• Eber Urzeda Dos Santos

Trevas do Eu: As Verônicas




As verônicas

(Sobre as Inquietudes do Ego)

Sobre as Inquietudes do Ego

— ¡Háblame de ti!

Verônica deixou de brincar com seu Whisky on the Rocks e o tragou de um só gole. Antes de pousar o copo sobre a barra do bar, encarou as duas pedras de gelo e abriu um sorriso convidativo para uma segunda dose.

— Por favor, señor camarero, ¿sería usted tan amable de traerme otra copa de whisky?

Depois de ouvir o mundo em seu pequeno mundo, resolveu romper as fronteiras de suas inquietudes e partiu rumo ao novo. Sentada à barra de um Piano Bar, de uma cidade qualquer, de um país vizinho, fora instigada, pela primeira vez, a falar de si. As trovoadas de medo que antes sentia deram lugar à coragem incitada por um desconhecido e pelos flashes de álcool em sua mente como um apelo à liberdade:

— Sou uma Verônica!

— ¿Eres una, o la Verônica?

— Sou uma delas. Embora pareçamos um pouco, em algumas situações, somos completamente diferentes: digamos, duas.

O indagador ficou confuso, não pelo idioma, mas pelo rumo da fala. Verônica sentiu-se à vontade. Apesar de notar o espanto de seu interlocutor, continuou:

— Eu era, de certo modo, uma moça alienada: procurava sempre me distrair com coisas fora de mim. Fazia questão de esquecer da minha própria existência. Eu era o que as pessoas me pintavam. Realmente cheguei a pensar ser só uma obra inacabada. As coisas começaram a mudar quando, um dia, na Universidade, numa aula sobre a transcendência do ego, o professor incorporou o filósofo Sartre, chegou bem pertinho de mim, apontou-me o dedo indicador como se fosse me acusar de algo e disse:

— Você, Verônica, é duas!

O rapaz latino acomodou-se melhor no banco alto da barra e pediu um vinho tinto. Percebeu que a voz da Verônica parecia afinada com o tom do piano que instrumentalizava A Arte da Fuga, de Bach, e deixou-se levar pelo ritmo da fala musical da bela garota de cabelos compridos, de sorriso bêbado, mas de olhos e ideias atentas.

— Ouvi os exemplos do professor e aos poucos percebi que as Verônicas são providas de inquietudes que extrapolam o senso comum da comunicação e da percepção da realidade entre si, ou seja, uma está sempre em conflito com a outra. Eu te darei um exemplo prático, o que me levou a estar sentada aqui contigo agora: ao chegar a casa, fui direto tomar uma ducha para me livrar da inhaca de uma dura semana de trabalho. Então, pus-me diante do maldito espelho do banheiro, peguei o secador e eis que surgiu a outra Verônica, mulher detestável, e disse: "nossa, acho que engordei". Neste momento, ficamos as duas (com razão) putas de raiva: a Verônica gordinha e a Verônica que percebeu que havia engordado.

O rapaz sorriu, olhou para o corpo da bela moça e não encontrou os excessos da narrativa: "no veo ninguna grasa, además ella está buenísima. Pero bueno, serán cosas de mujer. Mejor me callo y continuo a catar mi vino", pensou o rapaz, depois de provar um pouco do seu vinho e voltar a se concentrar no sotaque português brasileiro da menina a filosofar em espanhol.

Enquanto tentava organizar os seus argumentos para continuar, Verônica recebeu sua segunda dose como um pequeno troféu. Ela olhou para o líquido dourado a embebedar as duas pedras de gelo. Sobre as maçãs de seu rosto surgiram duas erupções rosadas: covinhas, anunciando um leve sorriso de satisfação ao sentir se aproximar o exato momento de beber o primeiro gole, o momento Kairós da bebida: em que o fogo do álcool se mescla com o frescor gélido das pedras. Depois disso, inspirada em Khronos, a bebida se torna apenas um líquido alcoólico com água, pensava ela.

— Por isso resolvi (ou resolvemos) sair de casa um pouco: para tomar algo forte, com a esperança de que a outra Verônica me deixasse transcender um pouco. Ouvir boa música também ajuda, parece que ela gosta mais dos inferninhos, creio que ela é fanqueira.

— ¡Bueno, bueno! ¿Pero cuál Véronica está aquí conmigo?

— Até o terceiro uísque, a que ouve Bach, a que lê e escreve sonetos. Depois disso, posso ser encontrada em algum antro, descendo até o chão e bebendo cerveja de qualidade duvidosa.

— ¡Uau! ¿Y como eso termina?

— No dia seguinte. Quando há o reencontro entre as duas Verônicas. Quando começa o conflito, o julgamento. Quando somos vítimas dos nossos próprios afetos, no reparto das culpas e das angústias: popularmente, este momento é conhecido como ressaca.

— ¡Oh, vaya, creo que te quiero!

Verônica engasgou-se com uma das pedras de gelo, cuspiu-a na mão, sorriu tímida, mas não deixou um "creio que te amo" passar em branco, sem uma reflexão pós-drinque.

— Veja bem, meu caro desconhecido, aproveito que ainda não pedi o terceiro uísque para lhe informar que você não me ama de verdade e não me amará nunca. Isso seria impossível. Afinal de contas, você ama a ideia que você criou de mim a partir do meu próprio comportamento, além de outras fontes (só suas) que você quis usar. Mas, cuidado, o meu comportamento não é este o tempo todo. Aliás, ele é fruto de uma condição de tentar me desligar do mundo por uma mísera noite que seja. A ideia que você faz de mim, portanto, não diz nada sobre mim, senão sobre você mesmo. Mas, pensando bem, da mesma forma que você se relaciona com o que crê que eu sou, eu também me relaciono com o que creio que você é. A ideia que eu faço de você agora é encantadora. Nesse sentido, se a ideia que eu faço de você, pertence a mim: eu sou encantadora.

Os dois riram desafinados com o tom do piano, mas afinados na transparência da relação que começara. O rapaz pediu outro vinho e propôs um brinde às Verônicas. Ela titubeou, mas se lembrou de Kairós: o momento supremo para amar é o momento em que o amor se faz presente. Então, ela pediu o terceiro whisky, brindou às transcendências do ego e tomou, de um só gole, o último drinque da noite. Atirou o copo vazio sobre a barra do bar e pegou na mão do rapaz:

— Venha comigo, quero que conheça a outra Verônica. Ela é uma pessoa fantástica!

O rapaz ficou encantado: tinha à mão uma Verônica e ia ao encontro da outra. Porém, após alguns anos , viu-se de frente ao mesmo espelho maldito do banheiro da casa das Verônicas:

— Juan, Juan, você está ficando calvo!

Os dois Juans ficaram (com razão) putos de raiva e resolveram sair: nada que três Whiskys on the Rocks não resolva.

Fim!

Eber Urzeda dos Santos

11/09/2020




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ISBN: 9798481815527


Design da capa por: Eber Urzeda dos Santos

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