• Eber Urzeda Dos Santos

Trevas do Eu: A Kombi e a Náusea

Atualizado: 8 de nov. de 2021




A Kombi e a Náusea

Benny assustou-se com o vermelho sangue que corria pela porta de sua velha Kombi azul. Na noite anterior, estacionou-a ao lado de sua frutaria, tomou sua bicicleta cargueira (também azul, porém de tom mais escuro) e foi a casa depois de um longo dia de trabalho e melancolia. Porém, agora, o rubro líquido veio anunciar a contingência de um dia atípico e a aversão pela vida mecânica.

***

Chave a girar na fechadura e os mesmos pensamentos existenciais devido ao trabalho forçado por força maior. Foram giros intermináveis. Algo lhe pareceu estranho: coisas tranquilas também são suspeitas. Pensou ouvir ruídos vindos do interior de seu furgão, e a sensação de estar só desvaneceu. De frente para a porta da loja e de costas para sua Kombi, sentiu que a qualquer momento poderia ser surpreendido. O conluio da fechadura com o ladrão de legumes é prática conhecida: um rouba-lhe o tempo, a paciência, enquanto o outro, a espreita, surge deselegante e amordaça batatas e carambolas. Por isso (carregado de razão) Benny diz que o demônio vive nos buracos das fechaduras; por isso orelhas atentas, por isso olhos inquietos. Desistiu de girar.

Ele olhou para os lados e contemplou o estado de coma da cidade. Aproximou-se da Kombi e pôs a mão esquerda na maçaneta da porta lateral da carroceria. Não havia ninguém nas proximidades da Praça da Matriz, da pequena cidade de Hidrolândia, no interior goiano. Diferente dos dias atuais, a praça, na década de noventa, ainda tinha um papel de destaque na vida cotidiana do pacato município: o sexo era feito nos canteiros elevados, entre arbustos e ervas daninhas. De seu fruto nasciam futuros pastores de gente sem graça, padres com talentos administrativos e pedreiros expertos em demolir a história. No entanto, aquela era uma manhã de sábado, livre de qualquer tipo de assédio, de comércio preguiçoso, de igrejas e escolas fechadas. Benny olhou para a sua mão trêmula e sentiu que o frio do alumínio parecia lhe congelar os dedos.

Antes de abrir, quis ver de antemão o que estava acontecendo dentro da velha Kombi. Olhou através dos cristais da janela, mas nada viu de concreto, apenas o que parecia ser uma névoa densa com movimentos circulares a escapar pelas portas enferrujadas. Teve a impressão de que alguém de dentro fumava ervas ou acendiam incensos com algum intervalo de tempo. Pensou ser condensação pela umidade, porém logo uma brisa trouxe-lhe o aroma advindo do interior de sua gordinha (como ele mesmo batizou sua fiel companheira) e isso causou-lhe certo desconforto na alma. Era um perfume cítrico e adocicado, mesclado ao putrefato de batatas e cebolas. Certamente causaria ânsias de vômito e vertigem a qualquer pessoa, mas, para Benny, aquela essência aromática tinha notas de prazer e sensualidade.

Lembranças de amor invadiu-lhe os pensamentos. Eram recordações sublimes: serenatas, aventuras amorosas meio a caixas de madeira, além de um estonteante odor de gasolina, tão real que lhe dilatou as narinas e o pavor. Contudo, tão boas lembranças não esconderam as más. E o medo do passado desafinou a percussão de seus batimentos cardíacos. Depois de lembrar das figuras dos velhos desejos e das velhas obsessões, veio-lhe à mente a figura paterna, e o peso da mão acusadora ecoou em suas costas. Ele apertou os olhos e deixou que algumas lágrimas (impedidas de correr à época) viessem à tona. Mas antes que suas próprias mãos seguissem o fluxo dos ensinamentos do pai, ele balançou a cabeça como se quisesse se livrar das cenas que se repetiam. Porém, desta vez, ele se viu como o célebre rei das peças teatrais, a aparecer em cena apenas para restabelecer a ordem natural das coisas.

No entanto, de súbito, aquela que era objeto de seus desejos surgiu-lhe e trouxe-lhe um joule de calmaria. De pele fina, macia e arruivada, ela apresentou-se como uma musa, bailando ao som dos ponteios de uma viola caipira. Ela era realmente especial, muito diferente das outras de ares mundanos. Silvie tinha sempre a alma renovada, dada às condições de sua existência. Ele a amava, especialmente às terças e às sextas-feiras. No mais, Benny angustiava-se, ele sabia que Silvie jamais teria a mínima condição de subverter o seu status quo para, de algum modo, retribuir-lhe todo o amor a ela dedicado em dias de não-feira.

Recordou-se das vezes em que a deixou trancada em sua Kombi: proteção, cuidados exagerados, ciúmes talvez (havia ladrões na cidade, era preciso defender o amor à força, a socos e a cadeados). Mas desta vez, todavia, a sensação de que ela poderia estar zangada por ter sido deixada sozinha por várias horas o incomodou.

Seu coração (de tão apertado) doía. E ainda que a sua visão de mundo o alertasse a cada instante da incapacidade de sofrimento de Silvie, ele sentia náuseas existenciais e corpóreas. Por fim, notou uma única lágrima rolar, caindo sobre o líquido denso e avermelhado no chão. Então, ainda com o aperto no coração, pensou: "por que há lágrimas no lugar de sorrisos?". E reflexões surgiram como no ócio do pós-almoço: refletiu sobre o algo e o nada para fazer; sobre os clientes preguiçosos na hora da sesta em suas redes de retalhos; e sobre o porquê da lágrima existente e da ausência do sorriso durante a proteção corretiva e necessária. Logo imaginou-se cercado por mulheres impuras e ousadas no grande e mais antigo "nec-otium" da vida, e sorriu satisfeito por ter ajudado tantas vezes a eliminar as impurezas do mundo...

Dez longos segundos se passaram desde que segurou na maçaneta da Kombi. Prendeu a respiração, girou a alavanca e abriu a porta com força e ódio. Seu rosto matutino (porém cansado) petrificou-se. Seu semblante guardava feições terroríficas. Era como se ele, ao mesmo tempo, se descobrisse no retrato de Dorian Gray sob o olhar atento e entediado da Medusa. Silvie rolara e caíra morta sobre seus pés. Uma caixa com várias outras Silvies havia amassado e quase partido ao meio o corpo de sua amada. Benny caiu de joelhos, pegou o seu pequeno cadáver gelado, apertou-lhe contra o peito e chorou de forma copiosa.

Enquanto isto, os primeiros pedestres do dia (de aguçadas vistas curiosas, mas não preocupados) assistiam atônitos à lamentável cena sem entender: um homem com um tomate amassado nas mãos, cujas sementes escorriam-lhe por entre os dedos, chorava funebremente a perda de um fruto ainda não vendido. Ninguém lhe ofereceu ajuda. Afinal, aquela era uma manhã de sábado, de escolas e igrejas fechadas; de conluio entre o ócio e o negócio, entre o ser e o nada.

Fim!

Eber Urzeda dos Santos

Roßtal - Alemanha

07/01/2021

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ISBN: 9798481815527


Design da capa por: Eber Urzeda dos Santos

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