• Eber Urzeda Dos Santos

Contos de Urzeda: Cartas a Aline





Contos de Urzeda, por Eber Urzeda dos Santos


Cartas a Aline

Meia noite em ponto. Enquanto ao longe soavam os sinos da igreja, bruxas e outras figuras misteriosas saiam pelas ruas sedentas de glicose. Todos os outros, de costumes avessos ao Dia das Bruxas, pareciam dormir. Foram noites de espera. Da janela do quarto de Aline podia-se ver apenas uma vela que queimava tímida. Através da transparência da cortina, seus olhos atentos espiavam o movimento das sombras noturnas e das criaturas que caminhavam pela calçada, algumas a dissimular olhares curiosos à sua caixa de correio. Uma delas, pensava Aline, seria o complemento de sua alma, o namorado desejante que desejava. No entanto, em seu íntimo interior, ela sabia que a sombra esperada seria tudo, menos um príncipe, porque sua consciência proibia e censurava qualquer ato infantil no auge de seus dezessete anos.

***

Jovens estudantes saiam aliviados e exaltados do colégio no último dia de aula. Uma etapa mais da vida estudantil completada. Eles rasgavam os cadernos e jogavam as folhas para o alto. A rua banhou-se de branco e risos. Atrás da algazarra, Aline observava incrédula o espetáculo: não tinha motivos para risos nem gozos: “o futuro é incerto!”, dizia ela a si mesma. Seus cadernos e livros intactos permaneciam protegidos junto ao peito. Ela cerrou os dentes, franziu as sobrancelhas e cruzou o mar de adolescentes tristes, mas de risos largos.

O caminho à casa feito a passos curtos, fora apenas o prenúncio da aflição dos dias seguintes: e agora quê? E agora quando? E agora como? E agora quem? O amanhã apresentava-se confuso e as dúvidas traziam-lhe à mente as folhas em branco, atiradas por gente cheia de certezas vazias e de alegrias veladas. Ela viu as folhas subirem velozes e unidas, porém, uma vez alcançada o limite da força propulsora, caiam separadas, caiam leves, caiam sem a preocupação de onde iam pousar.

Aline abriu o portão devagar, mas não entrou. Deixou-se levar pelo caminho enfeitado por canteiros de tulipas coloridas, imaginou-se saindo de casa baixo o choro dos que a olhavam de lado e pessoas a transportar seu ataúde: a reclamar do peso, agonizando-se pela lentidão dos demais. Ela se virou a contemplar a beleza de sua rua, mas falhou em imaginar alguma coisa que lhe trouxesse um mínimo de alegria ao ver-se, ainda criança, correr pelas calçadas mórbidas por onde rastejavam gente avulsa. Então, desejou esquecer sua infância e projetou-se para dentro de sua casa, debatendo-se nos móveis e paredes, como fazem os loucos guiados por uma força contrária à razão: com movimentos involuntários, tamanha a vontade de ferir a própria alma, ao olhar com o escárnio para dentro de si, para aquilo que se tornara.

Entrou e não esperou cumprimentos pelo fim de curso, fora direto para o andar de cima. Trancou-se no quarto e atirou seus cadernos sobre a cama. Um deles quicou sobre o colchão macio e abriu-se no ar. Dele saiu a voar um envelope cor de pêssego. Caiu pesado aos pés de sua escrivaninha e pareceu gritar. Por um momento, ficaram os dois entreolhando-se. Assustada e curiosa, Aline, ainda ofegante pelos degraus da escada e pelo susto da carta voadora, ajoelhou-se sem intenção de tocar o envelope. À luz da janela, o contraste do mosaico dos cristais mesclava-se com o tom de pêssego, dando formas fortes e sedutoras às letras cursivas que lhe fizeram gelar o coração: “A Aline”.

Tomou a carta com cuidado, acariciou-a e deixou que as letras de seu nome penetrassem em sua alma, como fazem os lampejos da lenda do amor à primeira vista: que arrepiam a pele, aquecem o coração e expulsam o senhor de sua própria morada. Aline abriu o envelope com cuidado e retirou de dentro um papel de carta rosado, com sombras escuras e gravuras em forma de corações e de flores. Desdobrou-o. Antes que pudesse ver o texto, sentiu um aroma agradável e apaixonante. Levantou-se do chão sem tirar os olhos da carta, sentou-se cômoda na cama e pôs-se a ler:

Querida Aline,

Perdoe a covardia ou, melhor, a insegurança deste que preferiu as letras frias ao calor do diálogo, para declarar os sentimentos que vão além da mais pura estima entre dois amigos de longas datas. Por verdade, Aline minha, temo que minhas angústias têm a ver com a união entre Eros, Philia e Ágape: juntas, essas formas de amar complementam-se a ditar meus sentimentos por ti: amor-desejo, amor-alegria e amor incondicional. Porém, Aline querida, posto que desconheço seus sentimentos por mim, devo admitir que a mesma insegurança que me impediu de declarar-me verbalmente a ti é a mesma que agora impede de continuar esta carta, pois meus conflitos internos causam-me estranheza quanto à escolha das palavras mais sensatas, para o nobre sentimento que tento explicitar-te. Sendo assim, Aline amada, terei que acalmar o espírito, doutriná-lo à luz do amor sincero, para não profanar o que em mim sente-se afetado por ti…

Aline franziu a testa e levou o corpo para trás: como nos pequenos sustos da vida. Achou a carta melosa. Romântica, mas melosa. Habituada às leituras punks, e aos textos que tematizavam o amor com narrativas de terror e suspense, não soube explicar a si mesma o que havia sentido durante e após a leitura. Tomou ar, um gole d’água e releu a carta.

À segunda leitura, entregou-se ao prazer de sentir-se desejada. A melodia das palavras já não importava tanto quanto saber-se amada. Aline virou e revirou a carta em busca de uma assinatura ou pistas de seu remetente, logo fez o mesmo com o envelope, mas nada encontrou. Dobrou a carta com cuidado e colocou-a de volta no envelope. Deitou-a devagar sobre a cama e cobriu-a com o seu travesseiro.

— Talvez à noite, à luz de velas, a carta possa dizer-me mais sobre si, sobre mim e sobre seu redator! — disse Aline, já mergulhada no poço dos desejos.

***

Três dias após a primeira carta, Aline desistiu de esperar e entregou-se aos livros. Lia tudo que tinha e tudo que conseguia. Terminada as novidades editoriais de sua casa, pediu novos romances em um site de compras. Da janela, viu a moça dos correios aproximar-se de sua casa e desceu as escadas em largos saltos. Abriu a porta e correu em direção ao portão.

— Bom dia! Como vai? Aline cumprimentou a moça e tomou para si o pacote de livros. Assinou a entrega, despediu-se e tomou o caminho de volta, a passos tristes, quase trôpegos.

— Espere, por favor! — disse a moça dos correios — Ainda tem uma carta aqui: a Aline! O endereço é o seu, mas não consta o sobrenome.

Aline, ao ouvir seu nome como destinatária, sentiu um aperto no coração e virou-se de pronto. Com o braço estendido, a moça dos correios tinha à mão um envelope cor de pêssego. Ela avançou sobre a carta e correu para dentro. Atirou o pacote de livros sobre o sofá da sala, subiu para seu quarto e trancou-se por longas horas.

Sentada sobre a cama, comparou os envelopes e a letra cursiva. Embora sentisse o coração palpitar, abriu-o com serenidade. Retirou a carta — de papel idêntico ao da primeira — e o aroma desprendido trouxe-lhe à mente a paixão que sentira durante o intervalo das duas cartas. — Não sei se o amo, pelo carinhoso detalhe das cartas, ou se o odeio, por fazer-me esperar tanto!”, pensou Aline e pôs-se a ler…


Querida Aline,

Perdoe-me a demora! Foram dias de luta sem glória, mas cá estou, seguro de que realmente quero o que desejo: você! Devo confessar-te, no entanto, que tive dois dedos de prosa com a razão, e esta não me jugou príncipe, senão operário. Quisera eu operário das letras, porém mal as conheço: foram-me apresentadas aqui e acolá durante uma infância corrompida pelas máquinas. Embora não haja coesão e coerência nas cartas minhas, saiba que a intenção comunicativa não é outra, senão expor o que por te sinto. Amo-te, mesmo com a falta de musicalidade da ênclise, amo-te…

Apesar de negar a gramática, a carta era tão apaixonada como a primeira, mas com palavras menos técnicas e filosóficas. Para Aline, além do texto em si, as entrelinhas pareciam denunciar a calmaria de alguém que busca repreender a paixão dolorosa. De certa forma, o amante das cartas parecia preocupado em domar as próprias pulsões.

Ela sentou-se junto à escrivaninha e posicionou as duas cartas paralelamente: analisou as palavras com cuidado e notou que as orações da segunda eram mais curtas, bem como os períodos. Bastou a segunda carta para perceber que a linha comportamental do amor tem seus altos e baixos regulados pelo tempo. Porém, para assegurar-se de sua teoria, teria de esperar a terceira carta…

Três dias mais tarde, Aline pôs-se a esperar no portão da frente a moça dos correios. Porém, a moça de roupa azul e amarela passou e deu-lhe apenas um cumprimento frio e obrigatório. A cena repetiu-se por mais três dias. Já cansada de esperar, Aline encontrava-se em seu quarto quando ouviu palmas vindas do portão. Ela desceu rápido, mas ao chegar lá, a moça dos correios já havia desaparecido. Mas para seu espanto, viu parte de um envelope cor de pêssego dentro de sua caixa de correios. Ela correu e buscou as chaves. A ansiedade sentida parecia esconder o buraco da fechadura. Quando finalmente conseguiu abri-la, pegou a carta com tanta raiva que esqueceu as chaves penduradas na fechadura.

Outra vez trancou-se no quarto, outra vez sentou-se na cama, outra vez leu a carta “a Aline”, mas desta vez não houve comparações. A terceira carta trouxe-lhe um mínimo de esperança: diferente do conservadorismo formal da primeira e da informalidade da segunda, a terceira veio-lhe dar um soco no estômago. Eram apenas duas pequenas orações, um período frasal que lhe tapou as vias respiratórias:


Querida Aline,

Cansei-me das palavras, ver-te-ei esta noite.

Pouco importava as comparações, Aline permaneceu imóvel. A economia de palavras da terceira carta não lhe deu margens a diferentes interpretações, não havia entrelinhas: ele viria esta noite, na noite do Dia das Bruxas, mais claro: água!

Fora a tarde mais longa de sua vida. Aline agonizava-se na ansiedade dos minutos contados um a um: descia à cozinha e cativava simpatias, subia ao quarto e bailava girando sobre as pontas dos pés. Algumas vezes pegou-se sorrindo e achou normal: “os que se sabem amados — pensava ela — sorriem, bailam e cativam simpatias”.

Ao pôr do sol, pôs-se linda: seus longos cabelos cacheados tinham o mesmo tom de sua pele ao saber-se amada. Era um vermelho escarlate, escaldante, um mar de fogo. Seus olhos receberam sombras escuras a contrastar com as suas íris claras. Escolheu um vestido preto a delinear suas curvas. Dúvidas, sim, mas apenas com os sapatos: coturno ou salto? Salto baixo, pois sabia-se amada.

Sentou-se na cama a admirar as três cartas e a contar os minutos. Pôs-se a imaginar os atributos do misterioso amante das cartas:

— Deve ser corajoso como os príncipes que invadem as masmorras a salvar princesas covardes. Deve ser paciente como os príncipes que aguardam o momento certo de matar os dragões e beijar as princesas impacientes. Deve ser um grandessíssimo idiota como os príncipes que vão ao bar e deixam em seus castelos suas princesas a mendigar poesias.

À meia noite em ponto, Aline levantou-se da cama furiosa. Sentou-se junto à escrivaninha, abriu a gaveta, retirou de dentro um maço de envelopes cor de pêssego, um bloco de papel de cartas rosado, com sombras escuras e gravuras em forma de corações e de flores e pôs-se a escrever:

Querida Aline,

Liberte-se: agora eu já sei como se sentem as pessoas que se sabem amadas!

Eber Urzeda dos Santos

Roßtal - Alemanha

16/01/2021

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"Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência".




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