• Eber Urzeda Dos Santos

Contos de Urzeda: A Cripta de Roßtal



A Cripta de Roßtal: por Eber Urzeda dos Santos

A Cripta de Rosstal

O Guardião da Cripta

Andrea teve a estranha sensação de que alguém a perseguia. Diminuiu o passo e parou em frente ao centro cultural Spitzweed-Scheune: um casarão construído de arenito e técnicas de enxaimel na pequena cidade de Rosstal, na Alemanha. Ela olhou para as grandes portas do celeiro, para suas janelas entreabertas e o contorno das madeiras recém-pintadas da parede, fechou o casaco até cobrir todo o pescoço e virou-se de forma brusca. Na direção do lago congelado, viu um vulto desaparecer entre os arbustos. Assustou-se a princípio, mas logo um jovem casal que vinha da direção da farmácia aos risos fez com que ela relaxasse e voltasse a respirar normalmente.

Andrea sentiu o vento frio cortar seu rosto e suas mãos. Alguns calafrios percorreram o seu corpo, mas ela não conseguiu identificar a origem dos tremores: “deve ser alguma febre gripal”, pensou, porém não pôde dissimular por muito tempo o sentimento de medo. Ponderou voltar alguns metros, onde uma panificadora acabara de acender as luzes, anunciando à noite e pães frescos. Contudo, a escolta involuntária do casal que passara, deixou-a relutante: medo ou fome. Mais uma densa rajada de vento frio veio e a fez, naquele momento, preferir companhia a pão. Dissimulada e cuidadosa, ela seguiu o casal, guardando uma distância segura para não incomodar, mas também para não ser surpreendida.

O casal caminhava devagar enquanto contemplava as luzes carnavalescas da floricultura. A Rua da Escola estava deserta, e a escuridão caiu de um golpe. A neblina densa e baixa e o ponto de orvalho embebedavam o chão de pedras. Os muros baixos e lodosos e os automóveis com seus vidros embaçados deixavam transparecer o tom sombrio que a cidade adquiria sempre antes da última semana de fevereiro.

— Ei, Rainer, vamos tomar atalho pela igreja? — perguntou a menina ao seu namorado.

— Luise, Luise, você não tem medo do cemitério? — respondeu Rainer, sorrindo irônico.

Andrea desejou não ter ouvido a conversa do casal, mas seus pensamentos traziam-lhe à mente os infortúnios da noite rosstalense. A igreja que acoita em seu subsolo uma cripta repleta de túmulos de sacerdotes, também abriga o velho cemitério em seu jardim, com suas lendas e seus vultos que passeiam pelas sombras das lápides verticais. Além de ser receptora de ruídos advindos do antigo museu, com seus brinquedos antigos e bonecas cheias de vibrações estranhas. Ela pensou que o cemitério não seria um bom lugar para caminhadas e atalhos, principalmente o de Roßtal, pelas narrativas misteriosas que, vez ou outra, eram motivo de estudos. Não bastasse tanto mistério, dizem os antigos, que bocas eram caladas: senão com dinheiro, com convites irrecusáveis ao abandono da cidade.

— Pelo cemitério não… pelo amor de… — dizia Andrea baixinho quando viu Luise sair em disparada pela calçada de pedras que separava os túmulos da igreja e desaparecer.

Rainer ficou parado na entrada. Apoiou-se no portão de madeira e buscou movimentos que pudessem delatar o paradeiro de sua namorada. Enquanto isso, Andrea, a poucos metros dele, não sabia se continuava pela Rua da Escola sozinha ou se cortava caminho pelo cemitério para não perder a companhia. Era preciso pensar rápido, ela não queria entregar de bandeja sua situação de acompanhante não desejada. Resolveu passar pelo cemitério. Criou coragem, encheu os pulmões de ar, ergueu os ombros, empinou o nariz e pediu licença ao rapaz.

Ainda com a respiração presa, cruzou pelo portão de entrada lateral. Então, com um gesto involuntário esbarrou no braço do rapaz e o encarou. A cena monstruosa fez com que ela soltasse a respiração e apertasse o passo. Durante os dois segundos em que olhou fixamente nos olhos do carinha no portão, ela não mais desejou a companhia de ninguém: o rapaz tinha grandes olhos brancos e sua pele amarelada denunciava seu estado de vivo-morto, com manchas que pareciam terra em sua boca, e no nariz, bolas de algodão. As orelhas da Andrea agitaram-se e suas mãos trêmulas buscaram refúgio nos bolsos do casaco. Era preciso olhar para trás, por necessidade, por segurança: ela tinha de manter a distância segura entre ela e o monstro…

Logo, ela pareceu receber um sinal de seu subconsciente e lançou um olhar de alarme em direção ao portão da igreja. Para seu alívio, o rapaz ainda estava lá. Porém, desta vez, a figura fantasmagórica do rapaz parecia sorrir para ela. No entanto, a interpretação do sorriso não lhe alegrou, pelo contrário, a fez correr.

Andrea correu, correu muito para não ser alcançada. Seus sapatos impróprios impedia uma velocidade constante. Ela tropeçou, parou e olhou para trás: o rapaz havia sumido. Ela, ainda assustada, agachou-se, tirou os sapatos, mas não desviou o olhar do portão lateral do cemitério. Sentiu o chão gelado e molhado estremecer seus pés e logo suas pernas. “Está tudo bem?”, perguntou de repente uma voz feminina aproximando-se dela. Ela assustou-se pela proximidade da interlocutora, mas a voz tênue da moça à sombra de uma enorme lápide interrompeu um grito vindouro. Andrea respirou aliviada, pôs as mãos sobre os joelhos, tentando retomar a respiração normal.

— Desculpe-me, não a havia visto antes. Você é a Luise, não é? — perguntou Andrea, relaxando-se aos poucos.

— Como sabe meu nome? Você me conhece?

— Bem! — Andrea fez uma pequena pausa, mas continuou — É que… eu estava acompanhando você e seu namorado… Rainer, o nome dele é Rainer, não é? Mas não se preocupe, eu só queria companhia para não andar por aí à noite sozinha. Desculpe-me se assustei você e o seu namorado. Onde ele está? Diga-o que ele pode sair agora!

A moça afastou-se lentamente da lápide. Seus cabelos tingidos de verde e presos com uma fita vermelha fez com que Andrea sorrisse timidamente. Em seguida, com um pouco mais de luz, o rosto de Luise deixou Andrea estupefata: seus olhos eram brancos, vazios e com gotas de sangue correndo pelas maçãs de seu rosto. Tinha grandes dentes encavalados e negros e uma cicatriz na altura do olho esquerdo. O desmaio repentino fora apenas uma intervenção do cérebro de Andrea, a fim de reduzir um trauma devastador.

Ao longe, do outro lado da igreja, a luz de uma lanterna buscava a direção exata dos ruídos atípicos da noite no cemitério. Rainer, como um fantasma, correu em direção a Luise, tomou-a pela mão e os dois fugiram pela escuridão das sombras noturnas. Próximo ao corpo desmaiado e orvalhado de Andrea, o homem da lanterna abaixou-se, pegou uma fita vermelha e um celular junto ao corpo da jovem e chamou a polícia.

No dia seguinte, como de praxe, Andrea chegou cedo ao trabalho. Preparou uma xícara de chá, sentou-se à mesa da cantina, pegou o jornal Diário de Roßtal e leu a manchete do dia:

“Funcionária da prefeitura de Roßtal é atacada por casal fantasiado de vampiro: a polícia ainda não sabe se foi o mesmo casal que invadiu a cripta e deixou uma lanterna e uma fita vermelha sobre a tumba dos sacerdotes”.

Eber Urzeda dos Santos

Roßtal - Alemanha

08/01/2021


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"Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência".




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