• Eber Urzeda Dos Santos

Contos de Urzeda: As Verônicas - sobre as inquietudes do ego

Atualizado: Set 12




Contos de Urzeda, por Eber Urzeda dos Santos

As verônicas

(Sobre as Inquietudes do Ego)

— ¡Háblame de ti!

Verônica deixou de brincar com seu Whisky on the Rocks e o tragou de um só gole. Antes de pousar o copo sobre a barra do bar, encarou as duas pedras de gelo e abriu um sorriso convidativo para uma segunda dose.

— Por favor, señor camarero, sería usted tan amable de traerme otra copa de whisky?

Depois de ouvir o mundo em seu pequeno mundo, resolveu romper as fronteiras de suas inquietudes e partiu rumo ao novo. Sentada à barra de um Piano Bar, de uma cidade qualquer, de um país vizinho, fora instigada, pela primeira vez, a falar de si. As trovoadas de medo que antes sentia deram lugar à coragem incitada por um desconhecido e pelos flashes de álcool em sua mente, como um apelo à liberdade:

— Sou uma Verônica!

— ¿Eres una, o la Verônica?

— Sou uma delas. Embora pareçamos um pouco, em algumas situações, somos completamente diferentes: digamos duas.

O indagador ficou confuso, não pelo idioma, mas pelo rumo da fala. Verônica sentiu-se à vontade. Apesar de notar o espanto de seu interlocutor, continuou:

— Eu era, de certo modo, uma moça alienada: eu procurava sempre me distrair com coisas fora de mim. Fazia questão de esquecer que eu existia. Eu era o que as pessoas diziam que eu era. Realmente cheguei a pensar que eu era o que me pintavam. Até que na Universidade, numa aula sobre a transcendência do ego, o professor incorporou o filósofo Sartre e chegou bem pertinho de mim, apontou-me o dedo indicador e disse:

— Você, Verônica, é duas!

O rapaz latino acomodou-se melhor no banco alto da barra e pediu um vinho tinto. Percebeu que a voz da Verônica parecia afinada com o tom do piano que instrumentalizava A Arte da Fuga, de Bach, e deixou-se levar pelo ritmo da fala musical da bela garota de cabelos compridos, de sorriso bêbado, mas de olhos e ideias atentas.

— Ouvi os exemplos do professor e aos poucos percebi que as Verônicas são providas de inquietudes que extrapolam o senso comum da comunicação e da percepção da realidade entre si, ou seja, uma está sempre em conflito com a outra. Eu te darei um exemplo prático, o que me levou a estar sentada aqui contigo agora: ao chegar a casa, fui direto tomar uma ducha para me livrar da inhaca de uma dura semana de trabalho. Então, pus-me diante do maldito espelho do banheiro, peguei o secador e eis que surgiu a outra Verônica; mulher detestável e disse: — Nossa, acho que engordei! Nesse momento, ficamos as duas putas de raiva: a Verônica gordinha e a Verônica que percebeu que havia engordado.

O rapaz sorriu, olhou para o corpo da bela moça e não encontrou os excessos da narrativa. “No veo ninguna grasa, además ella está buenísima. Pero bueno, serán cosas de mujer. Mejor me callo y continuo a catar mi vino”. Pensou o rapaz, depois de provar um pouco de seu vinho e voltar a se concentrar no sotaque português brasileiro da menina que filosofava em espanhol.

Enquanto tentava organizar os seus argumentos para continuar, Verônica recebeu sua segunda dose como um pequeno troféu. Ela olhou para o líquido dourado a embebedar as duas pedras de gelo. Sobre as maçãs de seu rosto surgiram duas erupções rosadas: covinhas, anunciando um leve sorriso de satisfação ao sentir se aproximar o exato momento de beber o primeiro gole, o momento Kairós da bebida: em que o fogo do álcool se mescla com o frescor gélido das pedras. Depois disso, inspirada em Khronos, a bebida se torna apenas um líquido alcoólico com água. Pensava ela.

— Por isso resolvi — ou resolvemos — sair um pouco. Tomar algo forte pra ver se a outra Verônica me deixa transcender um pouco. Ouvir boa música também ajuda, parece que ela gosta mais dos inferninhos, creio que ela é fanqueira.

— ¡Bueno, bueno! ¿Pero cual Véronica está aquí conmigo?

— Até o terceiro uísque, a que ouve Bach, a que lê e escreve sonetos. Depois disso, posso ser encontrada em algum antro, descendo até o chão e bebendo cerveja de qualidade duvidosa.

— Uau, y como eso termina?

— No dia seguinte. Quando há o reencontro entre as duas Verônicas. Quando começa o conflito, o julgamento. Quando somos vítimas dos nossos próprios afetos, no reparto das culpas e das angústias: popularmente conhecida como ressaca.

— ¡Oh, vaya, creo que te quiero!

Verônica engasgou-se com uma das pedras de gelo, cuspiu-a na mão, sorriu tímida, mas não deixou que um “creio que te amo” passasse em branco, sem uma reflexão pós-drinque.

— Veja bem, meu caro desconhecido, aproveito que ainda não pedi o terceiro uísque para lhe informar que você não me ama de verdade e não me amará nunca. Isso seria impossível. Afinal de contas, você ama a ideia que você criou de mim a partir do meu próprio comportamento, além de outras fontes que você quis usar. Mas, cuidado, o meu comportamento não é esse o tempo todo. Aliás, ele é fruto de uma condição de tentar me desligar do mundo por uma mísera noite que seja. A ideia que você faz de mim, portanto, não diz nada sobre mim, senão sobre você mesmo. Mas, pensando bem, da mesma forma com que você se relaciona com o que crê que eu sou, eu também me relaciono com o que creio que você é. A ideia que faço de você agora é encantadora. Nesse sentido, se a ideia que faço de você, pertence a mim: eu sou encantadora.

Os dois riram desafinados com o tom do piano, mas afinados na transparência da relação que começara. O rapaz pediu outro vinho e propôs um brinde às Verônicas. Ela titubeou, mas se lembrou de Kairós: o momento supremo para amar é o momento em que o amor se faz presente. Então, ela pediu o terceiro uísque, brindou às transcendências dos egos e tomou de um só gole o último drinque da noite. Atirou o copo vazio sobre a barra do bar e pegou na mão do rapaz:

— Venha comigo, quero que conheça a outra Verônica. Ela é uma pessoa fantástica!

O rapaz ficou encantado: tinha à mão uma Verônica e ia ao encontro da outra. Porém, após alguns anos se viu frente ao mesmo espelho maldito do banheiro da casa das Verônicas:

— Juan, Juan, você está ficando calvo.

Os dois Juans ficaram putos de raiva e resolveram sair: nada que três Whiskys on the Rocks não resolva.

Eber Urzeda dos Santos

11/09/2020


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"Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência".

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Referência:

Sartre, Jean-Paul (1937) “La transcendance de l´ego” in Recherches philosophiques, nº

6, tradução e apresentação de Alexandre de Oliveira Torres Carrasco.




© 2020 por Eber Urzeda dos Santos

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