• Eber Urzeda Dos Santos

Trevas do Eu: Ensaio sobre Verônicas






Ensaio sobre Verônicas


ou da depressão

Verônica despertou-se depois de uma rara noite sem pesadelos. Não fosse a presença de um homem nu, dormindo em sua cama, aquela seria apenas mais uma manhã qualquer, de um dia qualquer, em Estocolmo. Levantou-se e juntou suas roupas espalhadas pelo quarto. Foi à cozinha e preparou uma xícara de café. Ao olhar pela janela, maravilhou-se com o contraste entre a ruazinha Tjusarstigen, em Värmdö, e a imensidão do lago que precedia o mar Báltico. Ao retornar ao quarto, sentou-se em uma cadeira de bambus entrelaçados diante de sua cama e pôs-se a contemplar um cavalete com uma tela para pintura em branco, além de uma mesinha com alguns pincéis sobre uma paleta tingida com restos de sua última aquarela.

Ela envolveu a xícara com as duas mãos e deixou-se aquecer ao ponto de sentir os seus ombros relaxarem. O calor da porcelana quase queimou seus lábios durante o primeiro gole. Porém, o prazer aromático que lhe trouxe energia e gozo, fez com que ela dosasse a dor pelo desejo. Entre goles, definia as formas daquele estranho ser sem suas vestes sociais. Imaginava-o em sua tela, retratado a grafite, emoldurado e pendurado para sempre na parede da sua sala de jantar.

Levantou-se da cadeira e caminhou atenta, sem tirar os olhos do estranho em sua cama. Diante da mesinha com o material de sua arte, viu surgir a parte de um livro sob a sua paleta de pintura. Retirou a paleta e pôde ler o título. Aquele livro foi responsável por deixar a pequena cidade de Hidrolândia, no interior goiano, para aventurar-se pela desconhecida e fria Suécia.

Voltou a sentar-se e cobriu as pernas com um cobertor vermelho e negro. Folheou o livro intitulado Contos de Urzeda até chegar à página trinta: coincidindo com a sua idade à época da primeira leitura do conto Setembro Tinto. Respirou fundo com a atenção voltada para os seus pulmões e abdômen (como exercício de yoga) e sentiu resquícios de cheiro de café misturados ao aroma dos troncos de pinho a queimar em sua lareira. Olhou para a sua cama onde um corpo, às vezes troféu, às vezes contrapeso, invernava como se a estação fria e escura do país houvesse apenas começado. Tomou coragem e leu o conto para decidir o próximo passo daquela manhã cinzenta:

Contos de Urzeda:

Setembro Tinto.

O reflexo de seus olhos na lâmina afiada e voraz causou-lhe calafrios. Porém o desejo de sentir o seu próprio sangue quente correr pelo seu pescoço, cobrindo-lhe os seios e a alma, a excitava. Enquanto riscava de leve o pescoço com a faca, ziguezagueando a vida, flertando com a morte, ouvindo de fundo "Non, Je Ne Regrette Rien", na voz triste e doce de Édith Piaf, Anna Carolina pensou nos prazeres, nas mágoas, nos amores eróticos — portanto tristes — e tentou não se arrepender de nada: "amanhã todos estarão mortos", pensou sorridente e passou a língua de forma suave sobre o fio da faca, deliciando-se com o sabor agridoce de seu sangue e passado.

Na solidão de sua casa, sem pais autoritários, sem amantes sedentos de sorrisos, vivia de filosofias e bruxarias que tomavam as estantes e seu tempo. Duas amigas, não mais: "para quê?" Ainda assim, uma delas vagava desequilibrada entre o coleguismo e a amizade. Carol combatia a solidão e o tédio com álcool e ervas. Fingia orgasmos com meninas e meninos. Não tinha telefone, internet nem obrigação de cumprimentos cordiais com aqueles que frequentavam a mesma calçada.

Certa feita, tentada a noite toda a visitar o jardim das almas, frustrou-se ao ver o sol. Logo, pegou sua bolsa de fibras vegetais e saiu em disparada. Seus tormentos traduziam-se em tristeza e fome; lágrimas e trigo.

— Bom dia! Dê-me dois pães, por favor!

O balconista, o bancário, a professora de francês e quase todos que a conheciam evitavam o olhar direto. Quem se atrevesse a encarar aqueles olhos sempre acusadores, críticos e irônicos por excelência, tinha a obrigação de ser, no mínimo, sincero ou de sempre dar voz ao pensamento primário.

— Por que está me olhando? — perguntou Anna Carolina e encarou o pobre rapaz.

— É que...

— Não precisa escolher palavras, diga o que pensou e pronto: tenha brio, cara!

— Desculpa, é que... sua boca está sangrando.

— Por que se desculpar, foi você que a fez sangrar?

— Não... eu só queria...

— Faça só o seu trabalho, meu querido. Só quero dois pães. E o pedido ainda foi acompanhado de um por favor: o que já é muito. Aff! Essa mania interiorana ainda me mata!

Anna Carolina retirou os pães da sacola plástica e os botou em sua bolsa. No caixa, entregou o dinheiro, a sacolinha e disse:

— Plástico?! Vocês não aprendem mesmo!

Anna passeou pelo centro da cidade a observar os cães de rua, os mendigos e os pardais. Pit dogs fechados, a biblioteca lacrada pela polícia e os enormes cadeados nos portões da igreja como uma mensagem implícita: aqui não entra nem Deus.

O ócio matinal e as migalhas dos pães diminuíam o seu sofrimento e alimentavam os pássaros. As pessoas, que por ali passavam, experimentavam diferentes sensações ao se deparar com a figura quase fantasmagórica da pequena Carol: medo, pena, pavor e compaixão. Para uns, uma menina pobre e feia vestida de morte; para outros, uma pobre e linda menina vestida de luto.

Nas janelas dos casarões que sobraram, meninos apaixonados esperavam a menina riscada passar. Enquanto isso, nos escombros dos casarões demolidos, meninas confusas se tocavam, na esperança de sentir outros seios e dedos que não os seus. E como ela se encantava com isso. Sorriso provocador para os meninos, ingênuo para as meninas. Depois de incendiar a juventude, olhava para trás e contemplava seu próprio rastro de sutil escárnio e esperança. Era o que lhe mantinha viva: espalhar o desejo, mas ao mesmo tempo, a ausência.

Anna Carolina abriu a porta com raiva, jogou a bolsa sobre a mesa e deitou-se no sofá. Tentou prender fogo numa pequena bituca de ervas e chocolate. As lágrimas da noite anterior impediram que faíscas se aproximasse de seu refúgio: deixou de tentar. Foi ao banheiro e jogou a bituca no vaso sanitário. Caminhou pensativa pela casa. Abriu a janela enferrujada da sala e deixou que a luz do sol a cegasse por um instante: abrindo e fechando os olhos, sentia calor e náuseas.

Pensou em deixar aquela vida sem sentido. Estava decidida e começou a agir: pintou o cabelo de preto, vestiu roupas curtas combinando cores, comprou um celular bacana, fez alguns selfies provocantes, vendeu-os aos zumbis do Instagram e inscreveu-se para um concurso público.

— Vê-me aí dois "pão", anda!

— Carol, minha querida, seu look tá arrasando!

— Gostou, é?! Depois me liga, que a gente marca!

As marcas dos piercings, as tatuagens desbotadas e os riscos no pescoço ainda eram um gatilho. Deixou de pensar na vida para vivê-la. Conseguiu viver por dois longos meses como uma ameba das redes. Até que em uma tarde de setembro, durante um passeio pelo lago, olhou para a água e vislumbrou o céu. Era um tom tinto, e naquele revérbero bucólico, formado por nuvens rarefeitas e pela calmaria do sol, deleitando-se sobre o início da primavera austral, viu seu rosto perfeito e chorou pela última vez.

Foi encontrada viva (salvo ressalvas do público curioso e as suas próprias interpretações) meio a uma nuvem de incensos, de vestido preto, coturno gótico e maquiada de morte: como se quisesse, a seu estilo, viver a vida como em um conto de fadas, mas de fadas negras, em que os finais não sofressem distorções da Disney: com beijos, festas e felizes para sempre. Pelo contrário, imaginava rugas, doenças e funerais de princesas leprosas e príncipes alcoólatras sem os seus cavalos brancos.

Sete dias passaram. Não sabiam se vivia morta ou morta vivia. Ninguém ousava se aproximar, lançar-lhe um olhar direto, tampouco restava coragem à população para uma pergunta pessoal: cidadezinha em pânico.

Meninos tristes, entre soluços a velarem as suas puberdades corrompidas, caminhavam pelos corredores da escola cabisbaixos, incrédulos e a murmurar seus pesares: "Anna Carolina, infelizmente, já não existe..." Enquanto meninas (não menos confusas), em luto branco e leite de rosas, andavam pelos corredores do colégio cheias de si e distribuindo bilhetes com uma mensagem ilusória: "Anna Carolina, sou eu...".

Roßtal – Alemanha

26/09/2017

***

Verônica terminou de ler o conto e sentiu a mesma angústia da primeira leitura. Lembrou-se das várias vezes que pensou em abreviar a sua própria existência, no afã de destruir o julgamento de terceiros: pois, para ela, as pessoas a conheciam apenas por meio de uma personagem fictícia que ela própria criou para não corromper o meio social. Para seu pesar, ela era obrigada a conviver com um eu inventado para proteger a si, um para proteger os outros, e um terceiro eu, ao qual não tinha controle, que insistia em mostrar tudo o que ela mais desejava ocultar. Então, para proteger seu eu sincero, Verônica resolveu ir para Estocolmo, trabalhar com pessoas que buscavam a legítima defesa da representação de si, por meio da destruição do próprio corpo.

Sentiu algo muito parecido à felicidade quando recebeu um e-mail convidando-a para trabalhar em um centro de recuperação do humano: que cuidava de pacientes depressivos, com comportamentos suicidas. No dia seguinte, deixou a pequena cidade de Hidrolândia para cuidar de gente (como ela) sedenta de respostas para a vida. Recomeçar em um país desenvolvido, mas com altos índices de suicídio, era para ela, em si, a primeira resposta.

Ao pegar a BR-153, rumo ao aeroporto Santa Genoveva, em Goiânia, contemplou a absurda placa à margem da estrada: "Perigo, depressão na pista!" E passou a notar, desde então, o relevo contínuo da estrada que, vez ou outra, apresentava imperfeições em sua estrutura asfáltica, fazendo com que ela, durante aquele trajeto, sentisse tédio por ver sua vida e seu táxi desacelerarem e, também, pânico ao perceber que durante a desaceleração de ambos, podia ouvir vozes a indagar os vários porquês de uma existência vazia.

Depois de um ano na Suécia, ajudando pessoas com transtornos depressivos, Verônica aprendeu a lidar com o olhar do outro; a não beber do veneno oferecido pelos encontros tristes com o mundo ou com as pessoas que buscavam, no outro, as imperfeições que lhe eram características. Também aprendeu que ao ouvir ruídos, a permear seu íntimo silêncio, ela poderia exorcizar, por meio da pintura, todos os seus demônios.

***

Verônica deixou o livro sobre a cadeira. Observou cada traço do homem nu, pegou seus grafites, preparou tonalidades secretas de peles nórdicas, posicionou o cavalete para ficar em frente à cama e pôs-se a pintar! Com o grafite rabiscou as linhas tortas do sonolento e frio homem. Desenhou-o com o rosto atolado no travesseiro como se ele não precisasse respirar. Esfumaçou os detalhes corpóreos em sombras quase imperceptíveis à pouca luz: resultante do conflito entre a tristeza solar e as nuvens parasitas. À medida que o homem nu ia ganhando formas densas em seu quadro, ia desaparecendo a imagem terrorífica de seu velho pai, cujo conservadorismo machista era quem regia e ditava os ritmos e princípios de uma relação pavorosa: de dependência, de ciúmes doentio, de domínio e de pré-julgamentos.

Quando terminou o quadro, seus olhos encheram-se de lágrimas, as maçãs de seu rosto avermelharam-se por força da ternura e do sorriso que lhe invadiam a alma. Não sentiu mais a presença do espírito do pai: o homem nu já não existia mais. Estava preso à moldura, e sua cama liberta de todos os seus fantasmas do passado.

Ela sentiu uma leveza corporal absurda, o peso do mundo deixou de pressionar os seus ombros. Verônica sorriu, pegou sua lapiseira de assinaturas e escreveu uma dedicatória à personagem que lhe ensinou a ver a si mesma na escuridão:

À inesquecível Anna Carolina, com amor!

Fim!


Eber Urzeda dos Santos

05/09/2020

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www.contosdeurzeda.com

www.eberurzedadossantos.com

eber.urzeda@gmail.com


ISBN: 9798481815527


Design da capa por: Eber Urzeda dos Santos


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