• Eber Urzeda Dos Santos

A vida Espelhada de Áivil L. G.

Atualizado: Set 1




Contos de Urzeda, por Eber Urzeda dos Santos




A Vida Espelhada de Áivil L. G.


A pequena Áivil sentou-se à sombra de uma palmeira à margem do açude da cidade. Aquela seria sua última tarde em Ibirajuba, Pernambuco. Apanhou duas pedras no chão e pensou em atirá-las na água. Muito jovem para deliberar sobre a própria vida, viu-se obrigada a partir, levando consigo apenas a esperança da felicidade utópica e a angústia de não poder ser, por força maior, fiel aos próprios desejos.

Uma parte de si, porém, relutava em deixar a cidade. Ela se levantou e guardou as pedras no bolso esquerdo de seu jeans: com o sonho de que estas se transformassem em alianças, quando ela, ainda angustiada, embora desta vez por razão contrária, voltasse a tocá-las com o anelar da mão esquerda, a mais próxima ao coração.

Com a trégua do sol, abandonou as calçadas e caminhou no centro da rua sem se preocupar com o trânsito. Chegou à Praça Agamenon Magalhães e parou frente à Igreja Santo Izídio. Reparou nas muretas dos canteiros da praça pintadas em verde-amarelo e logo passeou o olhar pelas paredes da igreja. Das três portas, apenas a do meio estava aberta. Uma linda mulher trajando um pomposo vestido de noiva deixava as dependências da igreja para ganhar o mundo. Não havia padre nem coroinhas, bem como os convidados para a chuva de arroz, não havia padrinhos, damas de honra nem pajens. O noivo também não fora convidado. Áivil sorriu e pôs a mão esquerda no bolso esquerdo de seu jeans: lá estavam o anel de noivado e a noiva a espera de um milagre.

Ela continuou a zombar da vida prática e girou em passos duplos pela praça como num passo de valsa. Após algumas pestanejadas, viu um rapaz aproximar-se sorridente.

— De que ris? Perguntou ela impaciente.

— Não estou rindo, menina! Não vês a diferença? Não é um riso, é um sorriso, visto que não é cômico, senão apaixonado.

Áivil pensou em dar um nome ao menino, logo ponderou: “melhor não, melhor danço”. Resolveu deixá-lo no esquecimento como havia feito com a noiva e pôs-se a rodopiar sua valsa, e rir de seus sonhos, e sorrir para a finitude do tempo que ainda lhe restava. Já cansada, sentiu seus pés doerem em seus sapatinhos novos, retirou a mão do bolso e secou a única lágrima que rolou naquela tarde de despedidas. Ao voltar a casa, Áivil parou na esquina da Rua Professor Alencar com a Emídio José de Melo e contemplou o portão da escola. Escorado nas grades do portão fechado, o menino da praça voltou a surgir. Mas desta vez, sem o sorriso apaixonado. Ele apenas acenou, fechou os olhos e numa atitude pueril, esfumaçou-se e foi ter com as nuvens.

A porta de sua casa estava aberta. Observou as caixas de mudança espalhadas pela sala. O olhar de seu pai estava distante e o de sua mãe irradiante: tamanho o poder de dissimulação do verdadeiro sentimento em nome do bem-estar familiar. Áivil foi ao seu quarto buscar lembranças, mas nada viu, exceto um colchão estirado para a última noite. Deitada em companhia do luar e das estrelas que invadiam seu quarto através da janela desprovida de cortinas, lembrou-se das duas pedras em seu jeans. Buscou-as e deixou-as no canto, entre a parede e o travesseiro.

Pela manhã, pouco antes de partir, enterrou uma das pedras no quintal. Virou-se e caminhou devagar. Quis olhar pela última vez para a cova rasa e triste, mas já estava decidida a não recuar ante nenhum pretexto: pois sabia — apoiada em suas leituras sob a gameleira do quintal — que o mundo tentaria persuadi-la. Seguiu em frente, levando consigo apenas uma pedra simbólica, para, quando necessário, poder ampliar sua consciência, aumentando a visão sobre si mesma e sobre o mundo. Além de poder desatar os nós de energia presos em algum lugar de sua juventude que pudesse impedi-la, de certo modo, de ver a vida com a altivez de olhos adultos, a aceitar o novo e o diferente; ademais de corrigir descaminhos que a fizessem perder a razão de ser e a capacidade de orientar-se na vida adulta e sombria. Talvez essa pedra lhe trouxesse conforto, quando o resgate de sua memória afetiva fosse seu último suspiro de prazer. Pensou Áivil e partiu.

***

Domingo de sol em Recife. Áivil pisou na areia quente da Praia de Boa Viagem e dois afetos conflitivos invadiram seu ser: o encanto com a imensidão do mar, e o desencanto com a correria das pessoas que lhe negavam um bom-dia, uma boa-tarde ou um cumprimento respeitoso e rotineiro.

— Bom dia, senhora! Disse Áivil.

— Bom dia, senhorita! Ela mesma respondeu irônica ao passar por uma senhora desatenta.

Ela não se entregou. Manteve o sorriso e as considerações ao próximo angariadas desde o berço aos passeios em Ibirajuba. À medida em que crescia, notava seu distanciamento social e a mudança de seu corpo, a fúria de seus desejos e o aumento de suas angústias.

Ainda adolescente, sentia imensa vontade em transcender, ir além do que lhe era permitido para conquistar o mundo. Via a figura paterna nos garotos que se aproximavam com ares machistas, e aos românticos, gentilmente, oferecia-lhes apenas amizade. Esse era seu pensamento contrário: desejava liberdade, mas se entregava à proteção dos fortes.

Pouco tempo depois, em um novo salto com a família, viu-se em São Paulo. Cidade de estremos e de gente ainda mais distante de sua realidade e consciência. Imaginava-se em um grande formigueiro, cuja vida não tinha outro sentido senão o de formigar e proteger a rainha.

Sua família não tardou em voltar a Recife, foi então que veio a chance de deliberar a própria vida pela primeira vez. Áivil sentiu então a presença da angústia das escolhas, mas resolveu ficar: obedecendo aos anseios aventureiros de uma moça, até então forte, que acabara de sentir, pela primeira vez, o gozo da vida adulta e o peso das próprias decisões.

Namorou, casou-se, teve dois filhos, mas só depois conheceu seu marido. Antes, havia criado para ele uma personagem principal maravilhosa, um herói perfeito, restando a si o papel de antagonista, uma vilã que vivia pelas sombras, sem identidade e capaz de atos atrozes. Porém, ao fim da história, o arco das personagens se completou: e o belo tornou-se feio. Suas atrocidades, maquiadas à benevolência, feriu todas as outras personagens: primárias e secundárias, além de alguns figurantes.

Tomada de afetos entre a dor e o alívio, quis reconquistar o tempo perdido. E voltou a bailar pela casa ao som de si mesma para não acordar as crianças. Sorria ao espelho, mas ainda não se reconhecia. Ousou libertar-se uma noite: vestido colado ao corpo de exuberantes linhas, grandes olhos castanhos escuros enfeitados por cílios e sobrancelhas delineadas à perfeição das figuras geométricas, lábios vermelhos pulsantes e convidativos ao beijo do amor eterno e cabelos soltos sobre os ombros alvos e desnudos.

Áivil tardou dois longos anos para libertar-se do novo-velho herói daquela noite. Foi preciso desconstruir outra personagem: ainda mais déspota que o primeiro, cuja tirania quase apagou de vez o pouco reflexo identitário que ainda lhe restava. Foram muitas noites sem dormir, até que ouviu a voz de seus filhos pela primeira vez. Então a última lágrima molhou seu sorriso que há muito havia deixado de existir. Lembrou-se do olhar irradiante de sua mãe meio ao desgosto de deixar sua terra natal e foi tomada por uma força descomunal. Pegou os filhos no colo e dormiram todos abraçados em uma só cama.

Ela despertou cheia de vida. Foi ao banheiro, olhou-se no espelho, mas não ficou feliz com o que viu. Então foi ao quarto, fez as malas, abriu um pequeno baú e retirou um objeto e colocou-o na bolsa. Sem perder tempo, acordou as crianças.

— Venham, temos de viajar! Não precisam ir para a aula hoje. Viajaremos agora, mas na segunda-feira estaremos de volta. Antes que seus filhos perguntassem para onde, ela adiantou a resposta segura de si:

— Vamos à Ibirajuba, minha terra natal. Preciso recuperar algo.

Após algumas horas de voo, chegaram a Recife. E foram direto para o interior. Chegaram à Ibirajuba no cair da tarde. Seus filhos acompanharam a viagem fantasiados com a magia das paisagens de Pernambuco, sentiram-se em casa. Áivil desceu do carro e pediu que seus filhos e o motorista a esperassem um pouco. Parou em frente ao portão de sua antiga casa e bateu palmas. Veio uma bela jovem e as duas conversaram por alguns minutos. As crianças observavam a mãe: ela parecia falar sozinha.

Áivil entrou sorridente a convite da mocinha, deu a volta na casa e foi direto ao quintal. Pediu a atual moradora permissão para cavar e de pronto foi atendida. Depois de cavar alguns buracos, encontrou o que buscava: enrolada em um lenço decomposto pelo tempo, havia uma pedra, a mesma que enterrara no dia em que deixou para trás sua querida cidade. Ela levou a mão à bolsa e retirou a outra pedra que havia levado consigo. Eufórica virou-se para agradecer à jovem da casa. Não a viu. Levantou-se do chão e entrou pela porta dos fundos para agradecer à menina. Ao passar por um espelho, ficou curiosa em saber como estaria seu aspecto depois de voltar a juntar as duas pedras. Pôs-se de frente ao espelho e ficou a observar, não viu seu próprio rosto, apenas um reflexo distorcido de si mesma.

— O que procura? Perguntou a jovem da casa ao aproximar-se.

Áivil assustou-se e virou-se rápido. Olhou para os olhos da jovem e sentiu familiaridade naquele olhar distante e triste:

— Como você se chama? Indagou Áivil.

— Lívia, minha senhora! Respondeu a moça com voz amistosa!

Depois da resposta, viu passar um filme em sua mente de tudo que viveu desde que deixou Ibirajuba. Áivil, então, pegou as duas pedras e as pôs na mão da jovem da casa e disse com ternura:

— Vai ficar tudo bem, Lívia, você pode vir comigo agora. Já não estás sozinha, já não estamos sozinhas, você tem a mim e eu a você.

Lívia deixou a casa pela primeira vez como adulta. Antes de entrar no carro, pela janela, beijou cada filho seu. Então, sentou-se no banco dianteiro do passageiro, pegou um pequeno espelho em sua bolsa e contemplou a si mesma. Ela alegrou-se com o que viu e amou a ideia de não mais viver sua vida espelhada. Senhora de si, sorriu apaixonada e disse:

— Bem-vinda de volta, Lívia!

Eber Urzeda dos Santos

06/08/2020

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"Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência".


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