• Eber Urzeda Dos Santos

Contos de Urzeda: Malmequer

Atualizado: Nov 16



Contos de Urzeda: por Eber Urzeda dos Santos

Malmequer

A golpes carinhosos de machado, Mariana preparou o corpo do Monstro-Aranha. Comprou, a peso de ouro, Rosas negras e Oliveiras com troncos anômalos. Delimitou o jardim com Marcos sombrios e revestiu-os com togas imundas. Eram como imensos espantalhos com os risos a falsear alegria por dentro, e o pavor a cobrir-lhes os calcanhares por fora. Cheia de esperança e orgulho, maquiou-se para a cerimônia. De todos os medos possíveis, temia apenas o de não terminar, em vida, seu jardim de margaridas: bem-me-quer, malmequer.

Fizeram-na tomar o licor das cinderelas. Da noite das princesas, lembra-se pouco: alguns flashes, relâmpagos de álcool e substâncias finas, nada mais. Despertou-se banhada a sangue e à essência aracnídea. Ao ver seu sapatinho de cristal em pedaços… gritou. Taparam-na a boca. Tudo isso levaram-na, por viés da justiça e do bom sono, a preparar o terreno de seu jardim, usando, perdoem-na, terra virgem e excrementos humanos, colhidos durante o seu julgamento, em que a acusaram de ter nascido… sim, de ter nascido… terrivelmente mulher.

Depois do apedrejamento, o quarteto fantástico tratou de decorar suas falas. Anti-heróis também atuam. Eis a estrutura do romance diabólico, ato I: quatro homens acusam-na, bruxa. Do inferno, o gerente de departamento assiste ao espetáculo surpreso: “Quanto profissionalismo!”. Pura poesia macabra. Recitam versos, antes combinados, sobre a reputação e o corpo da moça. Ato II: embora a lágrima pungente, ela não se afeta pelo julgamento externo a si. Mariana é forte, Mariana é mulher. Decide fazer os seus próprios julgamentos (justiça), tecer suas próprias opiniões (justiça) e cultivar os seus próprios valores (justiça). Pelo menos os que estão sob seu controle, segundo a dicotomia estoica. Ela faz a distinção — julgam-me (não é meu encargo), julgo-me (Opa! “up to me”) — como um alerta a si mesma: não pode ser intimidada por um vírus, um câncer ou um estupro, nem pelo primeiro, privado, nem pelo segundo, coletivo, durante a cerimônia da Ordem dos Canibais. Ela sabe, ela cala, ela chora, ela espera… conhece-os bem: “gente que troca moedas!”. Ato III: junte todos as cenas de terror já existentes, acrescente Mariana e um machado, não o de Assis. A literatura, às vezes, é macabra: ela sabe o que fizeram no verão passado. Agora imagine todo o mal do mundo como adubo, um jardim construído a golpes carinhosos e sua inauguração como um convite à liberdade feminina.

***

Mariana levanta a cabeça, olha-os de frente, eles se viram, viram-se. O medo, antes dela, submerge-se impávido: ela é toda coragem, já não pode morrer. De repente, ela sente fome. Olha-os de frente, eles se engasgam, engasgam-se. O medo, agora o deles, emerge-se diante de um país inteiro: acovardam-se todos. Eles a olham: Mariana tem o mesmo olhar reprovador de suas mães, de nojo de suas filhas, e perturbado de suas esposas. Elas, indignadas, os veem, com o desconforto de quem lhes feriu o ventre. Mariana age, seu machado é ágil, gentil. Eles já não a olham, porque olhos já não têm. Culpá-la? Não há provas. Ela está sob o efeito das cinderelas. Todos sabem: não se culpa cinderelas: elas lavam, passam, cozinham e desejam tão só um sapatinho de cristal ou um machado, que seja o de Assis, minimamente a cortar-lhes a carne e a alma: "olhos de cigana oblíqua e dissimulada." Não! Não a julguem pelos olhos de Bentinho: já o fizeram!

Ela, desde que nasceu, aprendeu aos poucos a morrer. Ainda que tentassem convencê-la do contrário, ela sabia: “a vida é bela, mas há fome, melhor comer agora e morrer mais tarde”. Eis o porquê do projeto de seu jardim de margaridas: há que se livrar do lixo acumulado em vida. Homens, nem todos, dirão que o jardim mais parece um cemitério. Não os culpemos, pobres, arrancaram-lhe os olhos com o machado. Lembrem-se: Mariana nasceu mulher, como todas as Marias e Anas, incrivelmente mulher. Mariana sabe, Mariana repete: “há que se livrar do lixo acumulado em vida”.

Ela viu uma senhorinha passando pela rua. A velha senhora contemplava o jardim de Mariana e via-se nele colhendo margaridas. A senhorinha sorriu-lhe, gritou-lhe:

— Tenho adubo em casa, são restos de marido violento, perfeito para malmequeres.

Mariana sabe, todos sabem: é preciso adubar a terra; é preciso — mesmo que com ossos e vísceras — dar suporte às plantas aéreas. Mariana sorriu-lhe de volta:

— Traga-o, quanto mais adubo, mais fortes as flores ficarão. Além disso, minha querida senhora: há que se livrar do lixo acumulado em vida!

Chegou o dia, ele sempre chega. Mariana contemplou a arte de seus belos vasos ornamentais, feitos de ossos ainda frescos, mas com a certeza de que logo estariam calcificados. E repetia: “malmequer odeia frescura óssea”. Cuidava de seu jardim com tédio: via ervas-daninhas saírem pelos orifícios craniais de seus vasos e se irritava com isso. Plantava margaridas, mas só nascia mato. Triste realidade, dizia ela à caveira do Monstro-Aranha: “Se malmequeres por isso, sinto muito: não tive intenção, perdoe-me! Dito isso, Mariana, com seu vestidinho preto-luto, ainda banhado a restos aracnídeos, levantou seu machado a fazer sombra nos olhos e contemplou, maravilhada, a beleza da placa na porta de entrada de seu novo empreendimento. Observou a multidão na rua, sentiu a fortaleza de não ser sozinha e deu início à cerimônia que inaugurou a consciência de liberdade nas mulheres:

Venham, meninas! Entrem! Sejam bem-vindas ao fantástico mundo do Jardim-Culposo!!!


Eber Urzeda dos Santos

05/11/2020


"Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência".




© 2020 por Eber Urzeda dos Santos

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