• Eber Urzeda Dos Santos

Contos de Urzeda: A Monstruosidade de Tucuruí



Contos de Urzeda: A Monstruosidade de Tucuruí

A Monstruosidade de Tucuruí

A Lenda do Lago da Usina

Sarah correu o que pôde. Mas seus pés ensanguentados, suas pernas trêmulas e os seus pulmões obstruídos levaram-na ao chão e ao estado de choque. Apenas seus olhos moviam-se assustados à procura do seu predador. De repente, ela ouviu uma canção relaxante e sentiu todo o peso do mundo em seus olhos. E estes, a pestanejarem-se calmos, aquém da transcendência de uma parte até então desconhecida por sua visão de mundo, desvaneceram lentamente como no espaço de tempo em que o espírito se desprende do corpo e vagueia pela confusão dos sonhos. Então, aos poucos, o seu ser esvaiu-se, tornando-se o nada.

***

Ao cair da tarde, a rua paralela ao Rio Tocantins, próximo ao cais da cidade de Tucuruí, no Pará, tornava-se vazia às pressas. Portas e janelas fechadas, trancadas e untadas com água benta. Homens, mulheres, idosos e crianças se ajoelhavam em círculo, tendo ao meio uma vela acesa e uma cabeça de peixe. Apenas um bêbado, triste a cambalear pela rua ribeirinha, acompanhou a cena monstruosa. Encorajado pela cachaça barata e as moedas prometidas, narrou — de olhos fechados, para não se esquecer dos detalhes — o caso da menina do cais:

— Enquanto a sombra da noite envolvia a cidade, um vulto camuflado entre as brumas noturnas, de formas monstruosas e opacas, ajoelhou-se sobre o corpo da moça paralisada e… acreditem, pôs-se a murmurar uma canção de ninar. Disse o ébrio contador de histórias, antes de abrir os olhos para reclamar as moedas.

Alguns moradores de Tucuruí insultavam o bêbado: “mentiroso descarado”. Riam suas gargalhadas debochadas e cuspiam o nojo e o ódio na velha colcha de retalhos daquele que, para eles, não passava de um ficcionista movido a álcool. O bêbado, indiferente aos julgamentos, sorria afável e repetia em silêncio: “a coragem é o resultado da somatória de duas covardias”. Porém, conhecedores das lendas, os ribeirinhos da cidade não ousavam zombar do velho homem morador das calçadas.

Os olhares pelas frestas das janelas eram evitados a todo custo, bem como cânticos ou ruídos que pudessem vibrar as paredes de tábuas sempre depois do crepúsculo. Ribeirinhos atentos: mãos aos ouvidos, respiração lenta, olhos fechados e a esperança do dia seguinte, na manhã libertadora, quando os raios do sol, refletidos nas águas do rio, viessem anunciar o espetáculo da vida e a possível sacies do pescador de almas.

Sarah era nova na cidade, mudou-se para Vila Permanente — uma vila projetada para os funcionários da hidrelétrica da cidade — e matriculou-se na Escola Rui Barbosa. A princípio, tímida, tardou em fazer amigos. Um dia, na saída da escola, viu um grupo de alunos reunido próximo ao portão. Ao passar por eles, notou que o tema era o mito do lago da usina. Ela diminuiu o passo e logo parou. Olhou para os garotos e as garotas e reparou o incômodo deles com o tema: tinham os olhares dispersos, mas ouvidos atentos, como se esperassem ser surpreendidos a qualquer momento.

— O que é o mito do lago da usina? perguntou Sarah, surpreendendo os garotos de tal modo que os deixou em estado de alerta.

— Não é um mito, é uma lenda! — disse Pedro, o professor de História, ao sair pelo portão da escola e agarrar a mão de sua filha, Lívia: uma das garotas do grupo. — Venha comigo, anda!

Os outros alunos baixaram as cabeças e se dispersaram sem protestos nem despedidas. Sarah, então, pegou no braço de um dos garotos. Este a olhou nos olhos e logo baixou a vista à mão de Sarah que o segurava firme. Ela não o soltou.

— Espere, por favor! — disse Sarah, tentando forçar um sorriso. — Preciso de ajuda. Seu nome é Lucas, não é?!

Diante do encantamento por Sarah, Lucas relaxou os ombros e percebeu uma leveza em seus músculos e uma serenidade na alma que há muito não sentia. Pensou ser graças à notava da classe, à sua beleza misteriosa. No entanto, ele estranhou o fato dela saber seu nome: por ela estar a tão pouco tempo na escola e por ele não ser um tipo tão popular entre as meninas.

— Sim , sou o Lucas, muito prazer!

Lucas estendeu-lhe a mão e beijou-lhe a face. O perfume de Sarah inundou-lhe a alma. A brisa vespertina vinda das comportas da usina, misturada aos aromas adocicados do rosto da menina, deixou em seus lábios um orvalho aromático, apaixonante.

— Você disse precisar de ajuda? Em que posso ajudá-la?

— Sabe o que é? — Sara fez uma pequena pausa e olhou para baixo. — Não sei se você percebeu, mas me sento ao lado da Lívia. Durante estes três dias que fui sua colega de mesa, notei que ela nunca prestava atenção nas aulas. Além disso, ela tinha o costume de ficar rabiscando o caderno com os dizeres: “o mito do lago da usina”. Até aí, tudo bem! Mas hoje a vi com um estilete desenhando na mesa uma figura monstruosa. Então me aproximei e perguntei o que era. Levei um susto quando ela se virou: Lívia tinha os olhos esbranquiçados, vazios. Pensei que ela estava brincando de virar os olhos, mas vi que a coisa era mais séria quando ela olhou para mim e parecia não me enxergar, como se eu fosse transparente, sabe? Logo ela balançou a cabeça e seus olhos voltaram ao normal. Mas notei que a respiração dela estava muito acelerada. Ela parecia confusa: como as pessoas recém saídas de um transe. Fiquei com medo e afastei-me um pouco.

Sarah contava-lhe o ocorrido enquanto os dois caminhavam em direção ao centro comercial da vila. Lucas olhava para o chão, parecia evitar o olhar indagador de Sarah.

— Então, Lucas — continuou Sarah —, quando saí pelo portão, ouvi vocês mencionarem algo sobre o mito do lago. O que é o mito do lago da usina? Por favor, eu preciso saber. Confesso que estou com medo e penso até em contar aos meus pais para que eles venham à escola. Talvez eles consigam descobrir o que está acontecendo aqui.

— Não, não faça isso! Melhor que ninguém saiba de nada! — disse Lucas, levantando rápido a cabeça para encará-la de frente.

— Então me conte, eu tenho de saber! — respondeu-lhe Sarah. Então ela parou na frente de Lucas, pegou-lhe as mãos e acariciou-as com carinho. Lucas, sentindo o peso dos próprios braços, assentiu.

— Tá bom, mas… prometa que isso ficará só entre a gente. — disse Lucas meio relutante. Porém o olhar de Sarah o fez ceder ao apelo.

— Claro, pode confiar!

Eles já estavam próximo ao supermercado da vila, quando viram o professor Pedro deixá-lo com uma sacola na mão, sozinho. Os dois pararam entre duas árvores e avistaram o professor entrar em seu carro. Depois de dar marcha à ré, com a velocidade incomum para um estacionamento, ele saiu a cantar pneus e passou muito próximo dos pés de Sarah. Ela olhou para dentro do carro e viu Lívia com a cabeça escorada na janela dianteira do passageiro, com as mãos nos ouvidos e os olhos fechados.

— Meu Deus! Temos de ajudá-la! — disse Sara e puxou Lucas pela mão. — Onde ela mora? Você tem de me dizer!

Lucas teve o mesmo sentimento de compaixão de Sarah. Mas seu gesto instintivo e brusco, livrando-se das mãos dela e inclinando o corpo levemente para trás, denunciou seu temor de seguir adiante. Sarah percebeu que ele tentaria dissuadi-la. Então ela o pressionou contra uma das árvores e, com o dedo indicador, tapou os lábios dele, impedindo-o de falar.

— Você tem de me levar à casa da Lívia. Ela não está bem, e você sabe disso! — disse Sarah. Então ela puxou bastante ar e fechou os olhos. Após exalar todo o ar de forma lenta e algo melancólica, ela envolveu as duas faces de Lucas com as mãos, acariciou-o por um momento e o beijou, acalmando-o!

***

Os dois caminharam pela Rua Minas Gerais e logo chegaram à Rua Chile. Enquanto andavam, de mãos dadas, Lucas pensava no beijo e em uma futura repetição. E Sarah, no terror dos olhos brancos e assombrosos de sua colega de classe. Ela dava ritmo à caminhada. Lucas sentia-se levado como num passo de valsa, cuja professora parecia ter plumas nos pés e um aperto de mão leve e afável.

Ao chegarem à Rua Canadá, Lucas apertou a mão de Sarah e fez um movimento de modo súbito. Os dois pararam. Ele olhou para a esquerda, logo para a direita. Não sabia ao certo qual direção seguir, pois só havia ido à casa da Lívia uma vez: ao acompanhá-la com amigos depois de uma festa no clube da vila. Após pensar um pouco, lembrou-se onde ela morava: ao avistar uma casa que lhe era familiar. Era a casa Hertes, antigo vizinho e ex-namorado da Lívia. Tanto ele como toda família haviam desaparecido da cidade sem deixar rastros, ninguém sabia informar nada a respeito da família Jung.

— É aquela casa ali! — disse Lucas com uma voz tênue e gestos imprecisos.

— Tudo bem, vamos até lá! Sarah o arrastou pelo braço, e os dois deram a volta para entrar pelos fundos do quintal.

Pularam uma cerca, feita de madeira pontiaguda, e invadiram o terreno. Abaixados junto à parede, procuraram o quarto de Lívia. Eles avistaram a garagem. Não viram o carro do professor. A tensão pareceu diminuir um pouco, mas logo aumentou quando ouviram um choro pesaroso seguido de soluços. Sarah quis olhar pela janela, mas antes Lucas pôs a mão em seu ombro e disse baixinho:

— Tenha cuidado, Sarah, não sabemos o que ou quem está lá dentro.

Sarah arregalou os olhos, voltou os ombros para trás e disse:

— Como assim o quê? Esse choro só pode ser da Lívia. Não é o quê, senão quem: é uma pessoa, é a Lívia.

— Não é bem assim! — respondeu Lucas. — Sabe o mito do lago da usina?! Pois é, tem a ver com a Lívia e o pai dela.

Sarah mordeu os lábios e olhou para baixo. Agarrou Lucas pela camiseta, e os dois correram e entraram debaixo de uma casinha de madeira em um dos cantos do jardim. A casinha, velha e abandonada, era suportada por quatro vigas de madeira, tendo de lado um escorregador vermelho desbotado pelo tempo e do outro, uma escadinha com os dois primeiros degraus quebrados.

— O que é o mito do lago? Vamos, conte-me tudo! — disse ela impaciente.

— Não é um mito. Segundo o professor, é uma lenda: uma narrativa transmitida oralmente pelas pessoas com o objetivo de explicar acontecimentos misteriosos ou sobrenaturais e que mistura fatos reais a imaginários.

— Tudo bem, mas não precisa agora me explicar a etimologia da palavra. Quero saber sobre a lenda, do que se trata a lenda do lago.

Lucas percebeu a impaciência de Sarah e continuou:

— Segundo a lenda, durante a formação do lago para construírem a usina, famílias inteiras de ribeirinhos, e até algumas tribos que sempre viveram na região foram expulsas do local sem qualquer tipo de indenização ou projeto que lhes compensasse a brusca mudança de vida. Depois de muitos conflitos com a polícia, e o sumiço de muitos pais de família e guerreiros indígenas, as famílias e as tribos resolveram deixar a região. Somente um velho pajé ficou no local para adverti-lhes da guardiã do Rio Tocantins: Maramou. Ela costumava afogar os homens que não respeitavam o rio ou mandava seu cão-das-águas para capturá-los e aprisioná-los o ser.

— Espera aí, calma lá! Aprisionar o ser… o que isso significa? — perguntou-o Sarah, tentando entender os absurdos narrados por Lucas.

— Como disse o próprio professor Pedro — Lucas fez uma pausa, como se quisesse escolher melhor as palavras para não assustar ainda mais Sarah —, o cão-das-águas aprisiona a consciência do homem, deixando-o viver apenas com as pulsões do inconsciente. Isso significa que o homem atacado perde a razão, ou seja, ele perde as experiências que percebia por meio da razão, além das lembranças e das ações intencionais. Sua percepção de mundo então passa a depender das forças do inconsciente. Sendo assim, o novo homem passa a ser regido pelo instinto de vida, que se refere à autopreservação, e pelo instinto de morte, que é uma força destrutiva, e que pode ser dirigida para dentro.

Lucas notou que Sarah buscava entender, ela tinha o olhar distante e brincava com as tranças de seu cabelo, enrolando-as nos dedos e passando-as nos lábios.

— Eu não sou inteligente o bastante para assimilar tudo isso e logo explicá-lo — continuou Lucas —, isso se deve pelos encontros que tivemos para fazer um trabalho em grupo depois da aula do professor Pedro sobre a lenda. Gravamos a aula em vídeo e a transcrevemos durante as reuniões. Logo li e reli trezentas mil vezes. Por isso tenho tudo decorado. Se você ainda não entendeu, tenho um exemplo que talvez facilite seu entendimento: sabe os loucos… ou os bêbados, que de tão bêbados parecem loucos? Pois é: não os entendemos porque eles são ou estão regidos pelo inconsciente: eles dizem coisas e agem de acordo com as pulsões do inconsciente. Mas como interpretamos as coisas que eles dizem ou fazem a partir de nosso consciente, tudo dito ou feito por eles não tem o menor sentido para nós, porque não estamos conectados no mesmo canal de comunicação.

— Tá bom, essa parte já peguei, mas… o que tem isso a ver com o mito, ou melhor, com a lenda do lago da usina?

— Já vou chegar lá — continuou Lucas. — O pajé vivia em uma pequena ilha do rio. Ele resolveu esperar o homem branco ali, numa tentativa de salvar a pequena ilha onde estavam enterrados os restos mortais de várias gerações. Quando ele avistou homens chegando num barco da polícia, sorriu e acenou. Ele tinha à mão um adorno, feito de ossos de lebre e cascos de jabuti para presenteá-los. Ao verem o adorno, os policiais pensaram ser uma arma e o alvejaram. O velho índio caiu no lago, e por algum instante fez-se o silêncio. O barco aproximou-se do corpo a boiar na água serena, e todos cumprimentaram o atirador: “belo tiro, soldado”. Eles riram em jubilo e deram alguns tiros para o alto, a comemorar o sucesso da expedição e da retirada de todos os que molestavam as intenções do Estado.

Sarah estava imóvel. Atenta às minuciosidades de cada palavra dita por Lucas. Apesar do calor, sua pele tornou-se áspera e o frio sentido a fez se aconchegar junto ao corpo dele. Ele mal notou seu gesto. Tinha à mente apenas a lenda, e uma vontade imensa de desfazer-se dela. Então ele continuou:

— Durante a comemoração, a tropa percebeu que o barco se movia de forma estranha. Ficaram em silêncio e observaram as mudanças no cenário: as águas, antes tranquilas, começaram a formar ondas cada vez maiores. Os policiais largaram suas armas e seguraram firme nas laterais do barco. Neste instante eles avistaram a formação de um redemoinho ao lado deles. Enquanto todos os soldados acompanhavam horrorizados o crescimento do turbilhão ameaçador, da água surgiu uma criatura e saltou para dentro da embarcação. Todos os soldados ficaram imóveis como se tivessem sido hipnotizados, só conseguiam mexer os olhos ao acompanhar os movimentos lentos e controlados de Naláh, o cão-das-águas. Então, Naláh se posicionou ao centro e girou o corpo de forma lenta a encarar cada soldado e, veja você, começou a rosnar. Mas agora vem a parte intrigante da lenda: a melodia de seu rosnar era como um canto a meia voz, como nas canções de ninar.

— Que monstruosidade! — disse Sarah. Logo ela pegou o braço esquerdo de Lucas e o botou sobre seus ombros. — Mas o que isso tem a ver com Lívia?

— Já vou chegar lá! — respondeu Lucas. Logo juntou as mãos, entrelaçando os dedos e envolvendo Sarah dentro de um abraço carinhoso. Então, continuou: — Ainda segundo a lenda, Maramou, a guardiã do rio, lançou uma maldição sobre a região do lago: todo ano ela mandaria Naláh para aprisionar o ser de dois moradores de Tucuruí, quando estes houvessem completado quinze anos. Pela simbologia das antigas tribos do rio, essa é a idade em que o homem deixa de ser filho da terra para tentar conquistá-la. E a Lívia — assim como você e eu — acabou de entrar nessa fase. Nosso grupo, o que fez o estudo da lenda, percebeu que a Lívia se comportava de maneira estranha desde o seu aniversário. Tentamos conversar com ela sobre isso, mas sempre vinha o professor Pedro e nos distanciava dela, exatamente como fez hoje. Acho que ele se arrependeu de ter dado aquela aula sobre mitos e lendas. A Lívia chegou um dia a dizer para esquecermos toda essa história maluca, pois ela estava com alguns problemas em casa e a lenda não a deixava se concentrar em nada. Achamos estranho, porque antes do aniversário, ela se comportava como qualquer garota da escola, além de estar super empolgada com os novos descobrimentos sobre a lenda.

— Não creio nessa lenda boba! — disse Sarah e levantou-se depressa. — Vamos, temos de conversar com ela, saber por que ela anda tão estranha e se podemos ajudá-la em algo.

Os dois caminharam rumo à porta dos fundos. Sarah bateu à porta com cuidado e disse baixinho:

— Lívia, Lívia! Eu sei que você está aí. Preciso falar com você!

Eles não ouviram resposta alguma. Sarah bateu com um pouco mais de força e a porta se abriu devagar. Ouviu-se então apenas o ranger das presilhas enferrujadas. Ela pegou Lucas pela mão e entraram. Foram à procura do quarto da Lívia. Lucas reparava em cada detalhe da casa: as paredes estavam repletas de fotos do torneio de pescas de Tucuruí. Em todas elas, o professor Pedro estava de pé dentro de uma lancha pequena, tendo à mão enormes peixes.

Ao chegar ao quarto, Sarah bateu à porta só com as costas do dedo indicador. Aproximou o ouvido direito e ouviu Lívia cantando com ternura. O canto era quase um murmúrio de lamentação. Ela abriu a porta devagar e chamou por Lívia com a voz serena para não a assustar. Porém, ao entrar, e para seu pesar, Sarah pôde ver que a melodia não saia da boca da Lívia, senão de um enorme monstro, cujo corpo parecia o de um cão gigantesco, coberto com uma pelagem densa; e seu crânio, liso e dourado, tinha o mesmo formato da cabeça de um tucunaré — peixe típico da região, o mesmo das fotos do professor Pedro.

Lucas entrou em seguida e também se deparou com o monstro, ele tinha as duas patas dianteiras sobre a cama da Lívia. O monstro cessou o cantar e todos se entreolharam em silêncio. O único que se podia ouvir era a respiração de Naláh que, mesmo dotado de brânquias, e estas abertas e em movimento, respirava pelas narinas, exalando um ar esverdeado e nebuloso. O cão com cara de peixe olhou para os dois jovens entorpecidos na porta do quarto, desceu as patas dianteiras, endireitou o corpo e posicionou-se para o ataque. Neste instante, Sarah e Lucas perceberam a mudança de fisionomia na cara de peixe do monstro: de fúria para o espanto. Então os dois sentiram um empurrão em suas costas e foram ao chão. O pai da Lívia invadiu o quarto, empunhando uma escopeta. Em seguida, ouviram o estrondo de um tiro e viram uma luz que cegou a todos.

Quando Lucas recobrou consciência, não viu Lívia ou o professor Pedro. Ele estava em um quarto sem janelas, deitado no chão, ao lado de uma arma. Sobre a cama, uma moça com tranças — trajando um pijama de peixinhos dourados e abraçada a um cãozinho de pelúcia — dormia tranquila junto a uma farda de soldado. Zonzo, ele voltou a desmaiar.

Raios de sol atravessando as folhas de uma árvore: foi a primeira coisa que percebeu ao despertar. Lucas esfregou os olhos e se viu deitado na calçada dum bar próximo à Feira Municipal de Tucuruí. O cheiro de peixe fresco, que vinha da feira, causou-lhe ânsias de vômito. Logo, o dono do bar veio ter com ele.

— Ei, rapaz! Acordou, né? Cuidado com o que esse bêbado diz. Ele não bate bem das bolas: olha só pra ele, usa farda e se diz ex-militar. Ele sempre conta a mesma história: de quando seus colegas soldados foram atacados e mortos por um cão com cara de peixe. Dá pra acreditar? Um louco perdido!

Lucas passou a mão pelos cabelos, sentiu uma forte dor de cabeça e seus ouvidos latejarem. Não sabia ao certo por quanto tempo adormecera. Tentou se levantar, mas caiu diante de uma poça de água entre a rua e o meio-fio. Ainda se recuperando da queda, viu um bêbado encará-lo de muito perto.

— Ei, você, quer ganhar uma dose de cachaça? — Lucas perguntou ao bêbado.

— Claro, doutor! Mas espera aí, o que é que eu tenho de fazer?

— Nada demais! Só me dizer seu nome!

— Cachaça barata! — pensou o bêbado, e vendo que o nariz de seu interlocutor quase tocava o seu, disse seguro de si:

— Meu nome é Lucas, doutor!

Ele conseguiu, finalmente, pôr-se de pé. Escorou-se em uma árvore e olhou para as teias de aranha nas portas do antigo bar da Rua Getúlio Vargas. Reparou em sua volta: não havia ninguém, exceto as figuras do bêbado e do dono do bar, os dois a trajar suas vestes militares, aprisionados como fantasmas na água suja da poça. Lucas então sorriu aliviado. Aquele era apenas mais um domingo qualquer. Ele estava sozinho como sempre e consciente como nunca. Porém desejou um gole de cachaça, de inconsciência, a fim de se livrar da monstruosidade do mundo perceptível.

Eber Urzeda dos Santos

Roßtal - Alemanha

19/12/2020


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"Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência".





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