áivil e partiu.

***

Domingo de sol em Recife. Áivil pisou na areia quente da Praia de Boa Viagem e dois afetos conflitivos invadiram seu ser: o encanto com a imensidão do mar, e o desencanto com a correria das pessoas a negar-lhe um bom-dia, uma boa-tarde ou um cumprimento respeitoso e rotineiro.

— Bom dia, senhora! Disse Áivil.

— Bom dia, senhorita! Ela mesma respondeu irônica ao passar por uma senhora de chapéu e luvas de veludo.

Ela não se entregou. Manteve o sorriso e as considerações ao próximo angariadas no berço e nos passeios pelas ruazinhas de Ibirajuba. À medida que crescia, notava seu distanciamento social e a mudança de seu corpo. A fúria dos desejos e o aumento das angústias iam enfraquecendo a velha menina — a dançar sozinha na praça — e fortalecendo a nova mulher, afeita aos moldes da gente de chapéu da cidade grande.

Ainda adolescente, sentia imensa vontade em transcender, ir além do que lhe era permitido para conquistar o mundo. Via a figura paterna nos garotos que se aproximavam com ares machistas, e aos românticos, gentilmente, oferecia-lhes apenas amizade. Esse era seu pensamento contrário: desejava liberdade, mas se entregava à proteção dos fortes.

Pouco tempo depois, em um novo salto com a família, viu-se em São Paulo. Cidade de extremos e de gente ainda mais distante de sua realidade e consciência. Imaginava-se em um grande formigueiro, cuja vida não tinha outro sentido senão o de formigar e proteger a rainha.

Sua família não tardou em retornar a Recife, desse modo apresentou-se a chance de deliberar a própria vida pela primeira vez. Áivil sentiu a presença da angústia das escolhas, mas resolveu ficar: obedecendo aos anseios aventureiros de uma moça, até então forte, que acabara de experimentar o gozo da vida adulta e o peso das próprias decisões.

Namorou, casou-se, teve dois filhos, mas só depois conheceu seu marido. Antes, o tinha como uma personagem principal maravilhosa, um herói perfeito, restando a si o papel de antagonista, uma vilã que vivia pelas sombras, sem identidade e capaz de atos atrozes. Porém, ao fim da história, o arco das personagens se completou: e o belo tornou-se feio. Suas atrocidades, maquiadas à benevolência, feriu todas as outras personagens: primárias e secundárias, além de alguns figurantes.

Foram tempos difíceis: seu nome era outro, seu passado era outro, outra se tornou. Tomada de afetos, entre a dor de não se reconhecer diante o espelho e o medo voraz causado pela solidão, quis reconquistar o tempo perdido. E voltou a bailar pela casa, mas ao som de si mesma, para não acordar as crianças.

Provou sorrir ao espelho, mas ainda não pôde ver a pequena Áivil. Ousou libertar-se uma noite: vestido colado ao corpo de exuberantes linhas, grandes olhos castanhos enfeitados por cílios e sobrancelhas delineadas à perfeição das figuras geométricas; lábios vermelhos pulsantes, convidativos ao beijo de amor eterno; cabelos soltos sobre os ombros alvos e desnudos, e saiu a bailar com a gente do enorme formigueiro.

Tardou dois longos anos em libertar-se do novo-velho herói daquela noite. Foi preciso desconstruir outra personagem: ainda mais déspota que a primeira, cuja tirania quase apagara de vez o pouco reflexo identitário que ainda lhe restava. Foram muitas noites sem dormir, até que ouviu um soluço de pesar, e a voz de seus filhos chamando-a de mãe como se fosse a primeira vez. Então uma última lágrima encontrou o seu raro sorriso que havia muito tinha deixado de existir. Lembrou-se do olhar irradiante de sua mãe meio ao desgosto de deixar sua terra natal e foi tomada por uma força descomunal. Pegou os seus filhos no colo e dormiram todos abraçados em uma só cama.

Ela despertou cheia de vida. Foi ao banheiro, olhou-se no espelho, mas não ficou feliz com o que viu. Foi ao quarto, fez as malas, abriu um pequeno baú, retirou um objeto e colocou-o na bolsa. Sem perder tempo, acordou as crianças.

— Venham, temos de viajar! Não precisam ir para a aula hoje. Viajaremos agora, mas na segunda-feira estaremos de volta. Antes que seus filhos perguntassem para onde, ela adiantou a resposta:

— Vamos à Ibirajuba, minha terra natal. Preciso recuperar algo.

Após algumas horas de voo, chegaram a Recife. Alugou um carro e foram direto para o interior. Chegaram à Ibirajuba no cair da tarde. Seus filhos acompanharam a viagem fantasiados com a magia das paisagens de Pernambuco, sentiram-se em casa. Áivil desceu do carro e pediu a seus filhos que a esperassem por um momento. Parou em frente ao portão de sua antiga casa e bateu palmas. Uma bela jovem surgiu como surgem os reflexos, e as duas conversaram por alguns minutos. As crianças observavam a mãe: ela parecia falar sozinha.

Áivil entrou sorridente a convite da mocinha, deu a volta na casa e foi direto ao quintal. Pediu a atual moradora permissão para cavar e de pronto foi atendida. Depois de fazer alguns buracos, encontrou o que buscava: enrolada em um lenço decomposto pelo tempo, havia uma pedra, a mesma que enterrara no dia em que deixou para trás sua querida cidade. Ela levou a mão à bolsa e retirou a outra pedra que havia levado consigo. Eufórica, virou-se para agradecer à jovem da casa. Não a viu. Levantou-se do chão e entrou pela porta dos fundos para agradecer à menina. Ao passar pelo banheiro, viu um espelho convidativo, ficou curiosa em saber como estaria seu aspecto depois de voltar a juntar as duas pedras. Pôs-se de frente ao espelho e ficou a observar, não viu seu próprio rosto, apenas um reflexo distorcido de si mesma.

— O que procura? Perguntou a jovem da casa abandonada ao aproximar-se.

Áivil assustou-se e virou-se rápido. Olhou para os olhos da jovem e sentiu familiaridade naquele olhar distante e triste:

— Como você se chama? Indagou Áivil.

— Lívia, minha senhora! Respondeu a moça com voz amistosa!

Depois de ouvir o nome da menina, viu passar várias cenas de sua vida em sua mente: dos dias atuais até o dia em que deixou Ibirajuba. Áivil, então, pegou as duas pedras e as pôs na mão da jovem da casa e disse com ternura:

— Vai ficar tudo bem, Lívia, você pode vir comigo agora. Já não estás sozinha, já não estamos sozinhas, você tem a mim e eu a você.

Lívia abriu a mão devagar e reparou nos nomes gravados nas pedras: em uma “Lívia” e na outra, como numa escrita espelhada “Áivil”. Ela sorriu e fechou os olhos, ao abri-los se viu dentro do espelho. A sua frente a observava uma mulher linda, de olhos cheios d’água, mas de sorriso largo a esbanjar felicidade.

A nova Lívia deixou a casa pela primeira vez como adulta. Ficou espantada em conhecer seus filhos que a esperavam inquietos. Antes de entrar no carro, beijou cada um como se fosse o primeiro beijo pós-parto. Sentou-se, ajeitou o espelho retrovisor e contemplou a si mesma. Ela alegrou-se com o que viu e amou a ideia de não mais viver sua vida espelhada. Senhora de si, sorriu apaixonada e disse:

— Seja bem-vinda ao nosso mundo, Lívia, recomecemos!


Eber Urzeda dos Santos

Roßtal - Alemanha

22/12/2020


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"Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência".




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