• Eber Urzeda Dos Santos

A Kombi Azul e a Náusea

Atualizado: Set 1



Contos de Urzeda, por Eber Urzeda dos Santos


A Kombi Azul e a Náusea (Um conto filosófico sobre as relações abusivas)

Benny assustou-se com o vermelho sangue que corria pela porta de sua velha Kombi azul. Na noite anterior, estacionou-a ao lado de sua frutaria, tomou sua bicicleta cargueira — também azul, porém de tom mais escuro — e foi a casa depois de um longo dia de trabalho e melancolia. Porém, agora, o rubro líquido veio anunciar a contingência de um dia atípico e a aversão pela vida mecânica.

***

Chave a girar na fechadura e os mesmos pensamentos existenciais devido ao trabalho forçado por força maior. Foram giros intermináveis, algo lhe pareceu estranho, pensou ouvir ruídos vindos do interior de seu furgão. De frente para a porta da loja e de costas para sua Kombi, sentiu que a qualquer momento poderia ser surpreendido. O conluio da fechadura com o ladrão de legumes é prática conhecida: um rouba-lhe o tempo, a paciência, enquanto o outro, a espreita, surge deselegante e amordaça batatas e carambolas. Por isso, com razão, diz que o demônio vive nos buracos das fechaduras, por isso orelhas atentas, por isso olhos inquietos. Desistiu de girar.

Olhou para os lados e contemplou a tranquilidade da cidade. Aproximou-se da Kombi e pôs a mão esquerda na maçaneta da porta lateral da carroceria. Não havia ninguém nas proximidades da Praça da Matriz, da pequena cidade de Hidrolândia, no interior goiano. Diferente dos dias atuais, a praça, na década de noventa, ainda tinha um papel de destaque na vida cotidiana do pacato município: o sexo era feito nos canteiros elevados, entre arbustos e ervas daninhas. De seu fruto nasciam futuros pastores de gente sem graça, padres com talentos administrativos e pedreiros expertos em demolir a história. No entanto, aquela era uma manhã de sábado, livre de qualquer tipo de assédio, de comércio preguiçoso e de igrejas e escolas fechadas. Benny olhou para a sua mão trêmula e sentiu que o frio do alumínio parecia congelar seus dedos.

Antes de abrir, quis ver de antemão o que estava acontecendo dentro da velha Kombi. Olhou através da janela de vidro, mas nada viu de concreto, apenas o que parecia ser uma névoa densa com movimentos circulares a escapar pelas portas enferrujadas. Teve a impressão de que alguém desde dentro fumava ervas ou acendia incensos com algum intervalo de tempo. Pensou ser condensação pela umidade, porém logo uma brisa trouxe-lhe o aroma advindo do interior de sua gordinha — como ele mesmo batizara sua fiel companheira. Era um perfume cítrico e adocicado, mesclado com o putrefato de batatas e cebolas. Certamente causaria ânsias de vômito e vertigem a qualquer pessoa, mas para Benny, aquela essência aromática tinha notas de prazer e sensualidade.

Lembranças de amor, de serenatas, de aventuras meio a caixas de madeira e um estonteante odor de gasolina invadiram seus pensamentos, enquanto o medo alterava de forma quase mecânica seus batimentos cardíacos, pelo peso da mão paterna impulsionando a sua própria mão em direção a rostos e flores. No entanto, de súbito, aquela que era objeto de seus desejos surgiu-lhe à mente e trouxe-lhe um joule de calmaria. De pele fina, macia e arruivada, ela apresentou-se como uma musa, bailando ao som dos ponteios de uma viola caipira. Ela era realmente especial. Diferente das outras de ares mundanos. Silvie tinha sempre a alma renovada, dada às condições de sua existência. Ele a amava, especialmente às terças e às sextas-feiras, mesmo sabendo que ela não tinha a mínima condição de subverter seu status quo para retribuir-lhe todo o amor dedicado em dias de não-feira.

Recordou-se das vezes em que a deixou trancada em sua Kombi: proteção, cuidados exagerados, ciúmes talvez (havia ladrões na cidade, era preciso defender o amor à força e cadeados). Mas desta vez, todavia, a sensação de que ela poderia estar zangada por ter sido deixada sozinha por várias horas o incomodou. Seu coração apertado doía. E ainda que a razão o alertasse a cada instante da incapacidade de sofrimento de Silvie, ele sentia náuseas existenciais e corpóreas. Até que uma única lágrima rolou, caindo sobre o líquido denso e avermelhado no chão. Então, com um aperto no coração, pensou: “por que há lágrimas no lugar de sorrisos?”. E reflexões surgiram como no ócio do pós-almoço: refletiu sobre o algo e o nada pra fazer; sobre os clientes preguiçosos na hora da sesta em suas redes de retalhos; e sobre o porquê da lágrima existente e da ausência do sorriso durante a proteção corretiva, entre o álcool bom e a barra do bar, no grande “nec-otium” da vida…

Dez longos segundos se passaram desde que segurara na maçaneta da Kombi. Prendeu a respiração, girou a alavanca e abriu a porta com força e ódio. Seu rosto matutino, porém, cansado, petrificou-se. Seu semblante guardava feições terroríficas. Era como se ao mesmo tempo se descobrisse no olhar da Medusa e no retrato de Dorian Gray. Silvie rolara e caíra morta sobre seus pés. Uma caixa com várias outras Silvies havia amassado e quase partido ao meio o corpo de sua amada. Benny caiu de joelhos, pegou seu pequeno corpo gelado, apertou-lhe contra o peito e chorou de forma copiosa.

Enquanto isso, os primeiros pedestres do dia (de aguçadas vistas curiosas, mas não preocupados) assistiam atônitos à lamentável cena sem entender: um homem com um tomate amassado nas mãos, cujas sementes escorriam entre os dedos, chorava funebremente a perca de um fruto. Ninguém lhe ofereceu ajuda. Afinal, aquela era uma manhã de sábado; de deliberações existenciais entre cegos, surdos e mudos; de livre-arbítrio dos que seguem a Deus, mas só respeitam o diabo; e da renúncia voluntária da escolha entre ócios e negócios.


Eber Urzeda dos Santos

21/08/2020

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"Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência".


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© 2020 por Eber Urzeda dos Santos

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